CAPÍTULO VINTE

1066 Palavras
GABRIELA BORGES Eu tinha certeza de que, se eu não aceitasse a proposta, seria minha palavra contra a do Marcus, e eu já vi que o Mauro não sabe separar completamente o delegado do irmão. Clara ligou a TV na MTV, assistimos ao top 10 e acabamos caindo no choro ouvindo Big Girls Don't Cry, da Fergie. Usamos os controles da TV e do ar como microfones, cantamos e pulamos na cama, deixando de lado toda a tristeza. Quando a música acabou, ouvimos a risada de Hugo, que nos olhava do batente da porta. Seus dreads estavam presos em um coque no topo da cabeça, alargadores discretos na orelha, usando uma camisa verde e uma calça preta. Se ele não estivesse com os pés descalços, perguntaria onde ele iria. Estava bonito. — Quem canta essa música? — A Fergie — Clara respondeu. — Então deixem ela cantar, vocês não são boas nisso — falou rindo. Minha amiga fez uma careta e rimos. — Palhaço — Clara jogou um travesseiro nele. Pelo visto, me procurar aproximou os dois. Senti um pouco de ciúmes por isso. — Achei que tinha morrido afogado no chuveiro! — Estava conversando com um amigo. Ele é um excelente advogado. Amanhã de manhã ele estará aqui, virá no primeiro voo. Ele me olha como quem se sente culpado. — Gabi, eu não contei nada, só disse que precisava dele. Você quem irá conversar com ele e decidir o que quer fazer, ok? — Obrigada, Hugo. Está sendo muito bom ter vocês aqui, obrigada mesmo! — Aaah, claro que ele viria — minha amiga desce da cama rindo. — Ele estava tão preocupado com você que em alguns momentos cheguei a desconfiar dele! Hugo não esconde a surpresa com as palavras de Clara. Pedimos comida no quarto, assistimos Beija Sapo, o nosso programa preferido, apresentado pela Daniella Cicarelli, onde o príncipe ou a princesa da noite escolhia o sapo (ou a sapo) sem ver a pessoa, só pela conversa. Um amigo ou familiar mostrava o quarto e objetos pessoais dos sapos, e mesmo os que não eram escolhidos sempre beijavam na boca. Era maravilhoso. Sempre falamos em participar, mas minha avó me mataria se eu fosse na TV beijar na boca. — Vocês gostam mesmo disso — Hugo colocou defeito em quase tudo do programa, mas assistiu conosco. Passei a noite acordada. Clara dormia toda espalhada na cama, parecendo uma estrela do mar. Hugo dormia no sofá, pequeno demais para seu tamanho. Provavelmente sentiria dor ao acordar. Tive medo de dormir e acordar na casa do Marcus. Medo do dia de hoje ter sido um sonho. Medo do Marcus ter me colocado para dormir e eu estar alucinando. Fui ao banheiro algumas vezes, bati a porta com mais força do que precisava. A verdade era que eu estou morrendo de medo, e não quero ficar sozinha. O barulho do vidro do copo caindo no chão fez Hugo praticamente pular do sofá, enquanto minha amiga nem se mexeu. — Desculpa, escorregou sem querer — menti. — Quer água? Ele negou com o rosto marcado pelo sono, passou a mão no rosto, negou a água, foi até o banheiro e voltou com o rosto molhado. — Não está conseguindo dormir? — perguntou, se sentando novamente no sofá. — Eu... eu... estou com medo — desabo com um choro baixo. Ele vem até mim, mas para no caminho. — Posso me aproximar? — confirmo com a cabeça. — Por favor, por favor me abraça — ele me abraça apertado. Afundo minha cabeça em seu peito, sentindo seu aperto e seu cheiro para ter certeza de que aquilo é real. — Estou com medo de dormir. — Você é uma mulher forte. Vai superar as merdas que passou, e eu estarei ao seu lado, sempre que precisar. Então vem. Nos sentamos no sofá a princípio, depois me deitei com a cabeça em seu colo. Hugo fez carinho em meus cabelos. Aos poucos fui vencida pelo sono. Antes de apagar, ouvi a voz de Hugo: — Descansa, estarei aqui quando acordar. --- Eram quase nove da manhã quando o advogado chegou. Felipe é advogado da empresa onde Hugo trabalhava. Expliquei o caso para ele. Depois, liguei para o Mauro, que marcou uma reunião no restaurante do hotel no seu horário de almoço. Por fim, assinei um contrato. Não só eu, mas Clara e Hugo também tiveram que assinar. Eles não querem mesmo manchar o nome deles, então pagaram uma boa quantia para isso. Marcus ficará dois anos em um tratamento. A única coisa que ainda é um problema é a questão do casamento. Marcus se recusa a assinar o divórcio, então entraram com um litigioso. — Quero uma medida protetiva! — exigi, e fui atendida. — Gabriela, em nome de toda a família, eu gostaria de pedir desculpas — Geovana, que estava aqui não só como noiva, mas também como advogada da família, fala. — Em nome da Gabriela, eu gostaria de mandar você e a sua família para a p**a que pariu — Clara fala, olhando nos olhos de Mauro. --- Nos últimos meses, eu desejei tanto estar em minha casa, e agora que isso aconteceu, eu me sinto perdida. A casa estava com cheiro de produtos de limpeza, uma faixa de "bem-vinda de volta" estava pendurada, a mãe da Clara nos aguardava na sala da minha casa. — Deixei tudo limpinho para você poder descansar! — Obrigada, tia — ela me abraça e me olha, conferindo se estou bem. — Vou nessa, minha velha já me ligou várias vezes — Hugo se despede. — Gabi, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, é só me chamar. — Obrigada. Vai descansar, deve estar exausto da viagem. Na primeira noite, elas ficaram comigo, mas quando o dia amanheceu voltaram para suas vidas. Me vi sozinha. Eu sentia falta da minha avó em toda a casa, e quando ia para o meu quarto, olhava para o PC e lembrava de todas as conversas legais que tive com o Marcus. Chorei de raiva de mim. Não é possível que eu esteja com saudades dele, é? No meu congelador não tinha comidas congeladas. Fiquei um tempo sem saber se eu poderia ou não ir até a cozinha e preparar minha comida sem a supervisão dele. Não, não é saudade, é dependência. Marcus me deixou dependente dele, e agora eu tenho que me curar disso.
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