A vida no sítio era um labirinto de aparências. Por um lado, os pais do meu padrasto nos acolhiam com um carinho que parecia sincero; eles nos tratavam como se fôssemos da própria família. Lembro-me das manhãs em que tudo parecia em paz, e eu e meu irmão corríamos pelo quintal, brincando na nossa inocência debaixo dos cachos de uva que pendiam do teto verde da parreira. Naqueles momentos, éramos apenas duas crianças vivendo o brilho da infância.
Eles eram pessoas de muita fé, ou pelo menos era o que demonstravam. Estavam em todos os cultos da igreja 'Deus é Amor' e faziam questão de nos levar junto. Mas, por trás daquela postura religiosa e dos hinos, a vida daquela mulher era uma farsa que nós, crianças, éramos obrigados a sustentar. Ela vivia uma vida dupla: passava uns dias no sítio com o marido atual e outros dias em outro bairro com o marido anterior, o pai do meu padrasto.
Era confuso e pesado para as nossas mentes infantis entender por que tínhamos que esconder aquilo. O marido dela no sítio não desconfiava de nada, e nós carregávamos o fardo de um segredo que não era nosso. Aprendi cedo que o sagrado e o profano muitas vezes dormem sob o mesmo teto. Enquanto eu tentava ser apenas uma menina que brincava no quintal, meu peito já guardava as mentiras dos adultos, e eu começava a perceber que, naquele mundo, nem tudo o que parecia ser luz era verdadeiramente iluminado."