Os guardas me empurraram para uma sala na Ala Norte e trancaram a porta sem dizer uma palavra.
À primeira vista, parecia quase bonito, o tipo de lugar que alguém poderia confundir com conforto se não soubesse. Mas eu sabia. A cama de dossel com suas cortinas transparentes, a bandeja polida com frutas frescas... Eu não era mais um prisioneiro, mas uma oferenda.
Movi-me lentamente em direção ao jarro de água sobre a mesa e depois o esmaguei contra o chão. Os cacos voaram pelo mármore e eu me agachei sem hesitar, escolhendo o pedaço mais longo e enrolando-o cuidadosamente em um canto do lençol antes de colocá-lo debaixo do travesseiro.
Ninguém me machucaria novamente.
Não dormi muito naquela noite.
E quando finalmente adormeci, foi o cheiro de rosas e sais de banho que me acordou.
Abri os olhos e vi uma mulher de pé junto à janela, abrindo as cortinas como se estivéssemos em uma vila iluminada pelo sol e não na parte do castelo onde as meninas eram escolhidas para morrer. A luz entrou muito rapidamente.
"Bom dia", disse ela, sua voz suave e agradável. "Preparei seu banho."
Eu me sentei lentamente, piscando para ela. "Bom dia..." Respondi, mas as palavras pareciam estranhas em minha boca. Eu não sabia quem ela era, e não gostava de não saber.
Ela se virou para mim com um sorriso. "Eu sou a Rose. Cuido das meninas que vêm para a Ala Norte."
Algo na maneira como ela disse "meninas" fez meu estômago revirar.
Antes que eu pudesse responder, ouvi vozes do lado de fora. A princípio fracas, mas cada vez mais claras à medida que os passos ecoavam pelo corredor.
Desviei-me em direção à porta e, pela estreita a******a que ela deixou, vislumbrei o movimento: vestidos longos, ombros nus, lábios pintados.
Meninas sendo conduzidas como ovelhas e guardas dando ordens:
"Para o primeiro cômodo".
"Você, última porta à esquerda."
"Quem são elas?" Perguntei em voz alta, a pergunta se espalhou antes que eu pudesse filtrá-la.
Rose não respondeu de imediato. Ela estava dobrando um roupão perto do pé da cama, alisando dobras invisíveis. "Eles são os outros", disse ela, com os olhos ainda baixos. "Convidados do rei."
"Convidados?" perguntei. "Você quer dizer... para jantar ou algo assim?"
Foi então que ela olhou para mim.
Seus olhos estavam arregalados e havia algo por trás deles, algo como tristeza. Mas isso passou rapidamente, transformando-se em algo mais suave.
Pena.
"Não, garota", suas mãos pararam no pano. "É outro tipo de convite."
**
Drakkar POV
Eu estava na varanda, com um copo de conhaque em uma das mãos, observando a noite se estender infinitamente sobre as colinas.
Atrás de mim, eu podia ouvir o farfalhar suave de tecidos, o raspar de bandejas de metal e as vozes abafadas das criadas enquanto despiam a cama novamente.
Outra pessoa estava morta.
O cheiro de sangue e sexo ainda estava no quarto, não importava o quanto elas tentassem limpá-lo.
"Bom", Sorvane murmurou dentro de mim. "Mas nem perto do suficiente. Não quero mais os lanches da meia-noite. Quero o banquete."
Não respondi, apenas tomei outro gole, deixando a queimação se instalar no fundo do meu peito, mas quando me aproximei para colocar o copo no corrimão, notei o tremor em minhas mãos... e os finos fios de fumaça vermelha se enrolando entre meus dedos.
Ele não estava mais escondendo isso. Sorvane queria sair.
A energia que vazava de minha pele foi atraída para ela, e não precisei dizer seu nome. Nós dois sabíamos.
Angelina.
Não fui eu quem a mandou para a Ala Norte, a parte mais distante do castelo. Eu poderia tê-la mantido na ala leste ou trancado nas masmorras. Mas não o fiz, porque essa decisão pertencia a Ragnar.
Sorvane vinha atormentando meu sono desde o momento em que entrou no castelo, sabendo que ela estava no corredor ao lado, tão perto que eu poderia sentir seu cheiro se respirasse fundo o suficiente. E agora, com outro cadáver ainda quente em minha cama, eu sentia sua fome cada vez mais desesperada.
"E se eu nunca lhe der a energia dela?" Eu disse em voz alta, quase para mim mesmo.
Não houve resposta.
Voltei-me para o quarto, com os dedos ainda úmidos de conhaque, quando uma dor ofuscante atravessou o centro do meu crânio. Minha respiração ficou presa e cambaleei para frente.
O copo escorregou da minha mão e caiu no chão com um estalo agudo, quebrando-se em pedaços irregulares, um dos quais cortou a lateral da minha palma enquanto eu caía de joelhos.
A picada do corte foi registrada vagamente, ofuscada pelo latejar em minha cabeça, como se o próprio Sorvane estivesse tentando forçar sua saída através da pele.
Cerrei os dentes e me curvei, com uma das mãos agarrada à borda da mesa para não cair completamente e a outra pressionada contra a têmpora.
"Droga!" Minha mandíbula se apertou com tanta força que parecia que meus dentes iriam quebrar.
Senti o sangue quente e escorregadio escorrendo do meu nariz, passando pelos meus lábios e queixo.
Minhas costas se arquearam contra a minha vontade e meus ombros bateram no chão.
Meus dedos se enrolaram em meus cabelos, apertando-os com tanta força que eu podia sentir os fios se soltando. "Saia da minha cabeça", eu rosnei... ou talvez tenha gemido.
"Não se esqueça do que você me deve, Rei", sibilou Sorvane, e, sem mais nem menos, a dor desapareceu. Não lenta ou gradualmente, ela desapareceu.
Mas eu não me movi. Fiquei no chão, com a respiração fraca, o sangue secando em meus lábios e, por um momento, não sabia dizer se o silêncio ao meu redor era real ou apenas a ausência de sua voz em minha mente.
Então veio a lembrança.
Meu pai, Fenrir, sentou-se no trono de obsidiana há trezentos anos. Ele parecia mais velho naquele dia, cansado de uma forma que eu nunca tinha visto antes, mesmo com séculos atrás de seus olhos. "Os humanos estão vencendo pelos números", disse ele. "Eles não estão apenas lutando contra nós no campo de batalha, eles estão atacando onde mais dói. Nossas mulheres e crianças."
Eu estava na base do estrado, com meu uniforme ainda marcado com sangue.
"Um lobo sem sua companheira", disse Fenrir, "é apenas um cão". Então ele olhou para mim. Não como seu filho, não como o general que eu havia me tornado.
"Vamos parar de atacar", murmurei. "Manteremos as fronteiras, defenderemos o que pudermos. Eu mesmo liderarei as tropas."