GABRIELA BORGES
Depois de falar com minha amiga e ter certeza de que ela estava segura em sua casa, Marcus decidiu que hoje eu faria o almoço. Não era a primeira vez que ele me deixava usar a cozinha de sua casa. Quando percebeu que eu não me machucaria nem tentaria nada contra ele, me deu acesso a facas — com a sua supervisão.
Ele parecia feliz hoje. Colocou música, sertanejo raiz, uma canção falando sobre a vida na roça tocava enquanto ele batia os dedos na mesa de mármore da cozinha.
— Ai! — acabei queimando a ponta do meu dedo ao tirar o tabuleiro do forno. Levei o dedo à boca na tentativa inútil de diminuir a ardência e coloquei o tabuleiro sobre a pia.
— Me deixa ver — ele pegou minha mão sem muito cuidado e abriu a torneira da pia — deixa a água cair bastante em cima.
O Marcus tranquilo de minutos atrás parecia ter sumido. Ele estava irritado agora.
— Está bravo? — perguntei receosa. O humor dele mudava com muita facilidade e isso me assustava. — O que eu fiz de errado?
— Você não consegue fazer um almoço direito, olha como está seu dedo — estava só um pouco vermelho.
Aparentemente, eu não tinha o direito de me machucar sozinha. Isso era um privilégio só dele.
— Não foi nada demais, estou bem. Podemos comer, estou com fome — ele fechou a torneira e concordou com a cabeça. — Senta, vou terminar de servir o almoço.
— Precisa ser mais cuidadosa, minha maçãzinha — eu odiava quando ele me chamava assim. No entanto, era um sinal de que o bom humor estava voltando.
— Vou tentar! — sorri e me sentei.
Após o almoço, arrumei a cozinha. Marcus gostava das coisas organizadas. Depois, fomos para a sala assistir a um filme: A Lista de Schindler. Era o filme preferido dele. Já era a terceira vez que me fazia assistir. Ele me alisava e apertava durante o filme. Acho que colocava filme repetido por não ter intenção de assistir. Eu desejava ser salva do meu nazista pessoal.
Tentei segurar sua mão, que estava prestes a entrar no meu vestido, e levei um tapa na perna, deixando os cinco dedos dele marcados.
— Desculpa — pedi, e ele voltou a me tocar.
— Já te falei que você é minha. Eu te toco onde e quando eu quiser.
Concordei e fechei os olhos, esperando que tudo acabasse logo.
Para minha felicidade, a campainha tocou. Marcus se levantou, esbravejando, e mandou que eu ficasse onde estava. Passei as mãos arrumando as roupas, cobrindo minhas pernas que ele tinha deixado expostas. Sentei-me no sofá, sentindo o desconforto da dedada que ele me deu para mostrar que me tocava quando quisesse.
— A que devo a honra dessa visita inesperada?
— Estou aqui a trabalho — Mauro abre a porta. — Que bom que a Gabriela está aí.
Me encolho involuntariamente no sofá.
— Aconteceu alguma coisa?
— Vim buscar a Gabriela para um esclarecimento na delegacia.
— O que ela precisa esclarecer? — Marcus pergunta, sem paciência.
Mauro olhou para ele com uma cara de nojo e decepção. Marcus deu dois passos para trás ao ver a expressão do irmão.
— Você me disse que ela tinha 21 anos, Marcus. Ela completou no mês passado! Você sequestrou essa menina e me deixou pensar que ela era uma interesseira fingida — ele tirou um papel do bolso e jogou no Marcus. — Gabriela, me acompanhe até a delegacia.
Levantei-me sem saber se deveria ou não ir com ele, mas com a esperança da liberdade. Meus pés pareciam presos ao chão. Eu só sabia olhar de um para o outro.
— Eu levo ela! — Marcus fala, pegando a chave do carro que estava sobre um aparador ao lado da porta.
— Não. Ela vem comigo. E você, meu irmão, te dou a opção de ir no seu carro me seguindo ou entrar na viatura que está estacionada na entrada da sua casa!
— Mauro, chega desse circo. Isso aqui é Brasil, meu irmão. Gabriela é minha esposa agora — fico em choque com a informação. — Me casei com ela por procuração. Já reparei o meu erro!
Senti uma raiva incontrolável ao ouvi-lo.
— Você me sequestrou, me estuprou e acha que reparou seu erro se casando comigo?! — gritei.
Mauro avançou em Marcus, o prendendo na parede, o braço em seu pescoço e o outro com um soco armado. Marcus riu. Mesmo com o ar limitado, ele riu.
— n**a, n**a, por favor, nega... — Mauro deu uma sequência de três socos em Marcus, que permaneceu imóvel, olhando nos olhos do irmão. — Marcus Volpone, você está preso pelo sequestro de Gabriela Borges!
Marcus esticou os braços para o irmão colocar as algemas. Ele parecia envergonhado, mas não ofereceu resistência. Mauro colocou um casaco por cima das algemas para sair com Marcus da casa, fez uma ligação, e logo a viatura estava na entrada.
— Você vem comigo. Preciso que me conte tudo o que aconteceu.
— E minha amiga? — perguntei, aflita. — O Marcus me disse que vocês pegariam minha amiga. O José tem ordens para buscar a Clara se eu fugir. Eu vou ficar e esperar ele voltar caso você não possa me garantir a segurança dela!
— Nós? — ele riu de forma amarga. — Te prometo que ainda hoje você estará com sua amiga em segurança. Antes de vir até aqui, entrei em contato com as pessoas que fizeram a queixa de desaparecimento, e eles estão a caminho.
O momento era esse. Eu estaria livre. Resolvi confiar no Mauro. Ele me levou para a delegacia, onde contei como conheci o Marcus, como ele me pegou, sobre o cativeiro, sobre os estupros... Contei tudo o que ele perguntou. Fiz o corpo de delito. Foi humilhante.
Minha cabeça estava uma bagunça. O Mauro me olhava como quem queria pedir desculpas de forma silenciosa. Eu não encontrei o Marcus em nenhum momento, o que foi um alívio para mim.
— Os familiares da moça chegaram — um homem anunciou.
— Mande-os entrar, por favor!
Uma passista poderia sambar só com o som das batidas do meu peito. Pareciam um tambor ritmado na avenida!
Quando vi a Clara passar pela porta e o Hugo atrás dela, o medo e o desespero que eu sentia se acalmaram.
Ao olhar para eles, eu me senti segura, protegida e amada.