GABRIELA BORGES**
O abraço firme era o que eu precisava no momento. Ele havia me enganado... como eu poderia estar me sentindo confortável em seus braços? Marcus repetia constantemente em meus ouvidos que estava ali. Eu, ali, imóvel, completamente perdida e confusa.
– Gabi, você quer passar a noite lá em casa? – Clara perguntou, e nem assim o Marcus me soltou ou diminuiu a intensidade de suas mãos em meu corpo.
– Eu...
– Eu te levo para casa! – Marcus interrompeu a minha resposta.
Eu pensei em dizer que não, que eu iria para a casa da minha amiga. Eu não sabia quem era aquele homem. A voz era a mesma com quem eu falava, mas só isso. Até o verde dos olhos dele era diferente do que eu estava acostumada a ver na sua única foto disponível.
– Eu vou para casa, amiga – eu queria saber por que ele tinha mentido a idade, então achei melhor confrontá-lo. Clara encarou Marcus.
– Você quem é? – minha amiga perguntou, olhando dentro dos olhos dele de uma forma não muito cordial.
– Eu sou o Marcus. E você é a Clara, certo? – ele foi amigável e estendeu a mão para ela.
– Sou sim – minha amiga não escondeu o desconforto ao olhar a mão dele que agora segurava a minha de forma possessiva – Vou chamar minha mãe para se despedir de você, Gabi!
Ela saiu de perto de nós dois.
– Gabriela, eu preciso fazer uma ligação – ele fez um carinho em meu rosto, limpando uma lágrima.
– Tá bom.
Ele saiu por uma porta lateral. Fiquei ali parada até Clara e a mãe aparecerem.
– Quem era o homem com você? – a mãe da Clara perguntou, séria – Você o conhece? – Ela procurava por ele com os olhos atentos.
– É um primo da minha mãe – menti.
– Amiga, você parecia desconfortável com ele. Tem certeza que não quer ir para minha casa?
– Não, eu vou pra casa mesmo. A mãe dele também vai para lá – menti outra vez.
– Qualquer coisa, me liga, ok? – concordei e nos despedimos com um abraço.
E assim como eu cheguei aqui, eu cheguei em casa, sem saber como vim, quem me acompanhou. A última coisa que eu lembro foi de ter jogado as flores sobre o chão. O Marcus não apareceu depois da ligação que saiu para fazer.
Tomei um banho e coloquei a roupa imediatamente para lavar. Você não gosta que use roupa que foi em cemitério dentro de casa.
Pensar que ela não estava mais ali para brigar comigo por ter entrado com os sapatos que usei em um funeral dentro de casa me fez chorar mais uma vez. Eu não tinha mãe nem ela para me fazer seguir suas crenças sem cabimento.
Vesti a primeira roupa que vi, um short larguinho que gosto de usar para dormir e uma camisa com estampas de ursinhos. Peguei meu telefone e tinha 10 ligações perdidas do Marcus e duas do Hugo. Retornei, e o Marcus atendeu no primeiro toque.
**LIGAÇÃO ON**
– Onde está? – ele parecia irritado.
– Em casa. Você sumiu!
– Abra a porta!
**LIGAÇÃO OFF**
Fui até a porta, abri, e lá estava ele, saindo de um Jeep Commander preto. Mais uma vez me vi paralisada observando ele se aproximar. Ele era grande, ombros largos, os cabelos brancos começando a aparecer davam um charme. Ele usava uma calça jeans escura e uma camisa polo azul-marinho. Era um homem realmente bonito, não do tipo que me atrai, mas não podia negar que ele era bonito.
– Desculpa, eu tive um problema. Larguei meu estado às pressas para estar aqui com você e tive uma emergência no trabalho que precisei resolver por telefone.
– O que é real, Marcus?
– Posso entrar? – O medo de receber um estranho sozinha em casa foi ignorado quando abri passagem e ele entrou. Fiz um gesto com a mão para que ele se sentasse e assim ele fez – Meu sentimento é real, Gabriela.
– Sua idade, qual é? – perguntei, séria.
– 35.
– Por que mentiu? Você me enganou, Marcus.
– Porque te achei madura para sua idade. Gostei de conversar com você, me apaixonei, droga – ele passou as mãos nos cabelos de forma frustrada – Não tinha intenção de te conhecer pessoalmente, era só para conversar mesmo. Eu sou ocupado e solitário. No entanto, quando o Aurélio me disse o estado real da sua vó, eu larguei tudo para estar com você.
Me sentei em sua frente. Ele largou tudo para ficar comigo, me ajudou quando eu precisei, sem falar que ele ainda era o meu Marcus. Ele fez carinho em meu rosto e colocou uma mecha solta atrás da minha orelha.
– Eu me sinto perdida – confessei – não sei o que vai ser de mim agora que estou sozinha.
– Não estará sozinha, minha Anjinha. Eu estou aqui por você. Amanhã preciso voltar para minha cidade.
– Você disse que eu não estaria mais sozinha e vai embora amanhã? – o desespero por ele partir me deixou apavorada.
Ele deu um sorriso para mim.
– Achei que você fosse me rejeitar. Você quer que eu fique?
Eu queria ele ao meu lado. Não de forma romântica. No momento, ele era a única pessoa que eu tinha que demonstrava me amar, e eu precisava muito ser amada nesse momento.
– Marcus, você mentiu pra mim. Eu não vou negar que foi um choque e eu ainda me sinto perdida – ele suspirou e pegou minhas mãos que sumiram entre as suas – Mas, por favor, não me deixa sozinha.
– Preciso resolver uns assuntos. Você pode vir comigo. Vai ser bom para você mudar o cenário, ficar uns dias... uns meses... quem sabe uma vida. – A sua voz me seduzia por algum motivo que eu desconhecia. Talvez por ele deixar claro que me queria pela forma como me olhava.
Faltavam apenas dois meses para eu me formar, e tenho certeza que vovó ficaria muito triste se eu não concluísse.
– Na próxima semana começam as provas. Não posso perder.
– Perdeu sua vó agora. Tenho certeza que a escola vai entender.
Para minha vó, pouca coisa era motivo para se faltar às aulas ou à missa, e eu não vou deixar de fazer o que ela achava certo para eu ter um bom futuro.