A travessia

1253 Palavras
POV KAI   Quando Dera e eu passamos pelo portal do Vale dos Nômades, Dera não era mais um dragão, mas sim uma criança humana como Mel. A peguei no colo. Ela passou os braços ao redor do meu pescoço, me analisando confusa com seus olhos violetas. Seu cabelo era escuro como o meu. Eu ainda continua sendo um bebedor de sangue ao que parece. Mas a marca do dragão havia sumido da minha pele. O sol ainda estava nascendo aqui nesse mundo enquanto em Tretagon ainda era noite. Dera me tomou pela mão, determinada. E se tornou minha bussola para achar Demetria. Nós andamos pelos humanos. Tão diferentes. Mulheres com o cabelo curto como o de Demetria, o que era muito raro em Tretagon, ou usando roupas mais decotadas como as de Ratifar e trajes completamente diferente de tudo o que já vi, e homens com modelos de vestimentas também distintos. Eu caminhei por esse mundo humano, ouvindo vários sons que eu não saberia dizer o que eram nem se eu quisesse. As carruagens de quatro rodas, os sons estridentes, o cheiro de comida, de gases desconhecidos e várias pessoas se aglomerando no que parecia ser estradas feitas de concreto.  Eu caminhei pelas ruas sem lugar onde ficar. E com a criança no meu colo que era quem apontava para onde eu deveria ir. Ela conseguia localizar Demetria. E eu amei ainda mais Dera por isso. Eu não sei por quanto tempo andamos, nem porque as mulheres olhavam tanto para mim e para minha filha. Eu caminhava pensando em várias coisas. Então chegamos ao grandioso castelo que era uma construção diferente de tudo o que eu já vi em Tretagon, mas igual aos desse mundo, erguendo-se na horizontal poderosamente. E eu a vi. Ela estava conversando com ele, na língua que eu desconhecia, com o homem de cabelo azul alto e que eu sentia que vibrava escuridão. Mas foi Dera quem fez menção de descer dos meus braços. Foi ela que correu até Demetria, e quando Demetria a viu a pegou no colo e a deu inúmeros beijos, a reconhecendo mesmo sem a forma de dragão. Assisti Dera nos braços da mãe de coração dela.  E então Demetria me viu. E as lágrimas desceram dos olhos dela. O homem de cabelo azul virou-se para mim homicida. Mas eu ignorei a ameaça velada de seus olhos vermelhos como os de Serper e fui até minha amada. — Kai. Como me achou? — Ela disse no idioma de Fenit. Eu li no seus olhos a saudação de sua alma. Apesar dela não ousar me beijar, ela apenas tocou o meu rosto como eu lembro que fazia em suas lembranças quando não sabia sobre minha natureza dualista de desejar todos, mas me manter afastado de mulheres. — Dera está vinculada a você. Antes não conseguíamos te sentir. Mas ela disse que você estava nesse mundo, além do portal. E eu e ela viemos atrás de você. — Contei como se nada fosse. — E você veio? Mesmo sem saber como falar esse idioma? Sem conhecer nada desse mundo? Você veio por mim? Vocês dois vieram?  — Ela perguntou dócil, a voz embargando, os olhos se enchendo das malditas lágrimas que eu odiava ver no seu rosto lindo. E eu vi que se conteve para não me abraçar como fazia com Dera. Então ela olhou para a intimidante figura dele, sondou-o trêmula, agarrando mais Dera como se para protegê-la. Ela o temia, e eu sentia a vibração obscura dele, eu sentia o poder que nem Serper tinha e que era um vendaval contra meus sentidos. Eu podia sentir a vibração da própria Terra tentando abrigar tamanha energia sinistra. E Demetria me mandava ficar longe dela em seus pensamentos. Implorou quase. Ela me olhava aterrorizada e abraçava Dera com sua vida. — Não os machuque. Eu sei que temos um acordo, mas ... mas eles estão aqui por mim. Por favor, Aldahain... Eu senti tanta falta deles. — Ela confessou baixinho. — Eu não quebrei nosso acordo em nenhum momento. E eles só vieram atrás de mim porque sentiram minha falta. Não os machuque. Ele suspirou a olhando, ele tocou o rosto dela, eu sentia a raiva, então selou os lábios nos dela, e quando se afastou o pressentimento homicida que senti se desfez.  Senti como ela mexia com ele dessa forma, ele odiava vê-la com medo dele. Então ele deixou o olhar parar em Dera e então parar em mim. — Certo. Eles podem ficar conosco. — Ouvi a voz dele ecoar também no idioma de Fenit. — Mas você fica aqui e não vai com eles. E Kai não pode te tocar como eu te toco até o fim do nosso pacto, Demi. — Certo. — Ela concordou ainda num fio de voz. Ela era corajosa. Então se ela o temia, aposto que era com razão. Ela não podia lutar contra ele, mesmo com sua luz grandiosa. A escuridão dele a tragava e a consumia. Ela estava dominada por ele. — Sim, você pode abraçá-lo. — Ele falou lendo na alma dela a necessidade de vir até mim. E então ela veio. E me abraçou, beijou meu rosto, meus cílios, meus olhos, minha bochecha e tudo mais... Menos a boca. — Eu vou escolher um quarto para vocês. — Acalentou-nos. Dera ainda no colo dela como sua filha amada. — Quer ficar nesse mundo, meu Kai? — Quero ficar onde você estiver. — Falei me acalmando um pouco da ameaça que eu senti. —  Tretagon está segura. Era ele a nova ameaça que trouxe sangue a água e transformou o dia em noite? — A questionei. — Fez um pacto com ele como fez com Serper? Ela assentiu. — Foi meu pacto com Serper que libertou ele. — Ela comentou comigo seu erro, e eu vi o arrependimento dela e sua mente se encheu de desculpas. — A culpa é minha da ameaça que pairou em Tretagon.  — Explicou. Ajeitou minha jaqueta. Beijou minha bochecha. Então beijou o cabelo de Dera. Estudei a marca no pescoço dela. A mordida inchada, ela estava febril constatei quando deixei meus lábios irem a testa dela, atendendo seu pedido de não tocá-la mais que o necessário.  Meus dedos passaram na mordida desumana. E eu vi que ele sorriu sadicamente para mim. E me analisou. Eu deixei meus olhos pairarem nele. Em sua figura bonita e intimidante. E eu senti tanta raiva que ele tivesse feito isso com ela. Não era ciúme, era raiva. Ele a machucou de graça, ele não a curou com seu sangue ou com sua saliva.  Demetria poderia ter quem quisesse como amante, porque eu sabia que eu tinha um novo lugar no coração dela e esse lugar era só meu. Já ele estava a usando para satisfazer seus caprichos assim como Iker, outro maldito que só queria o trono dela e a luz que ela tinha e não a amava realmente pelo que ela era. —meu amor... Isso devo estar doendo. — Eu falei para ele se dar conta da monstruosidade que era deixar a marca da mordida aberta. — Deixa eu curar para você. — Eu pedi apenas para atiçá-lo. Eu sabia que a mordida só podia ser curada por aquele que a fez. — Era para ter curado, mas... — Ela tentou explicar. Ele veio até ela. Então tomou ela em seus braços, tomando cuidado com Dera e lambeu a mordida, a curando. O alívio  na expressão de Demetria me deixou mais tranquilo. 
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR