Território Marcado
Mesmo após a partida de William, Katherine permaneceu paralisada por alguns minutos, o silêncio da casa preenchido apenas pelo eco das batidas de seu próprio coração. Ela realmente fizera aquilo?
Caminhou até o espelho do hall e encarou seu reflexo. As bochechas ainda estavam coradas e os lábios, levemente inchados. Deu um tapa leve na própria face, como se quisesse despertar. — É... não foi um sonho — sussurrou, e um sorriso involuntário surgiu.
Ainda impactada, Katherine subiu para o quarto. Tomou um banho morno, deixando a água levar o cansaço, mas não o cheiro amadeirado que parecia ter impregnado sua pele. Trocou de roupa rapidamente; seu plantão começaria em breve e ela não podia se dar ao luxo de chegar atrasada. Perder o foco no trabalho não estava em seus planos, especialmente agora.
No hospital, entrou em passos largos e refugiou-se em sua sala. Por um breve instante, recostou-se na cadeira, fechando os olhos e deixando-se levar pelo devaneio dos braços fortes de William. Mas a realidade bateu à porta — literalmente.
— Posso entrar? — Tarcísio, o diretor-chefe do hospital, perguntou enquanto já cruzava a soleira.
— É, vejo que já entrou — Katherine disparou, a resposta saindo antes que pudesse filtrar. Logo, recompôs-se. — Desculpe, Tarcísio. Não quis ser hostil, meus últimos dias foram... turbulentos.
Tarcísio não se importou com a rispidez. Na verdade, ele estava mais interessado nos boatos que sopravam pelos corredores. O diretor era um homem influente, vindo de uma linhagem de médicos renomados, o que o alçara ao cargo de chefia ainda jovem. Ele sempre nutriu um interesse silencioso por Katherine, mas ela sempre manteve uma barreira ética e profissional intransponível. Até agora.
— Você está bem? Posso ajudar em algo? — Ele sentou-se à frente dela, esbanjando cordialidade.
— Nada que o senhor possa fazer, mas obrigada por perguntar.
Tarcísio, percebendo a esquiva, decidiu ser direto: — As pessoas falam muito, Katherine. Os boatos dizem que você está se separando. É verdade?
Katherine sorriu. Mas o sorriso não era para Tarcísio. Em sua mente, ela visualizava o lugar sombrio e magnético onde estivera horas antes; lembrava-se dos lábios irresistíveis e da pegada avassaladora de William. E que pegada, pensou, o sorriso tornando-se mais largo.
Tarcísio, interpretando m*l o gesto, sentiu uma lufada de esperança. Se ela estava sorrindo ao falar de separação, talvez o caminho estivesse livre para ele.
O Predador à Espreita
Enquanto isso, a quilômetros dali, William não perdia tempo. Dentro de seu carro, ele analisava o e-mail que acabara de receber: a ficha completa de Katherine.
Ele ignorou os dados básicos e focou no que importava. Descobriu que ela era a garota prodígio da faculdade, uma médica exemplar que nunca usara a fortuna da família para facilitar o caminho. Ela não era interesseira, nem mimada. Isso o agradava profundamente.
Mas o que fez seu sangue ferver foram as informações em negrito: o divórcio já estava encaminhado e, no hospital, ela era o alvo das atenções de Tarcísio, um chefe que estava "investindo pesado".
— Maldito seja! — William rugiu, golpeando o volante e freando o carro bruscamente no meio da avenida.
Ele mudou a rota imediatamente. Deu ordens curtas pelo rádio para que seus homens cuidassem de Pierre e acelerou em direção ao Hospital Geral. Ninguém tocaria no que ele já havia decidido que era seu.
A "Emergência"
No escritório, Tarcísio estava prestes a formular o convite para um jantar, buscando as palavras certas para não soar desesperado, quando uma enfermeira invadiu a sala.
— Uma emergência, doutora! — Mia exclamou, ofegante.
Tarcísio lançou um olhar matador à enfermeira, mas ela continuou: — Desculpe interromper, doutor Tarcísio, mas o paciente insistiu que apenas a doutora Katherine poderia atendê-lo.
— Como assim, Mia? — Katherine franziu o cenho. Ela não tinha pacientes fixos; a emergência era rotativa.
— Ele disse que a senhora é "ousada na medida certa". Que suas mãos são santas, que tem o dom da cura e que ninguém tocaria nele, a não ser você — Mia relatou, segurando um sorriso diante da audácia do homem.
Katherine sentiu o sangue fugir do rosto. Levantou-se mecanicamente. A palavra "ousada" ecoava em sua mente como um sino. Só havia um homem na cidade abusado o suficiente para entrar em um hospital e exigir ser atendido com aquelas palavras.
William.