Ela franziu a testa, olhando para a mão. O corte já tinha formado uma crosta, um arranhão fino e desajeitado de algo pequeno. Talvez um vidro.
"Acabei de me cortar", murmurou ela. "Não precisa se fazer de preocupada."
Dei mais um passo em direção à banheira, e ela estremeceu, embora tentasse disfarçar com irritação. Meu olhar permaneceu em sua mão, mas não falei. Ragnar ainda não havia se retirado.
"Mas é claro", disse Angelina. "Você realmente não se preocupa com seus escravos, não é?" Meus olhos se ergueram para encontrar os dela. "Eu soube o que acontece com eles", ela continuou, mais devagar dessa vez. "Você os fode. Depois eles morrem."
Não hesitei. Já havia me acostumado com o sangue em minhas mãos. Mas ouvir isso dela, dito em voz alta... Ainda assim, mantive minha voz calma. "Quem lhe disse isso?"
Ela apenas deu de ombros, afundando ainda mais na água.
Eu me aproximei mais, deixando minha voz baixa. "Eu ainda não transei com você. E você ainda está respirando."
"Ainda", ela respondeu, levantando o queixo. "Você não vai me tocar sem minha permissão."
"Então diga não", inclinei a cabeça, os lábios se curvando em algo que não chegava a ser um sorriso. "E tenha certeza de que está falando sério."
Antes que ela pudesse revidar, Sorvane subiu dentro de mim, empurrando com mais força. "Ela não tem voz. Ela está aqui para nos alimentar."
Minha mandíbula se cerrou. Senti minhas mãos se contorcerem ao meu lado, o calor subindo rapidamente por trás dos meus olhos.
Ragnar rosnou, avisando, mas Sorvane não se importou. Ele estava mais forte do que nunca em semanas, embriagado pela proximidade dela. "Pegue-a", sibilou ele.
Dei um passo para trás, com o peito apertado, a fúria fervendo sob minha pele. Eu não conseguia mais respirar naquele quarto, então me virei e saí, e a porta bateu atrás de mim, alto o suficiente para ecoar pelo corredor.
Romeo ficou esperando do lado de fora, de braços cruzados.
Não olhei para ele quando falei. "Traga-me uma loba todas as noites."
Romeo levantou uma sobrancelha, mas não lhe dei tempo para fazer perguntas.
"Deixe o demônio se alimentar até engasgar."
**
Angelina POV
O clique metálico da fechadura me fez acordar.
A porta se abriu e, sob a luz fraca, eu o vi. Por um segundo, pensei que fosse o Drakkar, mas era um homem mais velho que estava abrindo a porta com um passo lento. Seus cabelos eram finos e estavam cobertos por algo gorduroso, e sua barriga redonda se esticava contra o colete.
Um cheiro azedo de suor, vinho e carne estragada me atingiu antes de sua voz. "Os guardas estavam conversando", ele grunhiu, seus lábios se curvando em um sorriso molhado e lascivo. "Disseram que você tinha pernas bonitas. Tive que vir ver com meus próprios olhos. E, caramba... para uma humana nojenta, você é realmente fodível."
"Quem é você?" Puxei o cobertor até o peito, com o coração batendo forte, mas ele apenas sorriu mais alto, passando a língua pelos lábios rachados enquanto seus olhos deslizavam pelo meu corpo.
"Essa não é uma b****a que valha a pena manter presa para o rei", ele zombou, aproximando-se. "Abra as pernas e fique quieta, e eu não chamarei o guarda para entrar aqui e cortar sua garganta."
Meu estômago deu um nó de pura repulsa, mas meu corpo se recusou a se mover enquanto eu o encarava com olhos arregalados e sem piscar.
Seu joelho pressionou o colchão, afundando-o sob seu peso, e o deslocamento me puxou levemente em sua direção.
"Saia daqui!" Dei um solavanco para trás, apoiando-me nos cotovelos até minha coluna bater na parede fria atrás da estrutura da cama.
Meus dedos se remexeram nos lençóis, procurando algo para usar contra ele. O copo de água na mesa de cabeceira, o abajur, até mesmo o canto afiado de uma bandeja; minha mente passou por todos eles em um borrão.
Ele percebeu.
Seu sorriso obsceno se alargou. "Aonde você está indo, bichinho?"
Minha garganta se apertou, mas cerrei os dentes em um aviso silencioso.
"Posso até ser generoso", ele sussurrou, sua voz caindo para um tom de nojo. "Deixe-me provar essa sua b****a jovem. Aposto que você nunca foi lambida por alguém que sabe como fazer uma garota gozar direito."
Sua mão se arrastou para a frente, os dedos grossos roçando na borda do cobertor enquanto ele tentava afastá-lo do meu joelho.
O toque me fez entrar em ação. Levantei-me da cama e corri para o outro lado do quarto. Meus pés descalços bateram contra o piso frio enquanto eu recuava para o canto perto da cômoda, uma mão tateando às cegas em busca de qualquer coisa que eu pudesse jogar.
Ele riu novamente, arrastando seu corpo para fora da cama. Seus passos eram pesados, o piso de madeira rangia sob seu peso enquanto ele diminuía a distância entre nós centímetro a centímetro.
Eu recuei instintivamente, minha coluna roçando a parede fria.
Seus olhos me examinaram como se eu fosse carne em uma mesa. "Posso f***r sua b***a se você quiser manter essa bela b****a intocada para o rei", ele zombou.
Sua mão saiu rapidamente, os dedos roçando minha coxa enquanto ele fechava o espaço. Eu me afastei, mas ele me seguiu, com seu hálito quente e azedo perto do meu rosto.
"Não me toque!" gritei, mas minha voz estava mais fina do que eu queria.
Ele apenas deu uma risadinha, ignorando a advertência. Sua palma pousou pesadamente em meu quadril, deslizando para cima com dedos ávidos. "Mmm, eles não estavam mentindo...", ele apertou meu quadril, inclinando-se para mais perto.
Empurrei seu peito, mas foi como empurrar contra uma parede de gordura e músculos.
Ele nem se mexeu.
"Me solte!" Eu disse.
"Você acha que vale a pena que o rei a mantenha só para ele?" Sua voz caiu para um tom feio enquanto sua mão se arrastava para baixo.
Cambaleei para trás em direção à mesa, com os dedos percorrendo a superfície em busca de uma arma.
"Você acha que pode lutar contra mim, animal de estimação? Eu poderia fazer você gritar só de usar minha língua. Quer que eu prove isso?" E então sua mão atacou novamente, apontando para minha coxa.
Mas a porta se abriu e nossas cabeças se voltaram para ela.
Romeo estava parado na porta, com uma mão ainda na maçaneta. Seus olhos examinaram a cena e sua mandíbula se contraiu. "Esqueceu o caminho para seu próprio quarto, Saulo?"
Saulo se endireitou. "Só estava checando o novo animal de estimação do rei."
O olhar de Romeo escureceu quando ele entrou. "Não tocamos na propriedade do rei sem permissão", disse ele com firmeza. "Ou você se esqueceu de como as coisas funcionam neste castelo?"
"Você acha que preciso de suas aulas, Beta?"
Romeo inclinou ligeiramente a cabeça. "Tente esse tom de voz novamente e eu farei com que você volte mancando para seus aposentos esta noite. Essa não é a primeira vez que você ultrapassa os limites, Saulo. Talvez o rei devesse saber disso".
Mas antes que Saulo pudesse retrucar...
"O que o rei deveria ouvir sobre isso?" A voz de Drakkar veio do corredor e, no momento em que a ouvi, a temperatura ao meu redor pareceu cair.
Por um segundo, não me mexi. Fiquei apenas olhando para a porta, confuso com o fato de ele estar aqui... por que ele tinha vindo?
E então olhei para a minha perna.
Ali, logo acima do meu tornozelo, um rastro fino de vermelho começou a surgir, a pele avermelhada onde devo tê-la raspado contra a borda afiada da cômoda. Eu não havia notado a dor até agora, mas a pele estava definitivamente arranhada.
E, de alguma forma, eu sabia que ele havia sentido isso, como antes. A constatação me causou um calafrio, não porque me assustou, mas porque não me assustou. No fundo, sob o instinto de continuar a afastá-lo, eu estava aliviada por ele ter vindo.
Não porque eu confiasse nele, mas porque eu sabia que se ele estivesse no quarto, ninguém mais ousaria me tocar.
O Alfa parou na porta, tão grande que ocupou todo o vão da porta.
Saulo deu de ombros. "Seu convidado e eu estávamos apenas nos dando bem, só isso."
O olhar de Romeo se endureceu. "Ela não parece muito feliz em dividir o quarto com você."
"Ela deveria estar. Sou um vereador. Isso é mais do que uma pequena humana imunda como ela merece."
Os olhos de Drakkar se voltaram para mim, sua expressão era ilegível, o tipo de frieza que não precisava levantar a voz para ser sentida. "A humana não causará mais problemas", disse ele, quase desinteressado.
Ele se virou ligeiramente, seu olhar deslizando para Romeo. "Leve-a para a ala norte."