A vida da minha avó foi outra jornada de pura resistência. Ela veio para a cidade grande com o coração cheio de esperança, mas o que encontrou foi um cenário de deserto: apenas barrancos, mato e o nada. Ao lado do meu avô, ela construiu tudo do zero. Ergueram uma casinha de madeira com as próprias mãos e cavaram a fossa, lutando contra a falta de estrutura daquela época. Não era apenas uma casa, era o símbolo de uma luta diária para ter onde deitar a cabeça.
Mas as raízes da minha avó também eram profundas no mistério. A mãe dela, lá na cidade pequena, lidava com coisas de 'mesa branca', algo muito comum naquelas regiões. E o aviso da sua partida veio de um jeito que ninguém consegue explicar racionalmente. Minha bisavó estava em um ônibus a caminho de São Paulo quando faleceu, e no exato momento, o aviso chegou na nossa casinha de madeira.
Minha avó conta que, na cozinha — que também servia de sala —, havia uma foto da mãe dela e uma peneira grande de roça pendurada. De repente, a peneira caiu, parou em pé no braço do sofá e veio rodando, atravessando o corredor até o pé da cama da minha avó. Quando o objeto caiu ali, sem ninguém tocar, minha avó sentiu no fundo da alma: a mãe dela tinha partido.
A paz, porém, não reinava naquelas noites. Meu avô vivia um tormento; ele dizia que o espírito da sogra o visitava todas as noites. Assim que ele fechava os olhos para descansar da labuta, sentia que estava sendo sufocado, como se mãos invisíveis o enforcassem. Eram tempos difíceis, onde o cansaço do trabalho pesado se misturava com o medo do que vinha do escuro. Eu cresci ouvindo essas histórias, entendendo que as paredes da nossa casa guardavam segredos que iam muito além dessa vida."