Bruna narrando
Eu ainda não conseguia acreditar que tinha aceitado subir na moto do Morte.
Talvez tenha sido o momento.
Talvez fosse o cansaço.
Ou talvez eu simplesmente estivesse cansada demais de não ter ninguém.
Passei tanto tempo acreditando que precisava me proteger de todo mundo que acabei me esquecendo de como era ter alguém por perto.
E o Morte sempre esteve ali.
Do jeito dele, é verdade.
Insistente, inconveniente, provocador e completamente convencido de que algum dia eu seria dele.
Eu sempre achei aquilo absurdo.
Mas, quando ele parou a moto ao meu lado e viu que eu estava prestes a chorar, alguma coisa foi diferente.
Ele não fez piada.
Não tentou me pressionar.
Só disse que queria ajudar.
Talvez fosse hora de aceitar.
Não significava que eu estava me entregando para ele.
Longe disso.
Eu ainda tinha medo.
Muito medo.
Mas talvez fosse hora de começar a pensar na possibilidade de ter alguém.
Ele sempre dizia que queria cuidar de mim.
E, naquele momento, eu precisava acreditar que talvez alguém pudesse ficar.
Mesmo que uma pequena parte de mim ainda gritasse que todo mundo que se aproximava acabava indo embora.
Subi na moto e segurei a cintura dele.
Não demorou muito para chegarmos à casa dele.
Assim que entramos, ele tirou o capacete e colocou sobre a mesa.
— Quer alguma coisa? — perguntou.
Ele me olhou.
— Você quer?
— Um café.
— Então faz.
Revirei os olhos.
— Você é folgado.
— E você continua aqui.
Não respondi.
Fomos até a cozinha e ele mostrou onde ficava as coisas.
Peguei o pó de café e comecei a preparar.
O silêncio entre nós não era exatamente desconfortável.
Era estranho.
Eu estava acostumada a ficar sozinha.
Agora tinha alguém atrás de mim, observando cada movimento.
Coloquei a água para ferver.
— Foi o Gabriel — falei.
Morte ficou sério na mesma hora.
— O que tem ele?
Respirei fundo.
— Ontem, quando eu estava saindo do trabalho, ele me ofereceu uma carona.
— Eu sei.
Olhei para trás.
— Como sabe?
— Ele falou comigo.
Aquilo me surpreendeu.
— Vocês se conhecem?
— Conheço todo mundo que trabalha no asfalto.
Assenti.
Voltei a olhar para o café.
— Eu não aceitei a carona.
— Fez certo.
Continuei:
— Hoje, quando cheguei ao serviço, ele me chamou para conversar.
Morte ficou em silêncio.
— Disse que tinha sido promovido a gerente.
Coloquei o café no filtro.
— E depois fechou a porta.
Minha voz falhou um pouco.
— Ele começou a se aproximar de mim.
Morte se mexeu atrás de mim.
— Ele fez alguma coisa?
— Passou a mão no meu rosto.
O silêncio ficou pesado.
— E tentou me beijar.
Dessa vez, Morte não respondeu imediatamente.
— Eu empurrei ele.
Terminei de passar o café.
— E ele disse que, agora que era gerente, eu precisava tratar ele muito bem.
Morte soltou uma risada sem humor.
— E claro que você não aceitou, né?
Balancei a cabeça.
— Não.
Coloquei duas xícaras sobre a mesa.
— Ele me demitiu.
Morte me encarou.
— Por causa disso?
— Sim.
Sentei.
— Disse que, se eu não aceitasse ficar com ele, eu não tinha mais nada para acrescentar à empresa.
Morte apertou a mandíbula.
— Filho da p**a.
— Eu conferi os papéis e assinei.
Mexi as mãos sobre o colo.
— Mas agora eu estou preocupada.
Ele se sentou na minha frente.
— Com o quê?
— Com tudo.
Engoli em seco.
— Não sei o que vou fazer agora. Meu aluguel está para vencer. Tenho contas. Preciso comprar comida. E eu não sei quanto tempo vou levar para conseguir outro emprego.
Morte ficou alguns segundos me olhando.
Depois falou:
— Fica despreocupada.
— Como?
— Se você deixar, eu cuido de você.
Aquelas palavras me pegaram de surpresa.
— Eu não quero depender de ninguém.
— Não estou falando para você depender de mim.
Ele se inclinou um pouco.
— Estou falando para você deixar alguém estar do seu lado.
Baixei os olhos.
— Eu tenho medo.
Ele ficou quieto.
— Medo de quê?
Respirei fundo.
— De deixar alguém se aproximar.
Minha voz saiu baixa.
— Porque toda vez que alguém se aproxima de mim, alguma coisa acontece.
Ele não disse nada.
Então continuei.
— Eu perdi meus pais.
Senti meus olhos arderem.
— Depois perdi minha tia.
Passei a mão rapidamente pelo rosto.
— Eu não aguento mais perder ninguém.
Ele se levantou.
Veio até mim devagar.
— Bruna...
— Eu não quero passar por isso de novo.
Ele parou na minha frente.
— Você não vai.
Olhei para ele.
— Como pode ter certeza?
— Porque eu sempre vou voltar para você.
Meu coração acelerou.
— Sempre?
Ele assentiu.
— Sempre.
Fiquei encarando aquele homem.
Pela primeira vez, não vi o Morte.
Não vi o cara que todos temiam.
Vi apenas um homem tentando me convencer de que eu não precisava continuar sozinha.
Ele levantou a mão devagar.
Tocou meu rosto.
Dessa vez, eu não me afastei.
Meu corpo ficou tenso, mas não de medo.
Era outra coisa.
Uma sensação que eu não conhecia.
Ele se aproximou.
Devagar.
Como se estivesse esperando que eu mandasse parar.
Eu não mandei.
Quando nossos lábios se tocaram, meu coração disparou.
Foi um beijo simples.
Curto.
Mas foi meu primeiro beijo.
Eu nunca tinha beijado ninguém.
E, para minha surpresa...
Eu gostei.
Talvez fosse porque não havia pressa.
Não havia força.
Não havia cobrança.
Só aquele momento.
Quando nos afastamos, fiquei olhando para ele sem saber o que dizer.
Morte também parecia diferente.
Menos arrogante.
Mais sério.
Foi quando o rádio dele chiou.
— Morte, preciso falar contigo.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— p***a.
Pegou o rádio.
— Fala.
Ouviu a resposta.
O rosto dele mudou.
— Já tô indo.
Ele olhou para mim.
— Preciso resolver uma parada.
Assenti.
— Tudo bem.
Ele pegou as coisas e caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou novamente para mim.
— Fica aqui.
— Eu posso ir para casa.
— Eu volto.
Aquelas duas palavras ficaram na minha cabeça.
Eu volto.
Depois ele saiu.
Fiquei sozinha na cozinha.
Olhei para a xícara de café que tinha feito para ele.
Depois toquei meus próprios lábios.
Eu tinha acabado de beijar o Morte.
O homem que eu passei tanto tempo tentando manter longe.
E o pior?
Eu gostei.
Soltei uma risada nervosa.
— Meu Deus...
Levantei e comecei a guardar as coisas.
Mas minha cabeça não parava.
Eu sempre achei que me afastar das pessoas fosse a melhor maneira de me proteger.
Se ninguém se aproximasse, ninguém poderia morrer.
Se ninguém entrasse na minha vida, eu nunca precisaria sentir aquela dor outra vez.
Só que isso também significava uma coisa.
Eu estava condenada a ficar sozinha.
E talvez eu não quisesse mais isso.
Talvez eu estivesse cansada demais de chegar em casa e não ter com quem conversar.
Cansada de não ter para quem contar como foi meu dia.
Cansada de guardar tudo dentro de mim.
Talvez o Morte estivesse certo.
Talvez eu precisasse deixar alguém entrar.
Não sabia se seria ele.
Não sabia se estava pronta para confiar.
Muito menos sabia se aquela história daria certo.
Mas alguma coisa tinha mudado naquele dia.
Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava pensando apenas no que poderia dar errado.
Eu estava pensando no que poderia dar certo.
E talvez fosse hora de começar a me abrir também.
Porque eu não queria passar o resto da minha vida sendo apenas o Anjo da Morte.
Eu queria ser Bruna.
Queria ter alguém.
Queria amar.
Queria ser amada.
E, pela primeira vez, tive coragem de admitir para mim mesma que talvez aquele alguém pudesse ser o homem que eu passei tanto tempo tentando evitar.