Capítulo 18 — O Poço Sem Fundo e o Resgate da Inocência

271 Palavras
O sítio da dona Lúcia guardava belezas, mas também perigos escondidos. Perto de onde morávamos, corria um rio bom para pesca, mas que abrigava um poço enorme e assustador. As lendas diziam que aquele poço não tinha fundo, e todos nós tínhamos um respeito temeroso por aquelas águas escuras. Em um final de semana, enquanto o rapaz que ajudava meu padrasto pescava, estávamos todos por perto. Minha irmãzinha, na sua travessura de criança, caminhava toda desajeitada calçando as botas grandes do pai dela. Em um piscar de olhos, o que era brincadeira virou desespero. Meu irmão, que estava ao lado dela, tentou gritar, mas a voz travou na garganta e não saiu nada. Só vimos o vulto da nossa pequena caindo direto na profundeza daquele poço. Sem hesitar, o garoto que morava conosco pulou naquelas águas perigosas. Foi uma luta difícil, mas, com muito esforço, ele conseguiu trazê-la de volta à superfície. Ele salvou a vida dela naquele dia e, a partir dali, passou a ser considerado da nossa família. Porém, o destino é incerto, e pouco tempo depois ele seguiu seu caminho e foi embora. Apesar desse susto que poderia ter mudado tudo, meu padrasto permanecia o mesmo, imutável em sua dureza. A opressão continuava: tínhamos que visitar nossos avós paternos escondidos, como se amar nossa família de sangue fosse um crime. Era uma vida de segredos e silêncios forçados; meu irmão não podia sequer ter uma foto do nosso pai. Vivíamos em uma casa onde o passado era proibido e o presente era vigiado, tentando manter viva a memória de quem fomos enquanto enfrentávamos a rigidez de quem mandava."
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