Aurora Um mês e meio depois, o tempo não apagou a dor, mas tornou ela mais silenciosa. Era como uma ferida que já não sangrava, mas ainda ardia toda vez que a gente lembrava do que perdeu. A vida no Complexo da Penha tinha virado rotina: acordar cedo, cuidar da Luna, trocar palavras curtas com o Treva na cozinha, receber visitas discretas, e dormir com o peito apertado. A dor ainda morava comigo. Não com a mesma fúria dos primeiros dias, mas num silêncio constante, feito sombra. Era como se o tempo não curasse nada — só fosse ensinado a gente a carregar melhor. O clima tava abafado, e o céu ameaçava chuva desde cedo. Eu já tinha trocado a Luna duas vezes, porque ela tava numa fase que não parava quieta por nada. Corria atrás da Pretinha, subia no sofá, queria abrir as gavetas do Treva.

