Morte narrando
O Fantasma ficou me gastando o caminho inteiro.
Desde que saímos daquele lugar, o desgraçado não parava de rir por causa do que tinha acontecido com a Bruna.
— “Nojo”, Morte? — ele repetiu pela milésima vez, imitando a voz dela. — A mina te deu nojo na cara, irmão.
Revirei os olhos.
— Vai tomar no cü.
Ele rachou o bico.
— Tô falando nada demais. Só tô lembrando.
— Então lembra também de anotar aí.
— Anotar o quê?
Olhei para ele.
— Que essa mandada ainda vai ser minha.
Fantasma balançou a cabeça, rindo.
— Tu é muito convencido.
— Não é convencimento. É certeza.
Bruna podia continuar me esnobando quanto quisesse. Podia me mandar para aquele lugar, levantar o dedo para mim, fugir quando me visse chegando.
Eu tinha paciência.
E, principalmente, eu conhecia aquele tipo de mulher.
Quanto mais ela resistia, mais eu queria descobrir até onde aquela marra ia.
Subimos direto para a boca.
Ainda tinha umas paradas para resolver naquela noite, principalmente por causa da carga que tinha sido apreendida. Aquela merda tinha me dado um prejuízo do caralhö e eu precisava organizar algumas coisas antes de conseguir descansar.
Passei horas resolvendo problemas.
Quando finalmente meti o pé para casa, já estava tarde pra c*****o.
Minha cabeça parecia que ia explodir.
Eu só queria tomar uma ducha e dormir.
Estava saindo da boca quando trombei com Verônica.
Ela apareceu já com aquele sorrisinho conhecido, se aproximando toda cheia de graça.
— Demorou hoje, hein?
Olhei para ela sem muita expressão.
— Hoje não, Verônica.
Ela parou.
— Não?
— Tô cansado.
— Eu posso dar um jeito nisso.
Ela chegou mais perto, mas eu dei um passo para trás.
Não estava a fim.
Minha cabeça estava doendo demais.
Aquela apreensão tinha fodido meu humor. Não era qualquer prejuízo. Era dinheiro pra c*****o perdido e, pior, eu ainda teria que reorganizar tudo para colocar outra carga na rua.
— Vai para casa.
Ela me encarou, claramente surpresa.
— Tá me dispensando?
— Tô.
Não tinha paciência para explicar.
Continuei andando e deixei ela para trás.
Quando cheguei em casa, encontrei um prato de comida que minha tia tinha deixado.
A mulher podia ser interesseira pra caralhö, mas, pelo menos, às vezes aparecia com alguma coisa para comer.
Esquentei o rango, sentei e comi em silêncio.
Depois subi para o quarto.
Tomei uma ducha demorada, coloquei uma roupa confortável e me joguei na cama.
Antes de dormir, acendi um baseado.
Fiquei alguns minutos sentado, deixando a cabeça desacelerar.
Aos poucos, a dor foi ficando mais suportável.
E, como sempre, meus últimos pensamentos acabaram indo parar naquela mulher.
Bruna.
A p***a da mina conseguia entrar na minha cabeça sem nem fazer esforço.
Fechei os olhos.
— Essa mulher ainda vai me enlouquecer.
Apaguei o baseado e finalmente dormi.
—
Acordei no dia seguinte me sentindo bem melhor.
A dor de cabeça tinha praticamente desaparecido.
Levantei, tomei uma ducha, coloquei uma roupa e peguei minhas paradas.
Eu precisava dar uma volta pelo morro.
Não dava para ficar trancado em casa enquanto tinha coisa para resolver.
Hoje eu também teria que fazer o pedido de uma nova carga.
Depois do prejuízo que tinha tomado, eu precisava prestar atenção em cada detalhe.
Não tinha como ficar perdendo dinheiro daquele jeito.
Ainda mais uma carga daquele tamanho.
Era dinheiro demais indo embora de uma hora para outra.
Eu precisava mudar a rota.
Rever os pontos.
Entender onde tinha dado merda.
E, principalmente, descobrir se tinha alguém passando informação.
Porque eu podia aceitar muita coisa.
Prejuízo, não.
Peguei a moto e saí.
O Fantasma estava na responsa de fazer a contagem da noite e o recolhe. Os vapores já estavam trocando os plantões quando comecei a circular pelo morro.
Passei por alguns pontos, troquei ideia com os caras e conferi se estava tudo na paz.
Depois parei na padoca.
Estava precisando de café.
Entrei, pedi o meu e fiquei sentado por uma cota.
Enquanto tomava, fiquei falando com meu fornecedor pelo telefone.
E o filho da püta estava de caô com a minha cara.
Queria aumentar o valor das cargas.
De novo.
— Já te passei a visão, irmão. Se continuar aumentando desse jeito, vou trocar de fornecedor.
Ele tentou argumentar.
Não dei muita a******a.
Eu não era o****o.
Sabia quanto pagava.
Sabia quanto conseguia vender.
E sabia também que tinha outros caras querendo fazer negócio comigo.
Quando terminei o café, desliguei.
Fiquei alguns segundos olhando para a rua antes de levantar.
Peguei o capacete e voltei para a moto.
Estava subindo em direção à boca quando vi uma figura caminhando pela rua.
Parei na mesma hora.
Bruna.
Franzi a testa.
Aquilo estava errado.
Aquele horário era quando ela normalmente estava trabalhando.
O que ela estava fazendo ali?
Diminuí a velocidade e parei ao lado dela.
— Bruna?
Ela continuou andando por mais dois passos antes de virar.
Quando olhei para o rosto dela, alguma coisa mudou dentro de mim.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
Não era uma choradeira.
Era pior.
Ela estava segurando.
Segurando com força para não deixar as lágrimas caírem.
Desci da moto imediatamente.
— O que aconteceu?
Ela balançou a cabeça.
— Nada.
— Nada?
— Está tudo bem.
— Para de caô.
Ela desviou o olhar.
— Não aconteceu nada, Morte.
Aproximei-me.
— Bruna, eu quero ajudar.
Ela continuou em silêncio.
— Me passa a visão do que está rolando.
— Não está rolando nada.
Respirei fundo.
Eu sabia que ela não confiava em ninguém.
Talvez muito menos em mim.
Mas naquele momento não era hora de ficar provocando.
— Qual foi, Bruna? Tô tentando te ajudar na moral.
Ela finalmente me olhou.
— Eu não preciso de ajuda.
— Comigo tu não precisa ficar desse jeito, tá ligado?
Ela franziu a testa.
— Desse jeito como?
— Se fechando.
Fiquei alguns segundos encarando aquela mulher.
— Eu sempre deixei claro quais são as minhas intenções com você. Não estou fingindo ser outra pessoa.
Ela abaixou os olhos.
— Eu só quero ir para casa.
— Então me deixa te ajudar.
Ela não respondeu.
Continuei:
— Eu sei que você pensa que, se alguém se aproximar, vai acabar se machucando.
Ela levantou os olhos para mim.
— Mas eu não tenho medo.
Minha voz saiu mais baixa.
— Não tenho medo da tua história, da tua fama ou dessa p***a de maldição que o pessoal inventou.
Ela respirou fundo.
— Morte...
— Se você me der uma chance, eu prometo que vou cuidar de você.
Ela ficou me encarando.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada.
Então ela soltou um suspiro.
— Tá suave.
— O quê?
— Eu... posso falar.
Aquilo me pegou de surpresa.
Fiquei quieto.
Ela continuou:
— Só não quero falar aqui.
— Então onde?
Ela hesitou.
— Na sua casa.
Por um segundo, achei que tinha ouvido errado.
Na minha casa?
Bruna?
A mesma mulher que há pouco tempo tinha me chamado de nojento?
A mesma que não aceitava nem uma carona minha?
Ela estava pedindo para ir para a minha casa conversar?
Confesso que fiquei surpreso pra c*****o.
Fazia anos que eu ficava atrás daquela mulher.
Anos.
E ela nunca tinha baixado a guarda daquele jeito.
Por um minuto, até esqueci dos meus próprios problemas.
A carga apreendida.
O fornecedor.
A grana perdida.
Tudo.
Só existia ela na minha frente.
E, claro, eu não ia negar.
— Então sobe.
Ela olhou para a moto.
— Na sua moto?
Soltei uma risada curta.
— Vai querer que eu arrume um helicóptero agora?
Ela revirou os olhos.
— i****a.
— Anda logo.
Coloquei o capacete.
Ela ficou parada por alguns segundos, até finalmente se aproximar.
— Segura direito.
— Eu sei andar de moto.
— Não falei que não sabe.
Ela subiu atrás de mim.
Senti as mãos dela hesitando antes de segurarem minha cintura.
Aquilo me fez sorrir.
Liguei a moto.
— Pronta?
— Só vai.
Acelerei.
Subimos o morro em direção à minha goma.
E, pela primeira vez desde que conheci Bruna, eu tinha a sensação de que talvez aquela mulher finalmente estivesse me deixando chegar perto.
Não sabia o que tinha acontecido.
Não sabia por que ela estava daquele jeito.
Mas sabia de uma coisa.
Eu ia ouvir.
Sem pressão.
Sem brincadeira.
Porque, naquele momento, eu não queria conquistar Bruna.
Eu só queria entender por que aqueles olhos, que sempre pareciam tão fortes, estavam segurando lágrimas.
E, se alguém tivesse feito aquilo com ela...
Eu faria questão de descobrir quem foi.