CAPÍTULO CINCO

1049 Palavras
GABRIELA BORGES Depois de pouco mais de três horas em pé orando, finalmente um médico apareceu. — Você é da família da dona Lurdes Borges? — o médico perguntou. Confirmei com a cabeça. — Você está sozinha, tem algum outro familiar aqui? — Somos só nós duas — falei com dificuldade. A forma como ele me olhava já dizia tudo. Eu havia visto essa cena em vários filmes, sabia o que ele ia me dizer. — Fizemos tudo o que era possível, mas... — naquele momento eu via a boca dele se mexer, mas não ouvia nada. Ele falava o que eu imagino ser palavras de conforto. Vi um “sinto muito” sair da sua boca pelo movimento de seus lábios, porém o som não veio. Encostei minhas costas na parede, buscando apoio. A sensação era que meu corpo ia desmoronar a qualquer momento. — Eu tô sozinha agora? — a pergunta veio acompanhada de um grito abafado pelas minhas próprias mãos. O médico entrou novamente pela porta dupla. A enfermeira que havia levado minha vó ficou ali comigo. — Tem alguém que eu possa ligar? — neguei. Dois por cento. Minha vó fazia parte dos dois por cento de perdas. Sentei no chão com a cabeça entre minhas próprias pernas e chorei. O peso de não saber o que fazer me apavorava. Me ajudou a parar de chorar. Eu teria que ver velório, enterro e todo o resto, e não fazia ideia de por onde começar. Pensei em pedir ajuda à mãe da Renata. Até no Hugo eu pensei. Desejei que minha mãe surgisse do nada. Levantei do chão, secando as lágrimas. A realidade era dura e eu tinha que aceitar: eu estava sozinha. — Rose — uma enfermeira apareceu chamando a outra que estava ao meu lado. Ela sussurra alguma coisa para ela. — Seu noivo está com o doutor Aurélio, resolvendo tudo — ela pareceu aliviada e eu confusa. — Marcos? — meu peito esquentou ao pensar que ele estava ali para mim. Ela confirma. — Onde ele está? Passo a mão no meu rosto, secando minhas lágrimas. A enfermeira, que agora sei que se chama Rose, me fala onde ele está. Vou até o local e encontro o médico e dois outros homens conversando. Nenhum deles tem idade para o meu Marcos, então saio pelo hospital procurando por ele, decidida a encontrar. O único problema era que eu não fazia ideia de como era o rosto dele. Mando várias mensagens, ligo para ele, e nada. *(Marcos Volpone: Minha menina, não tenho nem palavras para te consolar. Logo estarei ao seu lado. Vá para casa, avise os familiares, descanse. Em breve irei ao seu encontro. Fique tranquila que irei cuidar de tudo.)* Me senti aliviada e frustrada ao mesmo tempo. Aliviada por ele estar ali e frustrada por não estar ao meu lado. Queria um abraço, um colo para chorar. Mas ele está lá, cuidando de tudo, tudo para que eu pudesse ficar de luto. Me senti protegida. Voltei para o quarto onde minha vó estava antes de ser levada para a cirurgia para buscar suas coisas. A mulher que ela dividiu o quarto estava assistindo TV. A cena da Giovanna Antônelle procurando o filho desesperada em uma pracinha passava na tela. — Já acabou a cirurgia? — a preocupação era evidente na voz e no rosto dela. Um barulho parecido com um relógio tomou conta do quarto com o nervosismo dela. — Ainda não — menti. Ela se recuperava de uma cirurgia cardíaca, não achei uma boa dar uma notícia de morte. — Ela vai ser trocada de quarto, vim buscar as coisas dela. Que barulho é esse? O barulho de relógio era alto, mas não tinha um relógio no quarto. — É da válvula. Quando fico nervosa, ela fica mais alta. Esse barulho está me enlouquecendo. Me arrependi de ter perguntado, vendo que ela estava constrangida com o barulho. Me despedi dela e saí do quarto. Levar a bolsa de volta para casa com as coisas da minha vó agora tinha um peso diferente. Saber que nada daquilo seria usado por ela me fez ir chorando todo o caminho de volta. Estava no ponto para pegar o segundo ônibus quando o Hugo me ligou para ter notícias. Quando cheguei em casa, não demorou muito para ele aparecer. Assim como a minha amiga Renata, que chegou acompanhada de sua mãe, que foi o apoio que eu precisava, o colo materno que me acolheu. Deitada com minha cabeça em seu colo no sofá, eu chorei, olhando o sofá vazio que vovó costumava se sentar. Não consegui conter o tremor irritante nos meus lábios quando o choro mais intenso veio. O colo com o carinho no meu cabelo me fez me sentir acolhida. — Precisa de ajuda para o funeral? — neguei com a cabeça, aliviada por ter o Marcos cuidando disso. — Separe um vestido para sua vó, irá precisar. Marcos me ligou comunicando todos os horários. Logo eu informei para todos os amigos. Após escolher o vestido que minha vó passaria a eternidade, foi como se tivesse tido um corte no tempo. Eu já estava no funeral, sem nem saber como cheguei ali. Me sentia fraca por estar vulnerável e também por não ter conseguido comer nada desde o dia anterior, antes de sair de casa para ir ao hospital. As pessoas vinham me consolar. Senti uma mão segurar meu ombro com uma firmeza controlada. — Oi, amor. Desculpa a demora — era a voz dele, a voz que escutei tantas vezes por telefone no último ano. Ele me abraçou por trás e eu me virei de frente para ele, afundando meu rosto em seu peito largo. — Chora, minha menina. Estou aqui. Você nunca mais estará sozinha. Eu finalmente olhei para o seu rosto. O homem à minha frente já tinha passado da idade de 26 anos há alguns anos. Não era totalmente estranho para mim, eu o tinha visto no dia anterior, conversando com o médico que operou minha vó. Eu pensei em me afastar, me senti enganada. Porém, o seu abraço era firme, me dando o apoio que eu precisava para não cair pela surpresa da sua idade. — Marcos? — Oi, amor. Eu não soube como reagir. Me senti paralisada.
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