As horas do dia se seguiram de forma calma, passando conforme a normalidade que lhe era proporcionada. Mas nunca deixando de trazer a preocupação por tudo o que ainda poderia vir a acontecer.
O lugar ideal para seguir com a conversa que deram início, ou até mesmo com os planejamentos do que se fazer dali em diante, não parecia existir. No entanto, era essencial que ambas saíssem das vistas da população o quanto antes, pois ao menos um terço daquelas pessoas se sentiriam na obrigação de ceder qualquer informação que Gabriela viesse a procurar. Dessa forma, como não sabiam mais para onde deveriam realmente seguir, a jovem cientista não pensou como tinha o costume de fazer, apenas decidiu agir, decidiu que seu apartamento poderia ser uma ótima escolha temporária.
Claire por sua vez, sabia que a ideia não era tão boa assim, mas concordava com o fato de que precisavam sair das vistas de curiosos. Estavam começando a ficar expostas, e isso se tornaria um perigo sem precedentes em pouco tempo, então não havia muito o que dizer sobre a resolução de curto prazo oferecida pela mais velha, apenas precisavam ser breves, sem mais enrolações para a ocasião.
Considerando que a cientista residia em um apartamento do outro lado da cidade, a mais nova havia entendido enfim a necessidade de ter chamado um veículo móvel, e aceitou o fato de que talvez não fosse uma ideia tão r**m assim ir justamente para o apartamento da mais velha, ao menos era nisso que ambas queriam acreditar.
– Pode ficar a vontade, só vou me vestir com algo um pouco mais formal, prometo não demorar – O tom suave adquirido por Brenda, fez a jovem estagiária viajar para outro mundo enquanto se limitava a apenas assentir.
A cada segundo que passava ao lado da morena de olhos tão claros quanto os seus, sentia os sentimentos em relação a ela apenas aumentarem. Claro que não seria fácil ter que guardar tudo isso para si, até porque, o fato de a mesma ter aceitado a realidade que estão vivendo, não quer dizer que seus sentimentos são condizentes com tudo aquilo que nutria de forma cautelosa pela cientista. Ao menos era esse o seu pensamento, mas as coisas se passavam de forma bem parecida com a mais velha.
A jovem cientista também se encontrava presa dentro daquele dilema, onde não conseguia entender a extensão dos seus sentimentos em relação à jovem moça que se encontrava presente em sua sala.
Seria possível se apaixonar por alguém apenas com um simples encontro?
Talvez fosse,mas a cientista sabia que não era esse o seu primeiro encontro com aquela jovem, e a prova disso estava nesse exato momento em suas mãos, recebendo mais algumas poucas anotações, mas não deixando o seu quarto, pois gostaria de entender toda a situação antes de aparecer no Instituto caso tudo voltasse uma vez mais ao seu início.
Conhecia todas as possíveis brechas a serem exploradas dentro do espaço tempo, e faria isso para não se esquecer da dona de olhos verdes exorbitantes e apaixonantes, pois era essa a sua realidade, estava se apaixonando por alguém que era obrigada a conhecer todos os dias, sem obter a mínima das lembranças anteriores,e estava certa de que eram bem mais do que a própria jovem lhe contara, sinal de que a mesma não se lembrava de tudo, mas como obter essa certeza?
– Você disse que essa é a quarta vez que está revivendo este dia, não é? – Sua questão saiu de forma estudiosa, procurava entender até onde as memórias da jovem prodígio poderiam voltar, ao se colocar uma vez mais em sua presença.
– Apesar de sentir que possa ser bem mais do que isso, é tudo o que me lembro – A sinceridade junto a frustração presente na resposta da de olhos verdes, deixou a cientista ainda mais encantada pela jovem, e a vontade de entender todo esse enigma apenas aumentou consideravelmente – Me fala um pouco mais sobre o pequeno aparelho responsável por me prender nesse dia?
– Ele não está te prendendo aqui – Disse simples, ganhando por completo a atenção da jovem sobre si, ambas sentadas sobre o sofá, uma de frente para a outra – Você mesma é a responsável por isso – Era essa a verdade, e lá no fundo, Claire sabia disso – Se quando chegar ao fim do dia, quando bater zero horas no relógio e você não apertar esse botão, terá encerrado essa data, e ele passará a retroceder o novo número do calendário. Foi projetado para trabalhar assim – Sorriu ao explicar qual a finalidade do seu projeto, arrancando da mais nova um breve, mais tímido sorriso, como se tivesse sido pega no flagra de alguma ação surpresa, o que a fez se questionar – O que te faz apertar o botão toda vez, Claire?
– Da primeira vez, me forcei a acreditar que era a minha enorme curiosidade, mas não é a verdade. O fiz porque você me pediu, e mesmo tendo a conhecido a menos de doze horas, senti que era o certo, que deveria confiar. E como em um passe de mágica, acordei em meu quarto com o despertador incomodando meus ouvidos – Confessou de forma cautelosa, como se suas palavras fossem as provas chave para um crime capital, o que fez um sorriso sincero nascer nos lábios da mais velha, que não deixava de fitá–la com grande intensidade. A conhecia mais tempo do que lhe era apresentado, e com certeza faria de tudo para se lembrar de cada mínimo detalhe disso – As duas vezes seguintes, não foram muito diferentes, ambas se ocasionando por sua causa, deixando ainda mais evidente a sensação de que a vez passada não era a primeira, e enquanto isso não for resolvido, também não será a última. Mas enfim, se o dia for encerrado, não há mais nada que possa ser feito nele, é isso o que entendi?
– Exatamente. Dependendo dos acontecimentos, se quiser solucioná–lo, não poderá deixar o relógio estabelecer as zero horas.
– Mas por que dá–lo a mim? Você o projetou, todo o planejamento, o trabalho, veio tudo da sua mente,das suas pesquisas. Então porque não portá–lo a seu benefício? Dessa forma, seria você a lembrar de tudo, saberia como agir. Talvez já tivesse resolvido todas as questões negativas apresentadas – Essa era uma dúvida que a jovem aspirante desejava tirar a limpo, sentia a necessidade de entender essa ação vinda da mais velha, ouvir mais uma explicação baseada dentro da lógica, pois era essa a solidificação para cada assunto tratado pela cientista, e a mais nova havia percebido isso.
– Da mesma forma que você, eu também sinto que isso está acontecendo a mais tempo do que se lembra – Confessou em voz alta aquilo que lhe incomodava, causando uma pequena onda de surpresa na de olhos verdes marítimos, pois Claire, apesar de querer muito, não esperava por tal argumento, por tanto, se limitou ao silêncio. Iria ouvir com atenção cada uma das palavras ditas – Então porque não supor que em algum momento dessas repetidas viagens no tempo, era eu a portadora desse pequeno e milagroso objeto? Talvez em algum lugar do passado não muito distante, as coisas precisassem mudar de figura, talvez o show precisasse de um novo protagonista.
– Mas por que escolher justamente a mim? Você possui amigos, possivelmente aliados confiáveis, mas ainda sim, optou por mim, alguém que havia terminado de conhecer. Por que?
– Nada no mundo é aleatório, srta Novak, e se você sente o mesmo que eu, é porque está junto a mim desde que isso começou, o que me deixa intrigada sobre o porquê de ter precisado usar o controle – Sorriu realmente curiosa com a própria menção, e Claire por sua vez, se deixou levar pelo mesmo motivo que a fez optar por aquela ação.
Talvez Brenda estivesse mais certa do que jamais poderia imaginar, talvez elas estivessem mesmo juntas nesse enigma desde o seu início, e talvez, somente talvez, o motivo para tudo começar, fosse a sua morte diante o olhar da cientista. Mas há quanto tempo antes? Era essa a questão sem resposta do momento.
– Todos possuímos algo pelo que lutar, um motivo para agir perante ações que jamais tivéssemos visualizado em situações diferentes. Vai ver você estava diante de uma dessas ações.
– Pode ser que esteja com a razão, mas ainda pretendo descobrir como acessar tudo o que já se passou. Tem de haver algo que me permita manter todas as lembranças, preciso encontrar um meio – Sorriu ao se pôr de pé para ir até a porta, pois estavam pedindo por atendimento – Há coisas que não quero ter que esquecer – Claire havia entendido a indireta, e não soube com esconder sua satisfação por isso, pois ali se mostrava o interesse da outra sobre si, algo que a mesma achou que pudesse não existir, mesmo que sob as mínimas chances.
– Se for o caso, o que acha de executar a ação juntas? – Acompanhando a dona da residência até a entrada, jogou sua questão. Poderia dar certo, era a resposta que Brenda gostaria de ter dado perante o comentário da jovem de olhos verdes, porém não obteve grandes chances. m*l abriu a porta, e já foi obrigada a dar alguns passos para trás diante a arma erguida em sua direção, facilitando assim, a entrada de Damon e Gabriela, o que foi uma pequena surpresa para Claire. Se lembrava de ver a dona do Instituto sempre acompanhada por mais homens além dele, que rapidamente deixou seu olhar cair sobre si, a reconhecendo de imediato.
– Posso saber o que está havendo aqui? – Notando Gabriela fechar a porta logo atrás de si, a jovem cientista questionou de forma calma e friamente calculada. Precisava a todo custo se manter fria, e torcer para que a jovem ao seu lado também pudesse fazer o mesmo.