Tentei afastá-lo. Treinei até os nós dos dedos se partirem, tomei banho de gelo, caminhei pelos corredores do castelo para manter meus pensamentos longe dela. Mas toda vez que eu passava por sua porta, eu também ouvia seus batimentos cardíacos.
Ragnar não falou. Mas ele escutava.
Sorvane não parou. "É o coração mais rápido que já ouvi", sussurrou ele na terceira noite. "Isso significa que ela está com medo. Ou excitada. De qualquer forma... é perfeito."
No quarto dia, eu já estava me sentindo desestruturado. A tensão dentro de mim havia chegado ao limite da violência, e eu precisava de clareza.
Sentei-me à cabeceira da mesa, com a pedra desgastada e fria sob minhas mãos, e deixei que as vozes de meus conselheiros me inundassem.
Romeo estava à minha direita. "Tivemos intrusos tentando cruzar a fronteira leste", disse ele. "Perto de Kiev."
Assenti com a cabeça, m*l processando as palavras. Meu corpo estava aqui, mas minha mente... minha mente já estava se decompondo sob a fome de Sorvane.
"Não temos laços fortes com as matilhas de Kiev", ofereceu Valassan, o mais velho do meu conselho. "Talvez um convite para jantar aliviasse a tensão."
Eu o ouvi, mas apenas vagamente. Sorvane já estava doente de desejo. Sua fome estava se tornando a minha, e tinha gosto de febre no fundo da minha garganta.
A conversa prosseguiu, as rotas comerciais, as mudanças de lealdade, as queixas regionais, e eu concordei quando chamaram meu nome, mantendo minhas respostas curtas e automáticas. Um aceno de cabeça aqui. Um grunhido baixo ali. Ninguém parecia notar.
Até que uma voz atravessou a névoa. "Ela tem que ir embora antes de convidarmos o rei de Kiev."
Isso fez minha cabeça virar.
Saulo. Sempre tão cuidadoso com suas palavras. "O que você disse?"
"A humana", disse ele, sem hesitar. "A que você está mantendo aqui como uma convidada. O cheiro dela chega aos corredores externos. Todos sabem que ela está aqui. É claro que ela é apenas uma escrava e não vai durar muito tempo. Mas já se passaram quatro dias. Ela come conosco e bebe nossa água."
"E onde você quer chegar?" perguntei.
"Se é um animal de estimação que você quer, meu rei", acrescentou Valassan, mais ponderado, "uma loba seria uma escolha mais adequada".
Eu me inclinei para frente, deixando o silêncio se adensar ao redor da mesa. "É claro. Se eu me desfizer da humana, isso liberaria o cargo para sua filha loba ocupar, não é mesmo?"
Valassan engasgou com a respiração.
Os outros desviaram o olhar.
"Em trezentos anos, eu nunca tolerei insubordinação. Não comece agora."
Romeo, sempre o escudo entre mim e a rebelião aberta, interrompeu. "Nossa preocupação, Alfa, não é com o lugar que a humana ocupa. É com aquele que ainda está vazio." Ele olhou para mim e sustentou meu olhar. "Três séculos de governo. O povo está começando a pedir sua Luna."
"Eu darei uma Luna ao povo quando a deusa da lua me der uma", eu disse baixinho. "Ou devo me casar com a próxima loba bem-comportada que bater os cílios no trono?"
Ninguém respondeu. Nem mesmo Romeo.
"Muito bem", Saulo murmurou por fim, tentando se virar. "O jantar com Kiev..." Mas eu não ouvi o resto.
Outra voz surgiu dentro de mim. "Ela está ferida."
Ragnar.
A picada metálica do sangue humano atingiu meu nariz. Não precisei perguntar de quem era. O cheiro dela era diferente de qualquer outro neste castelo. E então ouvi o batimento cardíaco dela, rápido e irregular, vindo de algum lugar no andar de cima.
Angelina.
Sem dizer uma palavra, eu me levantei. Todos os olhos se voltaram para mim. "Romeo, cuide dos invasores. Conselho, vá a Kiev para a diplomacia." Então me virei e saí da câmara sem olhar para trás.
Subi as escadas empurrando, duas de cada vez. Seu coração ainda batia forte e eu segui o som como um instinto, deixando que ele me puxasse pelo corredor, passando pelos guardas, direto para a porta dela.
Entrei, esperando vê-la enrolada na cama, talvez caída no chão, mas o quarto estava vazio. Os lençóis estavam intactos, a bandeja de comida ainda estava sobre a mesa e não havia sangue à vista.
Mas o cheiro permanecia.
A porta do banheiro estava aberta, então atravessei o quarto em segundos e a empurrei para abri-la.
Ela estava na banheira, com os joelhos junto ao peito e os braços bem apertados em volta deles. Mechas úmidas de cabelo vermelho grudavam em suas bochechas e a água escorria por seus ombros em um ritmo tranquilo.
Não era nada demais, apenas um pequeno corte na palma da mão, m*l fechado, com uma fina faixa de sangue seco descendo pelo pulso. Mas no momento em que o vi, algo dentro de mim se agitou. Desta vez, não era Sorvane. Ragnar.
Ela me viu e seu corpo inteiro ficou tenso.
Angelina recuou, com os ombros pressionados contra a borda mais distante da banheira, tentando ficar menor. Seus olhos se fixaram nos meus, arregalados de alarme. "O que você está fazendo aqui?", ela apertou mais os joelhos contra o peito no momento em que meus olhos baixaram.
Seus braços se dobraram sobre os s***s em um movimento rápido e instintivo.
"Eu já vi seus s***s antes", eu disse sem rodeios, entrando no quarto
Ela se mexeu na banheira, virando-se levemente como se a água pudesse protegê-la do meu olhar, seu corpo ainda retraído, na defensiva. Mas, por baixo de todo aquele desafio, eu podia sentir o cheiro... de dor.
"Você se machucou."
Seus olhos se estreitaram. "Como você sabe disso?"
Não respondi de imediato.
Porque eu ainda podia sentir Ragnar andando logo abaixo da superfície, com os dentes arreganhados, não por raiva dela, mas por um tipo inquieto de proteção que eu não sentia há séculos. Sua atenção havia se concentrado naquele pequeno corte como se fosse uma ferida.
"Você está sangrando", eu disse finalmente. "Posso sentir seu cheiro."