Os homens de Capitão trouxeram Peteleco para mais perto do chefe. Capitão não podia ficar de pé.
- Peteleco, diz pra mim quem molhou tua mão "pra" deixar aquele cara de moto entrar no meu domínio! - exige Capitão. Peteleco tremia mais que vara verde. Capitão expressa apreensão com o silêncio do jovem.
- Desembucha, Peteleco! - grita Capitão. Peteleco se estremece com o grito de Capitão.
- Foi um cara.. Veio um dia antes da festa! Ofereceu duas mil pilas "pra" gente deixar o cara da moto chegar até o Barracão! - responde Peteleco. Capitão olha para Peteleco com um misto de raiva e alívio.
- Tu vai me dizer quem era o cara? - exige Capitão. Peteleco titubeia antes de falar.
- Não sei quem era, Capitão! Ele não era daqui! - responde Peteleco, ofegante. Capitão ainda não se deu por satisfeito.
- Vai me entregar o cara se ver ele? - pergunta Capitão, tenso. Peteleco pensa por instantes.
- Não me lembro como ele era, Capitão! - devolve Peteleco. Não era o que Capitão queria ouvir.
- Tu não se lembra ou não quer entregar o cara? - insiste Capitão. Peteleco se estremece com a pergunta e se cala por longos minutos.
- Chega aí, Dente-de-Onça! - diz Capitão, Dente-de-Onça para até onde estava Peteleco e os dois homens que o seguravam.
- Fala, Capitão! - responde Dente-de-Onça. Capitão olha meio com pena e meio com ódio para Peteleco.
- Leva o pivete "pro" pé do morro, no mangue! Tu sabe o que fazer com ele! - sentencia Capitão, sério. Peteleco se desespera. Tenta se livrar dos homens que o seguravam.
- Não, Capitão! Não! - suplica Peteleco, às lagrimas. Capitão apenas o fita, impassível. Dente-de-Onça faz sinal para que os homens que seguravam Peteleco o levassem.
- Já foi, Capitão! - responde Dente-de-Onça, acompanhando os homens que saíram do Barracão levando Peteleco.
- Será que há mais X9 no meio da gente? - pergunta Capitão, para si mesmo. Catraca se aproxima.
- Ainda falta saber quem se engraçou para a mina de Cavalo, Capitão! - lembra Catraca. Capitão respira fundo e por fim olha para Catraca.
- Ainda falta esse bagulho pra resolver... - lamenta Capitão. Catraca pensa por instantes.
- Tem alguma ideia de quem é o infeliz? - pergunta Catraca, casualmente. Capitão fixa o olhar para fora do Barracão.
- Só aquele que Papai Noel me falou... Mas ainda está incerto isso... - responde Capitão.
- Ao menos Vinte Léguas está tranquila. - devolve Catraca.
- Falou, Catraca! Ninguém assalta alguém aqui, e ninguém de fora pode entrar sem eu saber! - responde Capitão.
- E o meu plano? - pergunta Catraca.
- "Tá" como o esperado, vamos ver quem vacila agora! - responde Capitão.
- Já é, Capitão! Tenho umas coisas pra resolver na baixada, vou nessa! - despede-se Catraca.
- Já é, Catraca! Até mais ver! - responde Capitão, Catraca sai do Barracão. Capitão permanece calado, olhando para fora do Barracão. Enquanto isso, Martiniel e Zaroio estavam perto de chegar na ruela que leva à casa deles na comunidade Vinte Léguas.
- Capitão "tava" estranho hoje, Zaroio! - observa Martiniel. Zaroio olha enviesado para o amigo.
- E tu acha que era "pra" ele estar como? Feliz? Cara! Descobriram que tu e a mina de Cavalo "tavam" num oba-oba danado e tu fica "sussa"? - reclama Zaroio.
- Até parece! Se fosse você no meu lugar.. - resmunga Martiniel.
- Se fosse eu no seu lugar não cairia na armadilha "pra" não ficar de m*l com Cavalo ou com Capitão! - retorquiu Zaroio. Martiniel olha aborrecido para o amigo.
- Mas você não "tava" no meu lugar, então não sabe o que deu em mim naquela hora! - devolve Martiniel, impaciente. Zaroio olha para o amigo, compreensível.
- Pode ser... - conforma-se Zaroio. Ao dobrarem uma esquina, Mirna e amigas desciam o morro. Os jovens param.
- Martiniel! Zaroio! O que "tão" aprontando agora? - pergunta Mirna, simpática. Martiniel e Zaroio se entreolham surpresos.
- Como assim, aprontando? - pergunta Martiniel. Mirna sorri, marota. Os rapazes ficam confusos.
- Vocês "tavam" numa grande festa que aconteceu morro acima! - responde Mirna, brincalhona. Martiniel e Zaroio se entreolham, perplexos.
- Como você soube disso, Mirna? - pergunta Martiniel, temeroso. Mirna olha desconfiada para as amigas,
- Foi a Salete quem me contou! - responde Mirna, apontando para uma de suas amigas.
- Rosali me contou, porque ela acha que ele é teu namorado! - devolve Salete, encabulada. Mirna olha perplexa para as suas amigas.
- Quem disse que o Martinel é meu namorado? - pergunta Mirna, olhando, surpresa, para as amigas, que se entreolhavam dando risadinhas.
- Todo mundo! - respondem elas, quase em unissono. Mirna se volta para Martiniel.
- Difícil guardar segredo, não é, Martiniel? - pergunta Mirna, brincalhona. Martiniel engole em seco.
- É... É, sim... - titubeia o jovem. Martiniel e Mirna trocam olhares insuspeitos. Os amigos percebem.
- Vamos na frente! A gente se encontra depois, tá, Mirna? Vem com a gente, Zaroio! - diz Salete, chamando as outras amigas para que a acompanhassem. Zaroio, incrédulo, apenas acenou positivo com a cabeça e, sorridente, foi acompanhar as moças. Martiniel e Mirna se entreolham mais um pouco.
- Que engraçado! - sorri Mirna, deixando Martiniel curioso.
- O que é engraçado, Mirna? - pergunta Martiniel. Mirna olha ao redor antes de fitar o olhar em Martiniel.
- Que já pensam que estamos namorando! - responde ela, ternamente, com um lindo sorriso que deixa Martiniel vulnerável.
- E isso é r**m? - pergunta Martiniel, já envolvido pela beleza da moça.
- Depende... - disfarça Mirna. Martiniel sorri.
- Depende de quê? - insiste Martiniel. Mirna olha nos olhos de Martiniel. O jovem treme por dentro.
- Depende de se for mesmo verdade! - responde Mirna. Ambos sorriem enquanto flertam.
- Então vamos tornar realidade! - decide Martiniel. Enquanto ainda se olham nos olhos, Martiniel pega ternamente nas mãos de Mirna e se aproximam lentamente um do outro até que se beijam sem se darem conta. Depois do beijo, olham um para o outro entre admirados e envergonhados.
- Desculpe, não quis forçar... - exime-se Martiniel.
- Não foi forçado, eu também quis! - retruca Mirna, emanando felicidade. Martiniel sorri, aliviado.
- Meus pais devem "tá" preocupados, Mirna! Tenho que ir "pra" casa! - diz Martiniel, lamentoso.
- Sei como é... Também tenho que voltar "pra" casa depois de ir na feira lá embaixo... - lamenta Mirna.
- Depois a gente se vê! - promete Martiniel. Trocam um selinho antes de irem para direções opostas. Já perto de casa, Martiniel encontra o seu pai esperando na porta, de braços cruzados.
- Martiniel, diga "pra" onde você foi, porque "pra" uma peneira é que não! - cobra seu Onofre, bloqueando a porta. Martiniel olha aflito para o seu pai.
- Pai, fui "pra" uma peneira, sim! "Cê" não confia em mim, não? - pergunta Martiniel, fingindo mágoa.
- Perguntei a todo mundo e ninguém me disse de peneira nenhuma! - rebate seu Onofre, reticente. Martiniel, acuado, finge mágoa.
- É que essa peneira é secreta, porque é muito concorrida, pai! Vale vaga "pra" um time grande! - arrisca Martiniel. Seu Onofre estranha.
- Ninguém me falou de peneira secreta nenhuma! - retorquiu seu Onofre. Martiniel sorri, dissimulado.
- É porque ela é secreta, pai! Se geral soubesse dela, não seria mais secreta, seria? - pergunta Martiniel. Seu Onofre olha incrédulo para o filho.
- Não, não seria! - responde seu Onofre, secamente. Martiniel sorri cinicamente.
- Então! Agora posso entrar? - pergunta Martiniel. Seu Onofre titubeia. Calado, deixa a porta livre para Martiniel. Martiniel entra e vai logo para o banheiro. Seu Onofre continuava desconfiado. Alguma hora ele descobrirá a verdade?