"No começo, parecia que tínhamos encontrado o lar que tanto buscávamos. Acolhemos aquela nova família com todo o nosso coração: os vizinhos viraram 'vô' e 'vó', os irmãos dele viraram 'tios' e o filho deles, o novo marido da minha mãe, passou a ser chamado de 'pai'. Mas a perfeição era apenas uma fachada que logo começou a desmoronar. A realidade que nos esperava era muito mais amarga do que podíamos imaginar.
Mudamos para um sítio, um lugar que deveria ser de liberdade, mas que se tornou o cenário do nosso isolamento. O homem que eu chamava de pai revelou uma face controladora e c***l. Ele começou a cortar os laços que mais nos davam força. Fomos impedidos de ver a nossa avó, a mãe do meu pai que havia morrido. Aquele amor que ela nos dava e as visitas à igreja foram proibidos; ele não deixava nem que falássemos com aquela parte da nossa família.
E a crueldade não parava por aí. Meu tio, aquele que era um adolescente amoroso e que sempre brincava comigo, também foi alvo dessa perseguição. Ele não tinha permissão para nos visitar. Lembro-me da dor de ver esse novo 'pai' negar coisas simples: ele ridicava até uma manga do pé e negava um copo de água para o meu tio. Era uma injustiça terrível com alguém tão jovem e que só queria estar perto de nós. O sítio, que parecia um refúgio, estava se transformando em uma gaiola onde o afeto era vigiado e a nossa liberdade era roubada dia após dia."