Capítulo 8 — A Armadilha e o Roubo da Minha Voz

329 Palavras
"Eu tinha acabado de completar quatro anos, e meu irmãozinho, o meu pequeno companheiro de vida, estava com dois. Lembro que era a época do meu aniversário, um tempo que deveria ser de festa, mas o destino reservou o início de um pesadelo. Meu pai era uma figura de contrastes. Para mim e para o meu irmão, ele era a doçura em pessoa, o pai carinhoso que nos carregava e nos protegia. Mas, fora do nosso mundo infantil, ele era um homem difícil. Com a minha mãe e com os vizinhos, ele mostrava uma face mais dura, muitas vezes agressiva, o que criava um muro de tensões ao redor da nossa casa. Essa complexidade dele talvez tenha sido o que o levou ao fim. Em um ponto de ônibus, ele viu um casal brigando e, no impulso de intervir, tentou separar a briga. O que ele não sabia é que aquilo era uma armadilha armada para ele. Atrás da porta, um rapaz o esperava. Sem aviso, o golpe de faca veio direto no pescoço. Ele morreu ali mesmo, vítima de um conflito que não era seu, mas que o marcou para sempre. Em casa, o luto veio acompanhado de um caos de acusações. Minha tia, irmã dele, despejava um ódio terrível sobre a minha mãe, como se ela fosse a culpada pela morte dele, dizendo que ela atraía coisas ruins. A casa estava mergulhada em uma escuridão pesada; eu ouvia vozes, brigas e via vultos passando pelos cantos. Quando cheguei à sala e vi a caixa de madeira, o choque partiu algo dentro de mim. Naquele momento, meu irmãozinho, que ainda nem falava direito, começou a gritar e chamar pelo pai. Já eu, fiz o caminho inverso. O som morreu na minha garganta. Diante daquele caixão e de toda aquela confusão, eu perdi a minha fala. O mundo se tornou mudo, e o silêncio passou a ser a minha única armadura contra a dor que eu não conseguia entender."
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR