Para entender as sombras que começaram a cercar a minha infância, eu preciso contar de onde vinha o peso que meu avô carregava nos ombros. A história dele não era feita de ninar, mas de sangue e perdas que parecem saídas de um filme de terror. Ele ficou órfão muito cedo e teve que virar homem antes do tempo para sustentar seus nove irmãos. Ao todo, eram dez bocas para alimentar em um mundo que não tinha piedade.
A morte do pai dele foi algo que marcou a linhagem da nossa família da pior forma possível. Ele era dono de terras e, em um dia que deveria ser de recomeço, saiu para vender a fazenda. No caminho, foi emboscado. Não apenas roubaram tudo o que ele tinha, mas o mataram com uma crueldade animal: cortaram seu corpo em pedaços e ainda furaram os olhos do animal que o carregava. Anos depois, a mãe do meu avô casou-se novamente, mas o destino repetiu o ciclo: o padrasto dele também foi assassinado de forma brutal.
Com apenas 15 anos, meu avô já estava casado com a minha avó, carregando o mundo nas costas. Eles vieram para a cidade grande em busca de uma vida melhor quando minha tia caçula ainda era um bebê, mas as dores do passado não ficaram para trás. Meu avô guardava segredos e angústias que nunca dividiu com ninguém, e esse fardo aparecia no copo de bebida e nas brigas constantes com a minha avó.
Eu via aquele homem que me pegou no colo na maternidade e que me amava, mas também via o brilho de dor nos olhos dele. Eu era uma criança vivendo em um ambiente onde o amor e a violência caminhavam lado a lado, sem saber que aquele cenário de conflitos dentro de casa estava moldando a minha própria percepção do que era a vida. A história do meu avô era o espelho do que eu veria mais tarde: que o mundo pode ser c***l, mas que a gente continua de pé, mesmo em pedaços."