"Não ficamos muito tempo no sítio do seu luiz; logo nos mudamos para o sítio da dona Lúcia. Aquele lugar era cheio de vida, com muitas ovelhas e cavalos pastando. Na casa de cima, morava um casal de velhinhos muito bondosos que nos tratavam com um carinho imenso. Minha irmãzinha, que já estava começando a falar, achava graça na forma como a senhorinha chamava o marido e passou a chamá-lo de 'Bem' também. Era um alento ter pessoas assim por perto.
Nessa época, minha rotina mudou. Por causa da escola, eu passava a semana morando com a minha avó materna e só voltava para o sítio nos fins de semana para ficar com minha mãe. Enquanto eu estava fora, meu padrasto levou um garoto para morar lá e ajudar no trabalho pesado. Mas as notícias que vinham da família dele eram pesadas. O irmão mais novo do meu padrasto — aquele que brincava conosco e nos ensinou a andar de bicicleta — acabou se envolvendo com coisas erradas.
O fim dele foi trágico. Em uma tentativa de assalto a um pesqueiro, ele foi baleado e morto pelo guarda do local. O amigo que estava com ele fugiu, deixando-o caído e sozinho para trás. Foi um choque receber essa notícia. Aquele jovem, que apesar de suas falhas e do medo que sentia em casa, tinha momentos de bondade, acabou sendo engolido pela mesma violência que parecia perseguir todos ao nosso redor. O ciclo de perdas parecia não ter fim."