Capítulo 14 — O Ciclo do Medo e o Peso do Silêncio

259 Palavras
"É preciso entender que o ambiente naquele sítio era capaz de distorcer até o comportamento de quem ainda era jovem. Havia uma diferença gritante entre o amor que eu recebia do meu tio de sangue — o irmão da minha mãe que tanto sofreu — e o tratamento que recebíamos do irmão do meu padrasto, que também era adolescente na época. Enquanto o meu tio materno era o meu refúgio, esse outro jovem, irmão do homem que agora mandava na nossa casa, era mais uma peça no tabuleiro de medos que nos cercava. Hoje, olhando com mais maturidade, percebo que ele não fazia aquilo por maldade pura, mas por medo. Ele via a vida dupla da própria mãe e a rigidez do irmão mais velho, o meu padrasto. Para escapar das surras e do julgamento, ele acabava usando meu irmãozinho como escudo, entregando o cigarro de palha na mão de uma criança para se livrar da culpa. Era um ciclo triste: ele se protegia sacrificando a inocência do meu irmão, que acabava apanhando injustamente. Aquele sítio era uma casa onde a verdade não tinha espaço. Todos viviam sob o peso de segredos e sob o comando de um homem que ridicava até uma fruta ou um copo de água. Entre o terror espiritual do homem de capa preta que tentava me levar e a realidade dura de ver meu irmão sofrer por mentiras de terceiros, a nossa infância ia sendo moldada pelo silêncio. Aprendemos cedo que, naquela família emprestada, a sobrevivência muitas vezes vinha acompanhada de uma profunda injustiça."
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR