Os Vinte e Quatro Anciões conversavam de maneira telepática até um deles, o da sexta concavidade, sair do transe e se desconectar dos demais.
— Ozáuz — disse Ozadá —, por que saiu da interlocução?
— Preciso ir a um Reino, Anciões — disse Ozáuz.
— Para o qual? — perguntou Ogumsá.
— Lembrei de um assunto inacabado e devo ir para resolver — Ozáuz desceu do seu posto a flutuar para a saída do Obelisco.
— Não se demore para votar — falou OfumdeGíodle —, não podemos ser vinte e três Anciões por muito tempo, este número traz má sorte.
— A magia do tempo foi utilizada, Ancião, e não temos ideia de quem a usou e qual o propósito. Precisamos continuar com as propostas de intervenção quanto a isso — falou Oín. — Não podemos perder o controle de Dorbis, de maneira alguma. Não podemos perder tempo, não podemos parar.
— Entendido, Anciã, mas eu tenho assuntos pessoais, qualquer um de nós tem neste mundo.
Ozáuz saiu do Obelisco dos Anciões para se transportar para o Reino de Ic, ele não queria que soubessem das suas tramoias com Zadahtric, poderia ser julgado pelos demais.
Ele sentiu que a sua magia foi quebrada naquele Castelo e foi diretamente para o local exato saber o que aconteceu. Ele era um Ancião, mais poderoso que qualquer outro feiticeiro vivo, quem teria coragem para enfrentá-lo?
¶
Sabryna e Layra ficaram a observar Kanahlic ainda desacordada na maca, não havia mais luz azul-celeste, agora apenas as tochas iluminavam aquele sepulcro secreto.
De repente, uma presença muito forte surgiu ali e elas se viraram para ver o que era, um ser flutuante, translúcido e azulado estava bem diante dos seus olhos.
— Ancião Ozáuz — disse Layra, ficou tão apreensiva quando impactada.
— Quem quebrou a minha magia? — ele olhou para Sabryna. — Foi você? — depois olhou para o bastão mágico dela. — Onde conseguiu um bastão do Ébano de Novéanor? Quem é você?
— Eu sou Sabryna — respondeu a garota —, sou uma Allogaj das Cinzas.
Ela foi tão direta que o Ancião ficou por alguns segundos emudecido.
— Isso não existe... — ele se interrompeu ao perceber a Emissão da garota. — Isso não é possível — espantou-se ele. — Por que este Reino não para de produzir Allogajs, o que acontece por aqui?
— Há segredos que não chegarão ao conhecimento de vocês Anciões, nem com séculos e mais séculos de estudos e pesquisas.
— Quanta petulância. Onde está Zadahtric?
Ozáuz ficou de cara fechada para Sabryna, os Anciões levavam feiticeiros do mundo inteiro ao caminho do conhecimento e da sabedoria, e agora uma feiticeira qual ele inferiorizou, assim que a olhou, dizer-lhe aquelas palavras daquela maneira foi muito audacioso.
— Está derrotada, e você precisa pagar pelo seu crime.
Rapidamente, ele se aproximou de Sabryna, a pegou pelo pescoço, segurou a mão qual ela empunhava o bastão mágico e a suspendeu no ar. Layra se encostou na parede pelo susto, ela teve a certeza naquela hora de que morreriam.
— Você não tem amor à sua vida? Eu poderia te m***r agora mesmo — ameaçou o Ancião.
— Ancião, por favor, não — implorou Layra.
— Onde está Zadahtric, feiticeira? O que aconteceu com este Castelo?
— Zadahtric foi derrotada pela sua irmã Rammahdic que voltou do anonimato e agora se tornou a nova Rainha do Reino de Ic.
— Rammahdic? E onde está Zadahtric? Me responda.
— Está presa, Ancião...
— Eu vou m***r Rammahdic, vou m***r a todos que se oporem contra Zadahtric, vou m***r você por não me ter chamado antes e mostrado o segredo do Castelo para esta garota aberrante — Ozáuz olhou para Sabryna que não disse uma palavra a ele, nem tentou sair das suas garras. — Mas antes, vou m***r você, principalmente pela sua petulância.
Sabryna se lembrou imediatamente do que Unumodo disse-lhe na Lua Azul, as suas palavras começaram a fazer sentido, e o que ele havia ensinado-lhe surgiu à tona. Os olhos da garota ficaram vazios, apenas podia-se ver as escleras que tinham um tom verde-acinzentado.
— O que é isto? — indagou o Ancião.
Sabryna levantou a sua mão esquerda e mostrou mudar de aspecto.
— Você é uma Transcendentis? Por mais que eu esteja surpreso, você não escapará... — Ozáuz foi interrompido, pois, na mesma velocidade que ele agarrou Sabryna, ela enfiou a sua mão como uma lança para dentro do seu ventre.
Ozáuz largou Sabryna e pôs as mãos na barriga. Ele desceu para o chão, após décadas flutuando, nem sabia direito como permanecer equilibrado com a gravidade. Do ponto onde Sabryna o tocou, no seu interior, começou a mudar de cor, agora estava vermelho e não-translúcido.
— O que você fez comigo?
— Eu reverti o efeito da magia no seu ser, mexendo no seu núcleo, onde era o ser cerne, o seu ponto de equilíbrio.
— Isso... Isso... n******e ser...
Trêmulo, o Ancião passou a caminhar pelo corredor para tentar fugir da Allogaj, chamou pelos outros Anciões, mas havia perdido conexão com eles, e foi ganhando cores até voltar a ser um humano comum, e os anos que ele acumulou como imortal foram todos registrados na sua matéria, então, começou a se desintegrar e a virar **, bem diante dos olhos das meninas.
Layra ficou de boca aberta, numa pensou que um Ancião pudesse morrer, menos ainda ela presenciar a sua morte. Ficou estática até que um ruído chamou atenção das duas. Kanahlic se levantou da maca e analisou a todo o ambiente antes de olhar para as meninas, disse:
— Que desgraça está acontecendo?
¶
Sabryna e Layra demoraram mais que duas horas a conversarem com Kanahlic antes de levarem-na para a sala do trono. Kanahlic recebeu muito bem a tudo o que ouviu e não via a hora de se encontrar com a sua irmã mais velha. Enfim, elas saíram daquele lugar.
Chegando na sala do trono, Kanahlic gritou o nome da irmã e Rammahdic ficou sem acreditar no que vida e ouvia, levantou-se do trono a chorar e abraçaram-se como se não houvesse amanhã. As garotas explicaram o que aconteceu de maneira resumida, e entenderam todo o contexto, porém, Sabryna pediu a Layra que não falasse a ninguém sobre ela ter matado um Ancião, o seu sumiço deveria permanecer uma incógnita.
— Oh! Minha irmã, pensei que estivesse morta — disse Rammahdic.
— Eu que pensei que você estava morta — disse Kanahlic —, irmã, explica-me o que aconteceu. Onde você esteve todos esses anos?
— A história é muito longa, irmã. Precisamos conversar em particular.
— Sim, precisamos. Então, quer dizer que você era uma feiticeira das cinzas.
— Como não desconfiaram? Era difícil ocultar a minha Emissão.
— Você se ocultou muito bem. Como conseguiu?
— Vamos para outro lugar.
— Vamos. E onde está Zadahtric?
— Vou te levar até ela. Eu sabia que ela mentia, eu não queria acreditar que ela teria coragem para te m***r.
— Ela nunca matou ninguém, uma covarde mesmo — brincou Kanahlic.
— Ao contrário de nós, temos mortes nas nossas mãos.
— Mas fala a verdade, ela é pior que nós duas juntas.
— Ela é terrível — Rammahdic gargalhou. — Talvez, ela precise da família outra vez — Rammahdic voltou-se para a Allogaj e para a Prodígio e agradeceu, depois disse que depois conversaria com Sabryna em particular e foram embora.
¶
Sabryna estava reunida com o seu pessoal das cinzas num quarto, ela havia contado, por insistência de Layra, que matou o Ancião que ajudava Zadahtric, mas não podia revelar o seu método, era um segredo compartilhado apenas para ela e que somente ela conseguia fazer aquilo. Logo, entraram em debate, mas já não estavam mais tão surpresos com as proezas de Sabryna, apenas esperavam as notícias.
Enquanto especulavam sobre os atos da Allogaj, Sabryna foi conversar em particular com a Bia, ela julgou estar na hora de ensinar-lhe algumas coisas sobre magia secreta. Sabryna tinha consciência de que magia secreta não entrava no combo da bênção da Sabedoria, mesmo sendo sábia, não era onisciente. Muita coisa ainda tinha que aprender.
— Rammahdic e eu éramos muito amigas, e vivíamos aprendendo coisas com Lidarred no Castelo, ele sempre disse que eu era uma feiticeira prodígio, tanto que consegui fazer o encantamento de divisão de cerne para avatar, e Rammahdic não. Até hoje ela não consegue fazer, mas você consegue, Sabryna. Creio que até melhor do que qualquer pessoa que já tenha conseguido.
— De tudo o que eu já aprendi sobre magia secreta, esta foi a mais interessante — falou Sabryna. — Por que foi necessário aprender isso?
— Como eu falei, com os feitiços certos, eu posso depositar a minha alma num avatar. Os reis e as rainhas sempre usam este encantamento quando precisam sair e estão sendo ameaçados de morte. Se o avatar morrer, o verdadeiro corpo da pessoa estará a salvo, e a alma/conciência da pessoa retornará ao corpo, já que a ligação entre ambos é bastante densa. A Rosie e eu deciframos o mapa para entrar na Floresta Obscura, não sei se você já ouviu falar.
— Sim.
— Muito bem, deciframos o mapa para entrar na floresta sem nos perdermos pelo caminho e chegarmos até o Medalhão de Cronos, mas o caminho era perigoso e nós poderíamos ter morrido de verdade se tivéssemos entrado sem ser por meio de um avatar, mas avatar n******e fazer magia por não ter cerne, porém, eu ensinei-lhe como reparti-lo para o avatar a assim conseguimos fazer magia. Morremos várias até que tivemos a ajuda de uma pessoa muito poderosa, a Allogaj Valéria, e finalmente conseguimos chegar até ao final.
— Entendi. Vocês repartiram o seu cerne para o avatar para fazer magia, se no caso fosse morta, aquela parte voltaria para o corpo original que estava são e salvo. Vocês ficavam inconscientes, não é? Digo, o corpo original.
— Sim, até porque a nossa alma fica no avatar, e um corpo sem consciência é um corpo sem alma — Bia não quis explicar à Sabryna sobre aquilo, pois, Sabryna era uma Sapiensis, mas ela quis dizer que a única maneira de a alma sair do corpo vivo era quando a pessoa estava inconsciente, onde a alma da pessoa passeava pelo Mundo Etéreo qual chamavam de Mundo dos Sonhos, aquilo era incontrolável, exceto por quem tinha o dom da Projeção Astral, que sabia controlar, às vezes não, a sua saída e passeava por qualquer plano, desde que não tivesse restrições.
Era possível também ir fisicamente para o Mundo Etéreo, mas não era muito praticado por vários motivos.
— Eu sei. O único modo de deixarmos as nossas almas sair do corpo é estando inconsciente. Mas não seria possível que o avatar e o corpo original permaneçam conscientes?
Bia quase se engasgou com aquela pergunta.
— Só se você conseguir repartir a psique, mas não dá para repartir a psique desta maneira, e, ao mesmo tempo, repartir o cerne. Ou um, ou outro, os dois é impossível. É como uma balança, você só tem um peso, ou você coloca num lado, ou em outro, nos dois não dá.
— A não ser que seja uma balança tetradimensional.
— Como?
Sabryna decidiu não continuar a discussão, ela era uma Sapiensis e tinha várias objeções para apontar, mas tinha total certeza de que Bia não saberia responder, até porque o que Bia sabia, ela tinha um conhecimento muito mais vasto e elevado, somente não tinha conhecimento sobre a magia secreta.
¶
A madrugada estava no seu auge quando Rammahdic conversou com Sabryna em particular, a Rainha sentia muito sono, mas não queria deixar o assunto para depois.
— Sabryna, ontem foi um dia cheio — ela bocejou —, estou muito feliz e muito grata por você aparecer na minha vida, graças a Unomodo. Sem você eu não teria chegado até aqui tão fácil, mas foram muitos anos de guerra para eu obter esta vitória. É um grande prazer tê-la como a minha Maga Real.
— E como está Zadahtric?
— Está um pouco triste, indignada também, chorou muito e reconciliou-se com Kanahlic. Ela te odeia. Você estragou todos os planos dela. Se não fosse por você, nenhum dos meus planos teriam sido realizados. Ela detestou saber que você é a Maga do Castelo, e hoje pela tarde você será consagrada.
— Majestade, ainda tem uma coisa que eu preciso falar para a senhora.
— Sim.
— Quando fui encontrar-me com Unomodo na lua, ele me disse que eu encontraria as respostas para as minhas perguntas no Livro dos Segredos da Magia do Universo, e falou que justamente neste Castelo eu saberia como encontrar o Livro.
— Então, depois vamos procurar informações, porque você sabe que eu o perdi na Terra.
— Sim, senhora.
— Para encerramos, depois, vou precisar da sua ajuda para conversar com a Suprema Sacerdotisa dos Trealtas, ela levou a minha Zingária para algum lugar, eu preciso saber o que aconteceu, que m*l é este que ela estava a se referir.
— Sim, Majestade.
Rammahdic despediu-se de Sabryna e cada uma foi para os seus aposentos. Sabryna não dormiu, não estava com sono, então passou o resto da madrugada na biblioteca do Castelo.