As noites na casa da minha avó tinham um sabor especial: o sabor das balas de goma que meu avô trazia. Mesmo cansado, chegando do Terminal Central quase uma hora da manhã, ele nunca esquecia de nós. Eu e minha tia ficávamos acordadas, ansiosas pelo barulho da porta e pelo pacotinho colorido que ele entregava para cada uma. Minha avó, com seu coração gigante, nunca fazia distinção; tudo o que comprava para a filha, comprava para a neta também. Ela me levava para a escola, para o coral, e estava sempre lá, cuidando de cada detalhe da minha vida com uma alegria contagiante.
Nossas noites eram povoadas por fogueiras no quintal, piadas e músicas engraçadas que minha vó ensinava. Naqueles momentos, o riso espantava o medo. Mas a saudade do meu tio era uma sombra constante. Para manter o laço vivo, escrevíamos cartas para ele na prisão, enviando nosso amor através do papel, tentando dar forças para que ele aguentasse a injustiça que vivia.
No entanto, o tempo de paz na casa da minha avó teve que mudar. Minha mãe, meu padrasto e meus irmãos deixaram o sítio definitivamente. Eles não conseguiram uma casa tão perto da minha avó materna, e a logística de morar separada já não fazia mais sentido para os adultos. Com o coração apertado, tive que deixar o quarto da minha tia e os mimos da minha avó para voltar a morar sob o mesmo teto que meu padrasto. O refúgio das noites de fogueira agora dava lugar à incerteza de uma nova rotina, longe do colo protetor que me ensinou a cantar."