POV KAI
Quando Dera e eu passamos pelo portal do Vale dos Nômades, Dera não era mais um dragão, mas sim uma criança humana como Mel. A peguei no colo. Ela passou os braços ao redor do meu pescoço, me analisando confusa com seus olhos violetas. Seu cabelo era escuro como o meu. Eu ainda continua sendo um bebedor de sangue ao que parece. Mas a marca do dragão havia sumido da minha pele.
O sol ainda estava nascendo aqui nesse mundo enquanto em Tretagon ainda era noite. Dera me tomou pela mão, determinada. E se tornou minha bussola para achar Demetria.
Nós andamos pelos humanos. Tão diferentes. Mulheres com o cabelo curto como o de Demetria, o que era muito raro em Tretagon, ou usando roupas mais decotadas como as de Ratifar e trajes completamente diferente de tudo o que já vi, e homens com modelos de vestimentas também distintos. Eu caminhei por esse mundo humano, ouvindo vários sons que eu não saberia dizer o que eram nem se eu quisesse. As carruagens de quatro rodas, os sons estridentes, o cheiro de comida, de gases desconhecidos e várias pessoas se aglomerando no que parecia ser estradas feitas de concreto. Eu caminhei pelas ruas sem lugar onde ficar. E com a criança no meu colo que era quem apontava para onde eu deveria ir.
Ela conseguia localizar Demetria. E eu amei ainda mais Dera por isso. Eu não sei por quanto tempo andamos, nem porque as mulheres olhavam tanto para mim e para minha filha. Eu caminhava pensando em várias coisas. Então chegamos ao grandioso castelo que era uma construção diferente de tudo o que eu já vi em Tretagon, mas igual aos desse mundo, erguendo-se na horizontal poderosamente. E eu a vi.
Ela estava conversando com ele, na língua que eu desconhecia, com o homem de cabelo azul alto e que eu sentia que vibrava escuridão. Mas foi Dera quem fez menção de descer dos meus braços. Foi ela que correu até Demetria, e quando Demetria a viu a pegou no colo e a deu inúmeros beijos, a reconhecendo mesmo sem a forma de dragão. Assisti Dera nos braços da mãe de coração dela. E então Demetria me viu. E as lágrimas desceram dos olhos dela. O homem de cabelo azul virou-se para mim homicida. Mas eu ignorei a ameaça velada de seus olhos vermelhos como os de Serper e fui até minha amada.
— Kai. Como me achou? — Ela disse no idioma de Fenit.
Eu li no seus olhos a saudação de sua alma. Apesar dela não ousar me beijar, ela apenas tocou o meu rosto como eu lembro que fazia em suas lembranças quando não sabia sobre minha natureza dualista de desejar todos, mas me manter afastado de mulheres.
— Dera está vinculada a você. Antes não conseguíamos te sentir. Mas ela disse que você estava nesse mundo, além do portal. E eu e ela viemos atrás de você. — Contei como se nada fosse.
— E você veio? Mesmo sem saber como falar esse idioma? Sem conhecer nada desse mundo? Você veio por mim? Vocês dois vieram? — Ela perguntou dócil, a voz embargando, os olhos se enchendo das malditas lágrimas que eu odiava ver no seu rosto lindo. E eu vi que se conteve para não me abraçar como fazia com Dera.
Então ela olhou para a intimidante figura dele, sondou-o trêmula, agarrando mais Dera como se para protegê-la. Ela o temia, e eu sentia a vibração obscura dele, eu sentia o poder que nem Serper tinha e que era um vendaval contra meus sentidos. Eu podia sentir a vibração da própria Terra tentando abrigar tamanha energia sinistra. E Demetria me mandava ficar longe dela em seus pensamentos. Implorou quase. Ela me olhava aterrorizada e abraçava Dera com sua vida.
— Não os machuque. Eu sei que temos um acordo, mas ... mas eles estão aqui por mim. Por favor, Aldahain... Eu senti tanta falta deles. — Ela confessou baixinho. — Eu não quebrei nosso acordo em nenhum momento. E eles só vieram atrás de mim porque sentiram minha falta. Não os machuque.
Ele suspirou a olhando, ele tocou o rosto dela, eu sentia a raiva, então selou os lábios nos dela, e quando se afastou o pressentimento homicida que senti se desfez. Senti como ela mexia com ele dessa forma, ele odiava vê-la com medo dele. Então ele deixou o olhar parar em Dera e então parar em mim.
— Certo. Eles podem ficar conosco. — Ouvi a voz dele ecoar também no idioma de Fenit. — Mas você fica aqui e não vai com eles. E Kai não pode te tocar como eu te toco até o fim do nosso pacto, Demi.
— Certo. — Ela concordou ainda num fio de voz.
Ela era corajosa. Então se ela o temia, aposto que era com razão. Ela não podia lutar contra ele, mesmo com sua luz grandiosa. A escuridão dele a tragava e a consumia. Ela estava dominada por ele.
— Sim, você pode abraçá-lo. — Ele falou lendo na alma dela a necessidade de vir até mim.
E então ela veio. E me abraçou, beijou meu rosto, meus cílios, meus olhos, minha bochecha e tudo mais... Menos a boca.
— Eu vou escolher um quarto para vocês. — Acalentou-nos. Dera ainda no colo dela como sua filha amada. — Quer ficar nesse mundo, meu Kai?
— Quero ficar onde você estiver. — Falei me acalmando um pouco da ameaça que eu senti. — Tretagon está segura. Era ele a nova ameaça que trouxe sangue a água e transformou o dia em noite? — A questionei. — Fez um pacto com ele como fez com Serper?
Ela assentiu.
— Foi meu pacto com Serper que libertou ele. — Ela comentou comigo seu erro, e eu vi o arrependimento dela e sua mente se encheu de desculpas. — A culpa é minha da ameaça que pairou em Tretagon. — Explicou. Ajeitou minha jaqueta. Beijou minha bochecha. Então beijou o cabelo de Dera.
Estudei a marca no pescoço dela. A mordida inchada, ela estava febril constatei quando deixei meus lábios irem a testa dela, atendendo seu pedido de não tocá-la mais que o necessário. Meus dedos passaram na mordida desumana. E eu vi que ele sorriu sadicamente para mim. E me analisou.
Eu deixei meus olhos pairarem nele. Em sua figura bonita e intimidante. E eu senti tanta raiva que ele tivesse feito isso com ela. Não era ciúme, era raiva. Ele a machucou de graça, ele não a curou com seu sangue ou com sua saliva. Demetria poderia ter quem quisesse como amante, porque eu sabia que eu tinha um novo lugar no coração dela e esse lugar era só meu. Já ele estava a usando para satisfazer seus caprichos assim como Iker, outro maldito que só queria o trono dela e a luz que ela tinha e não a amava realmente pelo que ela era.
—meu amor... Isso devo estar doendo. — Eu falei para ele se dar conta da monstruosidade que era deixar a marca da mordida aberta. — Deixa eu curar para você. — Eu pedi apenas para atiçá-lo. Eu sabia que a mordida só podia ser curada por aquele que a fez.
— Era para ter curado, mas... — Ela tentou explicar.
Ele veio até ela. Então tomou ela em seus braços, tomando cuidado com Dera e lambeu a mordida, a curando. O alívio na expressão de Demetria me deixou mais tranquilo.