"O novo sítio para onde nos mudamos era um lugar de descobertas e mistérios. Tinha um pomar enorme, carregado de frutas de todos os tipos, e pastos vastos onde os bois pastavam. Ali, ganhei um amigo especial: o Trovão. Ele era um boizinho que tinha perdido a mãe no parto, e nós cuidávamos dele com todo amor, dando leite na garrafa pet — era a coisa mais linda. A natureza ao redor era viva; havia árvores imensas e outras plantas que pareciam canas grossas, criando um cenário onde as lendas ganhavam força; diziam até que o Saci-Pererê morava por ali.
Infelizmente, a alegria de ter o nosso pequeno Trovão não durou para sempre. Com o tempo, ele acabou morrendo, e foi uma das tristezas mais profundas que vivemos naquele lugar. Perder aquele boizinho foi como perder um pedaço da nossa própria doçura, uma das poucas coisas que nos faziam sorrir de verdade.
Minha vida fora de casa ganhava novas cores. Eu frequentava o pré-escolar e um ônibus passava para me buscar na entrada do sítio. Eu aprendia coisas novas e fiz amizade com vizinhos muito legais, que fizeram uma piscina diferente: um buraco enorme na terra forrado com lona. Era a nossa diversão. Mas, ao cruzar a porta de casa, a leveza sumia.
A pressão era grande. Eu ainda não sabia ler, mas sentia que precisava aprender depressa por medo de apanhar se falhasse. O ambiente era tenso. Em um dia, enquanto minha irmãzinha de um ano dormia no chão da sala e meu irmão brincava, o perigo passou silencioso: uma cobra vermelha deslizou ao lado dela e sumiu para dentro do nosso quarto. Naquele momento, o luto pelo Trovão e o medo da serpente se misturaram, mostrando que a vida no sítio era um equilíbrio constante entre o carinho e o perigo."