Capítulo 19 — O Refúgio e a Dor da Minha Avó

279 Palavras
Aos sete anos, minha vida se dividia em duas realidades. De segunda a sexta, meu mundo era a casa da minha avó materna, onde eu morava para poder frequentar o primeiro ano da escola. Aos sábados e domingos, eu voltava para o sítio com minha mãe e meus irmãos — meu irmão com cinco anos e a pequena com apenas dois. Embora amasse minha mãe, eu sempre preferia o aconchego da casa da minha avó. Lá, eu dormia no quarto da minha tia, que sendo apenas dois anos mais velha que eu, era minha grande companheira. Tínhamos o hábito de esperar meu avô chegar do trabalho; ele enfrentava uma rotina exaustiva no Terminal Central, das meio-dia à meia-noite, e nós ficávamos ali, contando as horas para vê-lo entrar pela porta. Porém, aquele refúgio também era cercado por uma dor profunda. Meu tio mais novo, aquele que sempre foi tão amoroso conosco, acabou preso. A justiça, que já havia falhado antes, falhou novamente: ele levou a culpa por roubos que seus amigos cometeram, e o peso caiu todo sobre seus ombros. Como se a ausência dele não bastasse, minha avó precisava lidar com o veneno das ruas. A mãe do rapaz que meu tio havia matado para nos defender passava diante da nossa casa todos os dias. Ela gritava ofensas, chamando minha avó de 'mãe de assassino' e outras coisas terríveis. Eu via minha avó sofrer em silêncio com aquelas palavras. Ela sabia, melhor do que ninguém, que o filho que as pessoas julgavam era, na verdade, um homem de coração de ouro que tinha sacrificado a própria liberdade para garantir que nada de m*l acontecesse com a nossa família."
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