Capítulo 15 — Pequenas Doçuras em Meio à Luta

294 Palavras
Nem tudo no sítio era feito de sombras. A vida tinha seus momentos de cor, como quando o irmão do meu padrasto deixava o medo de lado e brincava conosco. Foi ele quem nos ensinou a andar de bicicleta, um daqueles marcos da infância que trazem uma sensação de liberdade, mesmo que passageira. Ele não era totalmente mau; era apenas mais um jovem tentando encontrar seu lugar em uma casa cheia de segredos e regras rígidas. A maior alegria, porém, veio com o nascimento da minha irmãzinha. Ela chegou como um raio de sol, trazendo uma felicidade que parecia ter se perdido entre os cafezais. Todos se encantaram por ela, e por um momento, as tensões da casa pareciam diminuir diante daquela nova vida. Lembro-me de uma vez que fiquei muito doente. No meu delírio de febre, me deu uma vontade imensa de comer bombom e marmelada. Pode parecer algo simples, mas naquele contexto, era um desejo difícil de realizar. Foi então que um dos irmãos mais velhos da minha mãe apareceu. Ele atravessou caminhos para trazer exatamente o que eu queria. Nunca vou esquecer o gosto daquele bombom e o alívio que senti. Esse meu tio amava a mim e ao meu irmão de forma igual e pura, sem distinções, e aquele gesto foi uma prova de que, apesar de estarmos longe de parte da nossa família, o sangue e o amor ainda nos alcançavam. Com o tempo, deixamos aquele primeiro sítio para trás. Mudamos para um novo lugar, levando conosco a minha mãe, meu padrasto, meus irmãos e as cicatrizes que já começavam a se formar. Estávamos indo para um novo capítulo, sem saber se o novo sítio seria um refúgio ou apenas mais uma etapa da nossa longa jornada de sobrevivência."
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