Festa

481 Palavras
Volto para minha mesa, mas o foco já não existe mais. Meu corpo está ali, mas minha cabeça está longe — presa no olhar de Frederico, na pergunta sobre a marca, no silêncio pesado entre nós dois. Havia algo naquela conversa que me revirou por dentro. Um pressentimento estranho. Como se algo maior estivesse prestes a acontecer. O expediente termina, mas o peso daquilo tudo me acompanha até em casa. Mamãe me encontra escolhendo uma roupa e franze o cenho. — Vai sair, Isabela? Não é muito sua cara, hein — comenta, parando na porta do meu quarto. Papai abaixa o jornal. — E pra onde vai, mocinha? Dou uma risada sem graça. — A Rita me arrastou pra uma festa. No campo. — Festa? Você? — Mamãe cruza os braços, desconfiada. — Só preciso... respirar um pouco — murmuro, evitando seus olhos enquanto ajusto a blusa no ombro. A marca aparece, vívida como sempre. E, por algum motivo, mais quente. Como se pulsasse com vida própria. Sete horas em ponto, a buzina toca. Rita chega empolgada, como sempre. — Bora, bruxinha! — grita pela janela, rindo. Dou tchau, mas noto os olhos preocupados de minha mãe me seguindo até o carro. Na estrada, a cidade vai ficando para trás, engolida pela névoa leve que cobre as árvores. — Você tá estranha hoje — comenta Rita, desviando de um buraco. — Desde aquela conversa com Frederico... — começo, mas paro no meio da frase. A sensação de estar sendo observada aperta meu peito. Olho pelo retrovisor. Nada. Chegamos à festa. As luzes no campo dançam entre as árvores, e a música ecoa ao longe. Logo encontramos Gabriel — o de sempre — já meio alto, sorriso de canto a canto. — Isa! — Ele me oferece uma bebida, o cheiro forte de cigarro e álcool me fazendo recuar um passo. — Você abraçou quem, Gabriel? Um cinzeiro? — reclamo, afastando o copo. — Você ainda é igualzinha — ele ri, fingindo ofensa. — A garota que sentia cheiro de chuva antes da nuvem aparecer. — E vocês ainda são os mesmos — retruco, pegando um suco de laranja. Mas então, o ambiente muda. Sinto antes de ver. Um perfume familiar. Um passo calmo na grama. Me viro... e lá está ele. Demian. Alto, elegante como sempre, olhos âmbar que quase nunca sorriam — mas que hoje, brilham quando me vê. — Isa — ele diz, abrindo os braços. — Como eu senti sua falta. Corro até ele, o abraço apertado. Um calor bom me invade. Sempre foi assim com Demian. Desde a infância. Ele me entende sem palavras. Mas atrás de mim, Rita e Gabriel se entreolham, como se tivessem visto um fantasma. — Você não me disse que ele viria — sussurra Rita, incomodada. — Nem sabia — respondo. Mas, no fundo, sei que ele sempre sabe quando preciso dele.
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