A vida do meu tio já era uma batalha diária, muito antes de qualquer tragédia maior acontecer. Na escola, a pobreza era motivo de deboche; ele sofria bullying constante e apanhava de meninos maiores, sendo judiado por quem deveria ser seu colega. No meio dessa solidão, ele acreditou ter encontrado um amigo, alguém apenas um ano mais novo, mas que carregava uma maldade que meu tio, na sua inocência, não conseguia enxergar. Esse 'amigo' vivia no mundo do crime, roubando e fazendo escolhas erradas, enquanto meu tio permanecia no escuro, sem saber de nada.
A conta, porém, chegou para quem era inocente. As culpas e os erros do amigo recaíram sobre o meu tio. Ele se viu acusado de crimes que nunca cometeu e, ao descobrir a traição, foi buscar satisfação. Foi nesse momento que o pesadelo se tornou real: o falso amigo o ameaçou, dizendo que mataria a nossa família — minha mãe, meu irmão e eu — bem na frente dele. O medo de nos perder falou mais alto do que qualquer outra coisa.
Para nos defender, para garantir que aquelas ameaças não se cumprissem, meu tio acabou tirando a vida daquele que o traiu. Ali, naquele instante de desespero e proteção, a vida dele mudou para sempre. O adolescente amoroso, que me carregava no pescoço e brincava comigo, foi obrigado a carregar o peso de um ato extremo. Ele nos salvou de uma sombra, mas acabou mergulhando em uma escuridão própria, marcada pela justiça que falhou e pelo destino que não teve piedade da sua juventude."