Este é um daqueles momentos de "Alice no país das maravilhas" que acontecem uma vez na vida. O momento que precisa aproveitar, fazer algo maluco para poder se arrepender mais tarde.
O beijo pareceu ser rápido demais, mas não tenho o que reclamar, já que estava tentando me livrar daquele nojento. Só que pareceu impossível, já que o mesmo continuava ao nosso lado.
Dei uma leve mordida no lábio inferior do bonitão e terminei o beijo com um selinho rápido, olhei para o homem de meia idade que permaneceu ao nosso lado, com uma cara de cão bravo, parecia até estar espumando pelas ventas.
— Moleque, como ousa pegar a minha mulher? — Ele me puxou e caí sobre o seu peitoral, pude sentir o seu cheiro de cigarro misturado ao seu suor azedo.
— Você mexeu com o cara errado!
Tudo muito rápido, o homem nojento foi parar no chão com um golpe certeiro na sua mandíbula. Bonitão ficou esfregando a mão, pelo visto deve ter doido até nele. As pessoas começaram a se aproximar e conversar entre si sobre o assunto do momento.
— É... Você que derrubou esse cara. E isso não é da minha conta! — digo nervosa e começo a sair de fininho da cena.
— Ei, espere! — Ele agarra minha mão e me puxa para os seus braços.
Olho em seus olhos sedutores, caramba, o que esse homem tem? Minha respiração fica ofegante e minhas mãos suam frio.
— O que você está fazendo? — Ele sorri, não consigo entender o motivo. — Foi você que bateu naquele cara!
— Quem é você?
— Que? — Dou um passo para trás soltando-me de seus braços.
— Por que eu deveria te contar? — Passo minha mão sobre o meu braço onde o nojento me apertou.
— Não banque a difícil comigo, você quem me beijou. — Olho para suas mãos, ele continua esfregando onde bateu na face do homem. — Eu deveria ao menos saber o seu nome.
— Está ouvindo esse barulho? — ele me encara confuso. — É o som das doze badaladas.
O bonitão ficou encarando com aqueles "olhos de gato" sem entender nada, como uma boa Cinderela saiu correndo — vamos ser claras, cambaleando por conta do álcool que corre em minhas veias — saiu do barzinho deixando para trás um talvez príncipe encarando. Realmente estou me sentindo uma verdadeira Cinderela, mas sem o sapatinho de cristal, não deixei nada para trás além do rastro do meu perfume.
Procuro pelo meu celular na bolsa, enquanto acesso o aplicativo do Uber entro em uma fila de outro barzinho para disfarçar e o bonitão não veio atrás de mim.
Parece até que estou fugindo de um ladrão ou eu sou a ladra, minha respiração está ofegante por correr com salto, fico olhando para os lados disfarçadamente para saber se tinha alguém atrás de mim. Não quero encontrar com o Bonitão e muito menos com aquele nojento.
Finalmente consigo um Uber e sigo para a minha casa, preciso acordar cedo para ir na confeitaria de mamãe. Ela deixou comigo as chaves, pois não iria conseguir ir cedo para lá e como tem clientes que vão buscar bolo caseiro, bolacha de leite e pão doce logo cedo, preciso estar lá às seis horas para conferir os funcionários da cozinha e abrir a porta.
Raramente preciso fazer isso para mamãe, mas ultimamente tem ocorrido isso com muita frequência e estou começando a estranhar essa mudança de rotina. Quase não a vejo à noite e agora está sendo as manhãs, apenas a tarde que a vejo na confeitaria. Papai diz que ela está atrás de fazer uma afilial, mas é estranho mamãe não falar sobre o assunto, ele não liga muito está sempre ocupado com o trabalho dele.
Minha irmã pula em cima da cama beijando meu rosto e se deita ao meu lado pegando minha mão, fica contando os meus dedos enquanto estou de olhos fechados, não quero acordar agora, infelizmente eu preciso.
— Que horas são? — minha voz sai rouca, sinto um gosto amargo da minha boca.
— Cinco e quarenta. — Laurinha responde após pegar o meu celular debaixo do meu travesseiro.
— Por que não me acordou antes? — levanto da cama em um pulo e corro em direção do banheiro.
Cheguei em casa meia noite e vinte, apenas tirei meus saltos e joguei na cama, nem olho para o reflexo do espelho devo estar parecendo uma panda. Minha cabeça está começando a doer, não deveria ter bebido sozinha, deveria ter ido embora assim que percebi que Rafaella me deu um bolo.
Não é a primeira vez que ela faz isso, mas não consigo dizer não para ela. Ela não tem uma amiga de verdade, a maioria só fica ao seu lado por causa dos status que ela tem e por ser quem ela é, sempre consegue as coisas que quer. Eu tento carregar nossa amizade, mesmo sabendo que não vai muito para frente e tenho me afundando com ela. Emily já me avisou que não vai demorar muito para Rafa me levar para o lado n***o da força só por não conseguir dizer não para as pessoas, principalmente para Rafaella.
Chego na confeitaria às seis e vinte, já tem alguns clientes na porta olhando para os celulares conferindo a hora. Fico sem graça com o meu atraso, abro a porta e vejo que as luzes já estão acesas.
A mocinha do caixa já está no local dela como balconista, sorrio para elas e peço desculpas e agradeço por elas adiantarem o que podiam. Fui para a cozinha ver como estão os outros e depois volto para frente para ajudar as meninas a liberar aquela fila que formou por culpa minha.