Os raios solares atingiram o Reino de Ic, depois de algumas horas, a Rainha Rammahdic se sentou no seu trono e esperou pelos Magos que estavam por vir. Do seu lado direito estava o seu Conselheiro Argontas, um mestre do Castelo, um idoso que fundou o g***o dos Feiticeiros Prodígios, e do seu lado esquerdo estava a sua nova Aia, Kitga.
À sua frente estava Sabryna, usava o Traje Planária, o que seria a sua roupa de sempre. Os seus cabelos completamente brancos estavam bem penteados e as madeixas foram postas atrás das orelhas. Esperavam pelos três líderes da Ordem dos Magos de Dorbis para consagrar a Allogaj.
Assim que chegaram, o arauto anunciou. Três velhos entraram no castelo, usavam chapéus pontudos e tinham cajados mágicos com Pedras de Vírnam embutidas e vestiam roupões brancos. Andavam com rapidez, pareciam ser bastante resistentes apesar da aparência e idade. O líder tinha uma barba branca bem longa.
— Saudações, Majestade — saudou o Grão-Mestre dos Magos.
— Saudações Muorabát — disse Rammahdic —, Grão-Mestre da Ordem dos Magos de Dorbis.
O Grão-Mestre olhou ao redor até parar os olhos em Sabryna.
— Esta bela jovem é quem será consagrada a Maga Real deste Castelo?
— Sim, Grão-Mestre.
Ele chegou mais perto de Sabryna e olhou no fundo dos seus olhos.
— A sua Emissão me confunde, garota. O que você é?
— Eu sou uma Allogaj.
Muorabát olhou surpreso para os seus companheiros e voltou-se para Sabryna.
— Você é feiticeira das cinzas?
— Sim.
— E é Allogaj?
— Sim.
Muorabát riu-se.
— Isto é inacreditável — ele apertou os olhos. — Parece-me que tem mais segredos, não têm?
— Alguns quais não posso revelar, mas digo que sou uma abençoada pelos Primevos.
— Primevos? — Muorabát destacou o plural. — Quais deles?
— Todos eles.
— O quê? — o espanto de Muorabát fez os outros murmurarem. — Isso n******e ser verdade.
— Quer que eu prove?
O Grão-Mestre dos Magos olhou para a Rainha Rammahdic como se tivesse sido enganado.
— Majestade, o que significa isto?
— Esta é a pessoa que eu quero consagrar a Maga Real do Castelo, Muorabát — respondeu Rammahdic.
— Mas esta garota é uma Allogaj.
— Não há nada no Protocolo que proíba uma Allogaj de ser consagrada.
— Não há nada no Protocolo sobre Allogajs, para nós do mundo inteiro, era uma categoria extinta de feiticeiros e feiticeiras.
— Então não existem problemas.
— Bom... Esta garota... — Muorabát procurava motivos para não consagrar Sabryna, ele se sentiu ameaçado com o seu "status". — Esta garota n******e ser consagrada por uma série de fatores.
— Quais?
— Ela... Ela não passou pelo Sistema de Dignidade de Mestre.
— Esse sistema serve para quem vai atuar no Congresso da sua Ordem. Qual a necessidade de Sabryna participar disso?
— Ora, Majestade, para adquirir conhecimento...
— Muorabát, ela é uma Sapiensis. Ela come o conhecimento no jantar.
O Mago procurava algo para justificar.
— Rammahdic, sinto muito, mas esta garota não é qualificada, ela não tem história neste mundo, não nasceu com magia, e pelo nome, nota-se que não é nativa de Dorbis. Ela precisará, no máximo, passar por uma prova de aptidão no Congresso dos Magos.
O Congresso dos Magos era uma instituição localizada num Reino de Darayonno, no extremo sul de Dorbis, onde os Magos de todo o mundo faziam a suas reuniões, assim como os Sacerdotes dos Trealtas tinham o Templo e os Vinte e Quatro Anciões tinham o Obelisco. Ali, um feitiço, ou um encantamento, era patenteado ou substituído a cada dia e tudo era anotado num livro de estudos.
— Então, levem-na convosco, e depois, digam-me se Sabryna é apta para ser consagrada, mas os Senhores sabem que um Reino n******e ficar sem um Mago Real. Ainda mais este que a todo momento é alvo de ataques e guerras.
— Compreendemos, Vossa Majestade. Então a levarem e a devolveremos em três dias, se não for muito.
— É o suficiente.
Ambas Sabryna e Rammahdic sabiam que o Grão-Mestre dos Magos de Dorbis queria estudá-la, entendê-la, saber o porquê de aquela feiticeira ser tão intrigante, três dias não era ideal, mas era suficiente. Sabryna não era comum e perceberam isso desde que poram os olhos nela. Era levada para Darayonno, para o Reino das Fadas do Gelo.
A Rainha e alguns soldados acompanharam Sabryna e os Magos até a carruagem que era conduzida por três unicórnios, um tinha a crina da cor da cereja, outro da menta, e outro era rosa. Os seus chifres tinham um tom de cor mais claro que as crinas.
Karen apareceu correndo para segurar o braço da sua amiga.
— Sabryna, não vá embora sem mim.
— Ela pode vir? — pediu Sabryna para o Grão-Mestre Muorabát.
— É uma Immunus? — questionou o Grão-Mestre.
— Sim.
— Então ela pode, mas espero que ela não fique com sequelas, a magia lá é muito forte.
— Ela aguenta.
Ambas entraram na carruagem prateada dos Magos, despediram-se do pessoal e os unicórnios correram até que os seus chifres começaram a soltar faíscas como fogos de artifício e atravessaram um portal diretamente para Darayonno.
¶
As meninas sentiram passar pelo interior de um cilindro colorido e luminoso, e depois, não estavam mais no pátio externo do Castelo de Ic, estavam numa estrada gelada onde de longe dava-se para ver um Castelo feito de rochas e cristais, alguns eram anis, a maioria era incolor.
Um dos Magos entregou casacos para as meninas, mas Sabryna recusou, ao contrário de Karen que aceitou os dois por sentir muito frio.
— Você não sente frio? — perguntou o Mago que ofereceu um casaco de pele.
— Eu não sinto nada — disse Sabryna.
Os Magos se olharam entre si. Ela era observada e estudada, mas ela própria percebeu a tudo e permitiu que tudo fluísse, queria saber o que concluiriam com as suas observações. Talvez, nem concluíssem nada.
— Por que o Congresso dos Magos fica num lugar tão isolado e frio? — perguntou Karen enquanto a carruagem prateada se aproximava do Castelo do Reino das Fadas do Gelo.
— Este é o extremo Polo Sul de Dorbis, Karen — respondeu Sabryna antes que um dos Magos pudesse dizer —, onde a nossa magia se eleva de uma maneira inigualável, fora ser um lugar ideal para se fazer experimentos.
— Vejo que os seus conhecimentos de mundo mágico estão aguçados, jovem Allogaj — disse Muorabát. — Sabe qual a razão de a magia se elevar aqui?
— Este planeta funciona como um gigantesco imã, Supremo Mago, então possui dois polos magnéticos, um sul e um norte. A magia do Universo funciona como um imã, de certo modo, e por isso há tanta atração com o planeta. A magia se eleva onde ela atua mais forte, pelos polos norte e sul, apesar de fazerem parte do mesmo imã.
— Lembrem-me de nunca mais fazer uma pergunta retórica para uma Sapiensis — brincou o Grão-Mestre e os outros riram.
Karen olhou para Sabryna com um sorriso amarelo.
"Que piada h******l", falou entre os dentes e depois riu como se tivesse entendido tudo.
Os portões de cristal subiram e passaram para o pátio interno daquele Castelo, que era rodeado por diversas estalagmites pontiagudas de vários tamanhos. Era impossível chegar à muralha sem se esforçar bastante e não correr perigo de vida.
O local era como qualquer outro do mundo, porém, aquele espaço era o único habitado por humanos, antes era domínio das Fadas do Gelo, mas elas tiveram que coexistir com os Magos.
— Allogaj Sabryna, um dos nossos servos vai levá-la para os seus aposentos, vamos preparar tudo para a sua prova amanhã — disse Muorabát e uns rapazes vieram para conduzi-la, Karen ia junto, mas o Grão-Mestre dos Magos a impediu. — Onde pensa que vai, mocinha?
— UÉ? — indagou Karen. — Temos que ficar juntas.
— Você está segura aqui, querida, não precisa se preocupar com nada. Este é um dos lugares mais seguros do mundo.
— Não é com isso que estou preocupada, eu ando com a Sabryna, a segurança é garantida. É que eu não quero me sentir só.
— Entendo, mas sinto muito, o quarto de Sabryna será particular.
— Karen — disse Sabryna —, obedeça. Às vezes pode ser prejudicial para você.
Karen fez cara de triste.
— Está bem.
Outros funcionários levaram Karen para outro lugar.
— Eu vou providenciar uma amiga para ela — disse Muorabát. — Allogaj, queremos te consagrar a Maga, mas espero que você entenda a seriedade do nosso ofício, existem critérios a serem seguidos e a nossa aprovação consta muito, a do Grão-Mestre, do Mestre Suplente e do Segundo Suplemente, cargos altíssimos no Congresso.
— Sim, Grão-Mestre dos Magos.
— Perfeito, amanhã a partir das nove horas da manhã começaremos a aplicar a sua prova.
¶
Sabryna estava deitada na sua cama do seu quarto totalmente branco, ela era o único ponto preto, exceto pelo cabelo. Alguém bateu na porta a dizer serem as serviçais dos aposentos. Ela se sentou na cama e sorriu, depois pediu que entrassem e quem entrou foi a Karen com uma jovem mulher de cabelos curtos.
— Oi, amiga — brincou Karen a fechar a porta. — Finalmente achei o seu quarto. Este lugar é incrível, e curiosamente chato, mas estou amado isso aqui.
— Que bom que está gostando, quem é a sua amiga?
— É a Dudaheda, nome complicado, então a apelidei Dudah. Ela é filha da servente do Grão-Mestre dos Magos — Karen deu risadas. — Parece a Caverna do Dragão.
— Oi, Allogaj — disse a jovem um pouco tímida, ela aparentava estar cansada de tanto trabalhar, porém, bem alegre. — Saiba que já sou uma grande fã, não é todos os dias que vemos uma Allogaj. Afinal, por que os únicos três Allogajs em Dorbis vieram de outro mundo, cada um é de uma magia diferente e todas coincidentemente ajudaram o Reino de Ic com o seu dilema que é esta guerra pelo trono? Cada Allogaj ajudou uma das três princesas que também tinham magias diferentes. Isso é muito curioso.
— São perguntas quais ouço frequentemente — disse Sabryna —, mas não posso respondê-las. É segredo.
— Ai! Que pena.
— Então, viemos aqui para saber se você está bem — disse Karen.
— Estou, por quê?
— Dudah falou que aqui tem um estábulo de umas criaturas mágicas, principalmente unicórnios. Vamos lá ver, se você quiser ir conosco...
— Não, meu bem, vá e divirta-se por mim.
— Tudo bem, mais tarde eu passo aqui para saber se ainda está tudo bem.
— Obrigada, amiga.
Karen a abraçou, e disse antes de sair:
— Sabe, este quarto é mesmo pesado — e foi embora.
A Allogaj sabia que o quarto era encantado, mediam o seu grau de energia mágica, o seu grau de magia. Fora outras coisas mais. Numa cabine restrita eles recebiam várias informações, Sabryna sabia de tudo e jogava o jogo deles.
Ela apenas pegou um livro e foi ler, nada do que já não sabia.
Horas se passaram e Sabryna não conseguiu pregar o olho, não tirou um cochilo e nem relaxou. O lugar era muito frio, mas ela não era afetada pelas sensações térmicas.
Pelos fusos horários, já eram mais de onze horas da noite, mas o sol parou na linha do horizonte e deixou o céu com um aspecto de tocha no escuro. Estava no solstício de verão.
A garota observava o ambiente pela janela da torre qual dormia, e de repente, viu aproximar-se uma mulher de vestido branco que terminava em tons azuis na bainha, e tinha cabelos loiros. A pele dela era azulada, como se estivesse morta, mas as suas bochechas com tom mais escuro mostravam o quanto estava viva.
Ela tinha uma varinha do condão, parecia de uma árvore branca, porém, muito bem entalhada, e da sua ponta, que era mais fina, saía constantemente uma poeira reluzente. E voava com asas semelhantes a de libélulas que se comportavam como asas de borboleta.
— Olá, Allogaj Sabryna.
— Olá, Majestade — respondeu a Allogaj.
— Como sabe que sou Rainha.
Sabryna apontou para a coroa na cabeça da fada.
— E provavelmente é a Rainha das Fadas do Gelo do Sul.
— Oh! — exclamou a fada. — Eu a uso por tanto tempo que esqueço que está aí. Eu sou a Rainha Leanarsili, como bem observado, Rainha do Reino das Fadas do Gelo do Sul.
— Precisam da minha ajuda?
— Sim, Allogaj, assim que soube que estava aqui, eu vim te procurar. O Sobranceiro do meu Reino...
— Teve uma visão comigo?
Leanarsili olhou-lhe com curiosidade.
— Você sabe?
— Só deduzi.
— O seu poder de dedução é muito bom, lembra-me o Mago Lidarred.
— Lidarred era um Mago brilhante, não me admira ele ter tido vínculos com as Fadas deste lugar.
— Sim, ele era um pesquisador, e estudou-nos por algum tempo.
— Mas, diga-me, como posso ajudar? Qual o dilema de vocês?
— Você pode vir comigo? — Leanarsili estendeu a mão para Sabryna que não hesitou em pegar, nem olhou para trás.
A Rainha Leanarsili levou Sabryna por campos de gelo até um buraco diagonal no chão, não dava para ver o fundo. A fada voou na frente e Sabryna escorregou atrás. Ela chegou a um pequeno vilarejo com uma vegetação rasteira bem escassa onde era cultivada várias plantas mágicas.
Todas as fadas voavam, todas eram loiras e todas pararam para saudar a Rainha, porém, admiraram Sabryna de maneira tal que a própria ficou constrangida, ela nem imaginou que ainda sentia constrangimento.
O lugar, que parecia um jardim subterrâneo, era iluminado por várias plantas fluorescentes, e era um espetáculo de imagens.
— Bem-vinda ao Reino das Fadas do Gelo do Sul, Allogaj Sabryna — disse Leanarsili. — Vou te conduzir ao meu palácio. E não se incomode com os olhares, é que você é única. A população não está acostumada a ver pessoas como tu.
— Uma mulher n***a?
Leanarsili parou para olhar Sabryna.
— Não, uma Allogaj. O que o seu s**o e a sua raça tem a ver com isso?
— Às vezes eu esqueço que não estou na Terra, nem no Brasil.
Leanarsili voltou para a sua trajetória.
— Você veio do Brasil? É o seu Reino?
— Bom, já houve monarquia no Brasil numa época bem distante, hoje, vivemos numa República Democrática. Mas eu posso dizer que é o meu Reino sim. Porém, é um governo pseudodemocrático.
— Como assim? Pelo seu tom de voz não pareceu que se tratou de um lugar bom.
— Olha... É um lugar bom, no entanto, a desigualdade é absurda, e os poderosos da elite fazem de tudo para permanecerem assim.
— Desigualdade?
— Racial, social, de gênero, entre outras.
— Por que os poderosos querem que assim permaneça?
— Para continuarem poderosos, são questões sócio-políticas. Eles pretendem que os pobres continuem pobres e os ricos fiquem mais ricos para garantirem o seu espaço de poder e prestígio. Detestam a ideia de dividir os seus espaços com pessoas de classe baixa. A pior parte é que a maioria da população p***e no Brasil é a população da raça negroide, ou população afrodescendente.
— Agora entendi a sua fala inicial. Que h******l! Por que isso?
— Há um contexto histórico, não dá para explicar de uma só vez.
— De qualquer maneira, aqui você é admirada por ser quem é, uma mulher n***a e cheia de poder.
Sabryna desejou que muitas mulheres negras que sofreram como ela tivessem ido para o mundo mágico para fugir da própria realidade por um tempo, ali não era um lugar perfeito, mas já aliava um pouco a sobrecarga e a opressão.