Eu mesma

689 Palavras
Meu coração acelera com força. Não sei dizer se é medo... ou algo mais profundo. Algo que não tem nome. Bato duas vezes. — Entre — a voz dele soa firme, autoritária, mas há algo ali... contido. Abro a porta. O ambiente está silencioso, e o aroma amadeirado preenche o ar com uma presença quase palpável. Madeira, especiarias... e algo ancestral. Intenso. Quente. Lá está ele. Sentado atrás da imensa mesa de carvalho, postura impecável, olhar atento. Aquele olhar. Quente e frio ao mesmo tempo. Como se atravessasse minha pele, meus pensamentos... minha essência. Caminho até ele e recebo os documentos com cuidado. Tento manter a compostura, mas sinto cada batida do meu coração como um tambor acelerado. Dou um passo para trás, pronta para sair. — Isabela. Paro. A mão ainda na maçaneta. Viro-me devagar. — Senhor? Ele não responde de imediato. Apenas me observa em silêncio. Um silêncio que pesa. Que exige atenção. — Eu sabia — murmuro, sem perceber. Frederico franze levemente o cenho. — Sabia? Sua voz agora é baixa, firme, mas diferente. Como se quisesse compreender algo mais do que minhas palavras permitiam. — Seus pais... são daqui? — ele pergunta, direto, sem rodeios. A pergunta me pega desprevenida. Mas respondo, sem hesitar: — São, sim. Nascidos aqui. Moramos numa chácara, afastada da cidade. Desde que eu era bebê. Me aproximo um pouco, sem pensar. O ar entre nós muda. Não há mais barreiras formais. Não há chefe nem funcionária. Há... presença. — Minha mãe costumava dizer que eu nunca me adaptei ao ritmo da cidade. Chorava sem parar, não dormia... vivia doente. Assim que nos mudamos para o campo, eu mudei também. Passei a dormir melhor. Parei de chorar. Frederico ouve com atenção. Cada palavra minha parece confirmar algo que ele já sabia — ou suspeitava. Como se montasse uma história que ele próprio também viveu. — Você tem irmãos? — Dois. Sou a mais nova. Ele assente devagar. Não desvia os olhos de mim. Depois pergunta, com um tom que me surpreende: — E gatos? Gosta deles? A pergunta me desconcerta. Mas há algo sério em sua expressão. Ele espera minha resposta. — Eu... não tenho nada contra. Mas eles parecem me evitar. Suspiro. Acrescento, quase sem pensar: — Os cães, por outro lado, sempre se aproximam de mim. Desde criança. Como se... me reconhecessem. Um breve silêncio. Ele permanece atento. Depois, seus olhos descem devagar até meu ombro. — E essa marca? — pergunta, com cuidado. — É uma tatuagem? Instintivamente, levo a mão até o local. Um gesto antigo, de proteção. — Não. Nasceu comigo. Uma lua crescente entre asas. Ninguém na minha família tem nada parecido. Frederico se aproxima. Um passo contido. Ele não me toca. Apenas olha. Há algo nos olhos dele — uma mistura de fascínio e reverência. Como se aquela marca significasse mais do que eu mesma consigo entender. — E nas noites de lua cheia... — continuo, sem saber por que digo aquilo — ela parece ganhar brilho. Fica mais visível. Minha mãe diz que meus olhos mudam. Ficam... dourados. Ele não ri. Nenhuma ironia. Apenas escuta. Intensamente. — Ela me chamava de bruxinha — murmuro, envergonhada. — Mas era só uma forma de carinho. Acho. Frederico permanece imóvel. Os olhos presos em mim. No silêncio, ele diz mais do que qualquer palavra. — Não sei por que estou dizendo tudo isso — confesso, sentindo um calor estranho subir pelo pescoço. — Isso não é algo que costumo compartilhar. — Talvez porque não precise se proteger comigo — diz ele, a voz baixa, densa. — Quando duas almas se reconhecem, o silêncio fala mais do que as palavras. Sinto um arrepio. E pela primeira vez... entendo. Há algo entre nós. Algo antigo. Que não nasceu aqui, hoje. Que talvez nunca tenha morrido. Mas então, como se puxado de volta ao presente, ele recua. O olhar muda. Fecha-se. — Pode levar os documentos, Isabela — diz, em tom neutro. Profissional. Como se a conversa nunca tivesse acontecido. Assinto, tentando esconder o turbilhão dentro de mim. Seguro os papéis e deixo a sala. O coração ainda descompassado.
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