capítulo 04

1443 Palavras
Bruna narrando Acordei no dia seguinte com a sensação de que meu corpo inteiro estava pesado. Talvez fosse o cansaço do dia anterior. Talvez fosse a noite m*l dormida. Ou talvez fosse simplesmente a minha cabeça, que parecia não desligar nunca. Fiquei alguns segundos encarando o teto antes de me levantar. Meu gato estava enrolado no canto da cama, dormindo tranquilamente, completamente alheio aos problemas que eu tinha. — Queria ter sua vida — murmurei. Ele abriu um dos olhos, me encarou por alguns segundos e voltou a dormir. — Obrigada pela consideração. Levantei e fui tomar banho. Depois me arrumei para trabalhar, colocando uma roupa simples e prendendo o cabelo. Peguei minha bolsa, conferi se tinha colocado a marmita e saí de casa. Pelo menos hoje não estava chovendo. Depois do temporal do dia anterior, aquilo já era alguma coisa. Desci o morro e segui meu caminho até o ponto. Peguei o ônibus e fui para o trabalho como fazia todos os dias. Só não imaginava que aquela seria a última vez que eu pisava naquela lavanderia como funcionária. Assim que cheguei, entrei pela porta dos fundos e ainda estava tirando a bolsa do ombro quando ouvi meu nome. — Bruna. Virei. Era Gabriel. Estranhei na mesma hora. Ninguém ali nunca tinha falado comigo direito. Quer dizer, as meninas conversavam entre elas, os outros funcionários trocavam algumas palavras, mas comigo era sempre aquela distância. E Gabriel nunca tinha demonstrado qualquer interesse em falar comigo. Até ontem. Ontem ele tinha me oferecido uma carona. E hoje estava me chamando para conversar. — Oi. — Vem comigo. Franzi a testa. — Eu vou só me trocar e colocar meu uniforme. Já falo com você. Ele balançou a cabeça. — Não precisa. — Como assim? — Só vem. Não gostei daquele tom, mas o segui. Ele entrou em uma sala que eu quase nunca via sendo utilizada e esperou que eu entrasse. Assim que passei pela porta, ele a fechou. Meu corpo ficou imediatamente alerta. Olhei para ele. — Aconteceu alguma coisa? Gabriel caminhou até a mesa e se sentou. — Fui promovido. — Ah. Não sabia exatamente o que responder. — Gerente. — Parabéns. Ele abriu um sorriso. — Agora algumas coisas vão mudar por aqui. — Tudo bem. Fiquei parada perto da porta. — Você precisava falar mais alguma coisa? Ele se levantou. — Na verdade, precisava. Começou a se aproximar. Dei um passo para trás. — O quê? Ele não respondeu. Apenas continuou vindo na minha direção. Até levantar a mão e tocar meu rosto. Meu corpo inteiro ficou tenso. Meu coração começou a bater tão rápido que parecia querer sair pela boca. Por um segundo, eu simplesmente congelei. Não porque queria aquilo. Mas porque não estava entendendo o que estava acontecendo. Ele passou os dedos pelo meu rosto e se aproximou ainda mais. Quando percebi que ele tentaria encostar a boca na minha, reagi. Empurrei-o com força. — Que p***a você está fazendo? Ele cambaleou um pouco para trás. — Calma. — Calma? Minha voz saiu mais alta. — Você ficou maluco? Ele ajeitou a camisa como se eu tivesse sido inconveniente. — Agora eu sou o gerente. — E daí? — Daí que você vai ter que aprender a me tratar muito bem. Olhei para ele sem acreditar. — Eu trato todo mundo com respeito. Mas não tenho que fazer absolutamente nada por você além do meu trabalho. O sorriso dele desapareceu. — Então você não entendeu. — Entendi perfeitamente. — Eu posso facilitar sua vida aqui. — Não preciso que você facilite nada. Ele ficou me encarando. — Tem certeza? — Absoluta. Ele respirou fundo e voltou para a mesa. Pegou alguns papéis. — Então não tem muito o que conversar. — Como assim? — Se você não está disposta a aceitar os termos que estou te oferecendo, está desligada da empresa. Por alguns segundos, fiquei em silêncio. Achei que tinha entendido errado. — O quê? — Você ouviu. — Você está dizendo que, se eu não aceitar ter um caso com você, vou ser mandada embora? Ele simplesmente balançou a cabeça. — É isso mesmo. Senti minha garganta fechar. — Você não pode fazer isso. — Posso. — Isso é abuso de poder. — Pode chamar do que quiser. Ele empurrou os papéis sobre a mesa. — Se você não está disposta, não precisa nem perder seu tempo trocando de roupa. Pode pegar suas coisas, assinar esses papéis aqui e sair. Olhei para os documentos. — Porque você não terá mais nada a acrescentar para a nossa empresa. Eu queria gritar. Queria chamar alguém. Queria perguntar onde estava a justiça naquela situação. Mas eu sabia como aquele mundo funcionava. E, naquele momento, eu não tinha ninguém. Nenhum pai. Nenhuma mãe. Nenhum irmão. Nenhum amigo que pudesse entrar naquela sala e me defender. Eu estava sozinha. Como sempre. Engoli em seco. Peguei os papéis. Conferi tudo. Os valores que eu tinha para receber estavam ali. Conferi novamente, porque precisava ter certeza de que não estava saindo de mãos vazias. Depois assinei aquela droga. Minha mão tremia. Quando terminei, coloquei a caneta sobre a mesa. — Pronto. Ele pegou os documentos. — Pode ir. Nem respondi. Peguei minha bolsa e saí daquela sala. Assim que atravessei a porta, senti meus olhos arderem. Não queria chorar. Não ali. Não na frente de ninguém. Passei pelos outros funcionários tentando manter a cabeça erguida. Algumas meninas olharam para mim. Uma delas até pareceu querer perguntar alguma coisa. Mas ninguém perguntou. E eu agradeci. Porque não sabia se conseguiria explicar. Saí da lavanderia. Assim que coloquei os pés na rua, respirei fundo. O choro estava preso na minha garganta. Eu tinha perdido meu emprego. Não porque não trabalhava direito. Não porque tinha feito alguma coisa errada. Mas porque um homem decidiu que meu corpo era parte das condições de trabalho dele. E agora eu teria que começar tudo de novo. Procurar emprego. Entregar currículo. Esperar. Torcer. E sabe Deus quando eu conseguiria alguma coisa. Olhei para o céu. — Por quê? Não veio resposta. Nunca vinha. Caminhei até o ponto de ônibus. Sentei e fiquei ali esperando. Tentava me controlar porque não queria começar a chorar no meio da rua. Respirei fundo várias vezes. Mas quanto mais eu tentava segurar, mais meus olhos ardiam Depois de alguns minutos, meu ônibus apareceu. Graças a Deus, estava vazio. Entrei, paguei minha passagem e fui direto para os bancos do fundo. Sentei perto da janela. Coloquei os fones de ouvido. A música começou a tocar, mas eu nem estava prestando atenção. Fiquei olhando para a rua. Carros. Prédios. Pessoas. Tudo passava diante dos meus olhos, mas eu não conseguia realmente enxergar nada. Minha cabeça estava presa naquela sala. Na mão dele tocando meu rosto. Na ameaça. Na demissão. Na sensação de impotência. Eu odiava aquela sensação. Odiava depender de um salário. Odiava não ter uma reserva. Odiava não ter ninguém para me ajudar. Quando o ônibus finalmente chegou ao morro, desci no meu ponto. Passei pela barreira sem nem perceber quem estava ali. Minha cabeça estava longe. Eu só queria chegar em casa. Tomar banho. Deitar. Esquecer aquele dia. Mas, alguns metros depois, ouvi o barulho de uma moto se aproximando. Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo. Não. Justo hoje, não. Eu não estava com a menor paciência para ele. Nem precisava olhar para saber quem era. Eu já conhecia aquele barulho. A moto diminuiu a velocidade atrás de mim. Meu coração apertou. Eu sabia muito bem qual seria o papo. Era sempre a mesma coisa. Morte aparecia, fazia alguma piada, me chamava de Bruninha e começava com aquela conversa de que eu deveria ficar com ele. Só que hoje eu não estava disposta a ouvir. Hoje eu tinha acabado de perder meu emprego. Estava cansada. Humilhada. Com vontade de desaparecer. E, sinceramente, se ele resolvesse insistir naquela história de que eu seria dele, eu não sabia se conseguiria manter a calma. Continuei andando. Fingi que não tinha ouvido a moto. Fingi que não sabia que ele estava atrás de mim. Mas então ouvi a voz dele. — E aí, Bruninha... Fechei os olhos por um segundo. Era exatamente o que eu esperava. Virei lentamente. E encontrei Morte me olhando de cima da moto. Só que, dessa vez, alguma coisa no meu olhar devia estar diferente. Porque ele ficou em silêncio por alguns segundos. Talvez tivesse percebido que aquele não era um bom dia para brincar comigo. Eu não disse nada. Apenas continuei olhando. E, pela primeira vez, eu não estava com medo do que ele poderia falar. Eu estava cansada demais para ter medo.
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