"Minha família carrega raízes de uma cidade pequena, daquelas onde as histórias correm pelos quintais e o passado nunca é esquecido. Quando meus avós decidiram tentar a sorte na cidade grande, eles trouxeram na bagagem muito mais do que roupas; trouxeram cicatrizes invisíveis. Minha mãe cresceu em uma escadinha de irmãos, e a história deles é marcada por uma perda que dói até hoje.
Minha tia teve um irmão gêmeo, mas o destino foi c***l com ele. Meus avós não tinham posses na época, e a pobreza muitas vezes fechava portas que deveriam estar abertas. Eles chegaram ao hospital com o bebê passando muito m*l, mas o socorro foi negado. O pequeno não resistiu e morreu ali mesmo, nos braços do meu avô, na porta do hospital. Uma vida que se apagou por falta de humanidade e que hoje seria um homem de 42 anos. Essa morte ficou gravada na história da nossa família como um símbolo de injustiça.
Mas, enquanto o passado tinha essa sombra, o meu presente aos dois anos era iluminado pelo carinho do meu tio mais novo. Ele era apenas um menino quando eu nasci, e quando eu completei dois anos, ele era um adolescente cheio de alegria. Eu amava o meu tio de uma forma muito especial. Ele era o tipo de pessoa que transformava o meu dia: me carregava no pescoço, correndo pela casa, e vivia beliscando minhas bochechas. Ele me olhava com um orgulho imenso e dizia o quanto eu era a coisinha mais linda dele.
Eu me sentia a menina mais importante do mundo ao lado dele. Entre as histórias tristes de perdas na porta de hospitais e a luta dos meus avós para sobreviver na cidade grande, o abraço e as brincadeiras do meu tio eram o meu refúgio. Ali, eu entendia que, embora nossa história tivesse muita dor, também era feita de um amor muito profundo que tentava nos manter de pé."