GABRIELA BORGES
Me joguei nos braços de Clara, choramos e nos abraçamos por um bom tempo. Hugo ficou no canto da sala nos olhando; me senti abraçada por ele só pela forma como ele me olhava.
— Eu sabia que te encontraria! — minha amiga disse entre os vários beijos que dava em mim. Acabei recuando.
A sensação de estar suja, mesmo sabendo que não estou, me dominava. O medo de não querer mais o Marcus… sim, eu senti medo.
Quem me protegeria? Como eu viveria minha vida agora, sem ele para comandar os meus dias? Espantei a loucura de não saber lidar com a minha liberdade para bem longe.
— Obrigada por não desistirem de mim — olhei para Hugo, que me deu apenas um aceno de cabeça e um sorriso triste.
— Gabriela, agora que seus familiares chegaram, precisamos conversar sobre um assunto desagradável.
— Minha amiga já não passou por coisas desagradáveis demais? — Clara não escondeu seu escárnio. — Onde está o desgraçado do Marcus?
— Em uma cela. — Os ombros de Mauro caíram levemente, deixando visível o quanto ele se sentia derrotado. — Gabriela, eu tenho uma proposta para te fazer...
Ele apontou para as cadeiras. Clara e eu nos sentamos. Hugo continuou parado no canto da sala.
— Eu sei que você passou momentos difíceis com o Marcus, mas espero que saiba que ninguém sabia de nada, como ele fez você acreditar — vejo uma mistura de raiva e decepção constante em sua voz e postura — nós temos cargos importantes, empresas, negócios e um nome a zelar...
Minha amiga segura minhas mãos, me dando o conforto em saber que não estou mais sozinha. Suas mãos estão suando, uma característica da minha amiga quando está nervosa.
— Já fiz o boletim, você já passou pelo médico, você tem motivos e provas para querer o Marcus na cadeia, mas...
— Mas? — meu corpo volta a ficar rígido na cadeira — Mas o quê?
— Meu irmão não está lúcido! — ele fala, e sinto a respiração quente e raivosa do Hugo atrás de mim.
— Vai alegar insanidade para proteger o tarado do seu irmão? — pergunta e avança em direção ao Mauro. Meu reflexo segura seu braço; Clara faz o mesmo.
— Me deixem terminar, por favor — Mauro fala com uma paciência calculada em sua voz. — O que aconteceu com você, Gabriela, foi horrível. Em nome da minha família, diante da sua família, eu quero te fazer uma proposta!
— Legalmente, você poderia estar cuidando desse caso? — Hugo pergunta.
— Faça sua proposta — junto toda a força que tenho para segurar o Hugo, que a qualquer momento vai voar no Mauro e acabar preso por desacato — fala de uma vez, por favor. Eu só quero acabar logo com esse pesadelo!
— Um acordo confidencial sobre o que aconteceu. Marcus será internado em uma clínica para tratamento. Vamos ver uma forma legal de anular o casamento de vocês.
— Casou com ele? — Clara me olha com pavor.
— Não por vontade própria.
Clara e Hugo se exaltam com a descoberta do casamento e com a proposta do Mauro, que já cansou de manter a falsa paciência e discute com meus amigos.
— Quanto? — pergunto, fazendo todos me olharem — Quanto vai pagar pelo nosso silêncio?
Eu sairia daqui feliz se tivesse a certeza de que estaria segura sem pedir um real a eles, mas sei que isso não irá acontecer. Ele quer proteger o irmão e o nome da família dele. Eu não sou ninguém para lutar contra a influência dessa família. E me recuso, definitivamente me recuso a ser uma eterna vítima! Eu fui vítima. Não quero continuar sendo!
— Amiga, amiga, não aceita — Clara segura minhas bochechas com suas mãos suadas e geladas. Não consigo segurar minhas lágrimas. — Esse filho da p**a tem que ir pra cadeia, Gabriela!
— Você não entendeu que essa possibilidade não existe — choro, sinto minhas pernas prestes a ceder. Hugo me abraça por trás, me dando o suporte que preciso.
— Gabriela, quero que saiba que te fiz uma proposta. Não estou te obrigando a aceitar.
— Não se aproxime! — Clara grita quando ele tenta chegar até mim.
— Eu estou te pedindo isso como irmão. Você não tem noção de como isso está sendo difícil para mim, sendo delegado — ele suspira — reservei um hotel para vocês. Descansem, pensem um pouco durante essa noite, arrumem um advogado. Amanhã, conversamos!
— Ninguém vai julgar suas escolhas. Você não está mais sozinha — Hugo sussurra em meu ouvido — conheço um excelente advogado.
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Hugo estacionou seu carro, um Fiat Palio, no estacionamento do hotel luxuoso que Mauro reservou: três suítes na cobertura, uma para cada um de nós, com uma vista bonita da cidade.
— Esse hotel parece até uma ameaça — Clara fala, saindo do banheiro depois do banho, enrolada em uma toalha branca que poderia facilmente ser usada como cobertor de tão grande e macia. — Ele quer mostrar poder!
Atendendo ao pedido de Clara, iríamos passar a noite todos no mesmo quarto, assim nos sentíamos mais seguras.
Era maravilhoso estar com minha amiga, mas às vezes me sentia desconfortável pela forma como ela me olhava com pena. E definitivamente eu não estou preparada para que outras pessoas me olhem assim.
Hugo foi tomar banho no outro quarto, alegando que daria um pouco de privacidade para nós duas. Acho que também foi em busca da sua própria privacidade.
— Você vai mesmo aceitar essa proposta? — minha amiga se senta de frente para mim na cama. — Podemos ir aos jornais e...
— Não — a corto — eu quero retomar a minha vida. Não quero que todos saibam. Lembra quando a Júlia foi agredida pelo namorado?
Clara faz uma expressão confusa.
— O que isso tem a ver, Gabi?
— As pessoas ficavam cochichando quando ela passava. Muitas diziam “se ele bateu, teve um motivo”. Eu não quero passar e ser o assunto de alguém