"O sítio tinha duas faces. Durante o dia, era o paraíso do pomar e do Trovão, mas à noite, o silêncio do mato ganhava sons inquietantes. Escutávamos barulhos estranhos: pedrinhas batendo na janela, vindas do nada. Uma vez, uma dessas pedras caiu direto dentro da panela de arroz. Na nossa inocência de criança, tínhamos certeza de que o Saci-Pererê estava pregando peças. Eu, movida por uma coragem que nem sabia que tinha, levantava pé por pé enquanto todos dormiam, pegava aquelas pedrinhas e as jogava de volta para a escuridão, devolvendo o 'brinquedo' ao invisível.
Mas o mistério não vinha apenas das lendas do sítio; ele também nos seguia na cidade. Perto do fim de ano, minha família foi ao centro e comprou muitas coisas: roupas novas para todos nós e mantimentos para as festas. Foi lá que uma cigana parou minha mãe, insistindo para ler sua sorte. Minha mãe recusou, e a mulher, em resposta, lançou uma ameaça sombria que nos deixou arrepiados.
O presságio não demorou a se cumprir. Saímos naquele fim de semana e, ao retornarmos, o choque: a casa estava vazia. Tudo o que havia sido comprado com tanto esforço tinha sido roubado. Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada. Ficamos apenas com o vazio e a lembrança das palavras daquela mulher. Parecia que, por mais que tentássemos construir um momento de felicidade e fartura, algo — fosse humano ou sobrenatural — sempre dava um jeito de nos tirar o que tínhamos."