oito

1449 Palavras
Tendo seus ouvidos comprometidos pelo impacto sonoro de seu despertador, Claire saiu de sua cama em um sobressalto inesperado, respirando fundo e procurando o ar que havia perdido quando ouviu o engatilhamento da arma em sua nuca. Desejando que tudo não passasse de um sonho, olhou em seu despertador, embaixo das horas, a data que lhe dizia em qual dia estava. E percebendo não ter virado a noite, caiu em descontentamento soltando um longo suspiro. Não estava afim de sair do quarto para viver tudo aquilo uma vez mais, porém não seria assim tão simples, não quando sua mãe era sua principal força motivacional para tudo no mundo, e se lembrava bem de ter lhe falado sobre a realocação. Dessa forma, não foi surpresa quando a Sra Novak adentrou o espaço para se certificar de que a filha não se atrasaria para o seu primeiro dia em sua nova área de trabalho. Mas não querendo sair de casa dessa vez, Claire se manteve deitada, com o cobertor cobrindo até sua cabeça. Sendo obrigada a ver a filha se esquecer do seu importante compromisso, a Sra Novak respirou fundo antes de tomar o cobertor com grande agressividade para sua posse, chamando imediatamente a atenção de Claire sobre si. – Bom dia, mãe – Ainda não estando afim de sair da cama, cumprimentou se aconchegando um pouco mais em seu travesseiro. – Bom dia? – O descontentamento era visível em seu tom, e Claire perceberia isso mesmo a distância, pois sendo filha única, nunca deixou de ser o maior orgulho dos pais, sempre se esforçou para se tornar um exemplo a ser seguido, e com certeza sua sexualidade nunca serviu de obstáculo. Desde o início, seus pais foram muito receptivos ao assunto abordado, lhe cedendo todo o apoio que fosse necessário, e independente de sua ação, sempre seria assim, mas essa falta de compromisso já se encaixava em um outro assunto – Você já se deu conta de que horas são, Claire? – Quase oito da manhã? – Jogou não se esforçando em procurar o relógio digital sobre seu criado mudo para ter a certeza. Apenas cobriu o rosto com seu apoio para a cabeça, o qual sua mãe não pensou antes de também retirar de suas mãos – O que a Sra quer, mãe? – Você está atrasada minha filha, não vai causar uma boa impressão desse jeito – Se preocupando em arrastar sua criança até o banheiro do quarto, disse o que deveria ser óbvio para a filha – Se esqueceu que hoje seria o seu primeiro dia em uma nova área no Instituto? – Queria muito ter esquecido. – O que você disse? – Agradeceu mentalmente por sua mãe estar mais preocupada em organizar a roupa ideal para seu novo início do que com qualquer outra coisa, o que a impediu de ouvir tal comentário. Não queria ser obrigada a mentir, pois a verdade jamais seria aceita pela mulher responsável por lhe dar a vida. – Que estarei pronta em poucos minutos – Lamentou em dizer, mas era isso o que faria. Estava atrasada o suficiente para que as coisas pudessem seguir de uma forma complementarmente diferente, e torcia como nunca para que esse fato fosse verídico. Dessa forma, gastando mais tempo do que o seu normal, desceu as escadas já caminhando para sua garagem – Tchau mãe! Já estou de saída – Mesmo que não fosse a sua intenção, parecia que essa frase deveria sempre ser dita, e no fim, era exatamente isso. Essa sempre foi a sua forma pessoal de se despedir da mãe, e não seriam os acontecimentos nada normais a atrapalharem isso. Olhando para o relógio em seu pulso, percebeu estar atrasada em mais de uma hora e meia, então fez questão de aumentar ainda mais esse atraso optando por rotas que fugiam completamente de sua rotina, mas sendo o suficiente para aumentar a sua dívida de horário em mais uma hora. Diante todo esse feito, Claire esperava que alguns fatos já tivessem ocorrido, e dessa forma, implorava para que aqueles responsáveis por ela ter de acordar uma vez mais em sua cama, não viessem a acontecer. Queria a todo custo encerrar aquele dia, não estava disposta a vivenciá–lo mais uma vez, achava que sua sanidade pudesse ser comprometida quanto a isso, e talvez não fosse uma completa ilusão. Mas seria ela capaz de ignorar todos os fatos que voltariam a ser expostos em sua mesa? – Bom dia, Raquel? – Sendo de seu costume diário desde a sua entrada para o instituto, cedeu o cumprimento a moça responsável por gerenciar a entrada e saída de todos naquele prédio. Não faria a pergunta que sua mente gritava para ser exposta, seu objetivo era completamente diferente, e ao que parecia, o novo curso traçado também. – Desculpe Srta Novak, mas a Srta Mendes pediu para que fosse encaminhada até sua sala assim que chegasse – O comentário de Raquel a fez travar no lugar, a impedindo de seguir um percurso diferente daquele feito recentemente em suas lembranças. Poderia o seu atraso ter mudado tudo? Será que enfim o dia iria ser concluído? – Gostaria que eu a acompanhasse? – Não será necessário, muito obrigada, estou ciente de onde ela se encontra – Deixando claro o seu posicionamento, devolveu o sorriso recebido, para assim, seguir o caminho até a sala da chefe. Pois diferente da vez anterior, agora sua mente estava limpa, todos os pensamentos e lembranças claros como água. Se lembrava perfeitamente de todos os nomes, de todos os rostos, e sabia muito bem o que fazer para evitar alguns pontos em particular. – Entre! – Ouvindo tal confirmação ao anunciar sua presença, adentrou a sala se mantendo de frente para imponente mulher a sua frente, que não escondeu um breve sorriso ao deixar o olhar cair sobre si. Algo em Gabriela a deixava confusa, algo que a mesma parecia ser incapaz de descobrir sozinha do que se tratava, e talvez isso fosse um aviso. Pois mexer em um vespeiro nunca seria a melhor das ideias, sendo assim, se manter quieta parecia ser a mais sábia das decisões. Poderia viver sem ter que bisbilhotar esse oceano de segredos não desvendados, bastava saber até onde se estendia às águas da obscuridade. – Segundo o seu histórico universitário, e todos os horários cumpridos aqui até o momento, você possui o costume de ser uma pessoa muito pontual, srta Novak. Até mesmo muito perfeccionista, eu diria. O que me deixou curiosa em saber porque foi se atrasar justamente hoje, quando foi convocada para uma realocação tão importante. – Acabei possuindo alguns contratempos Sra, assuntos pessoais – Mesmo não sendo uma completa verdade, isso não era algo que fugia de sua realidade. Era sim uma questão pessoal, essa que cabia apenas a ela querer divulgar ou não, e o faria se fosse algo necessário, se percebesse que nada havia mudado por completo. – Está certa de que é apenas isso? – A dúvida de Gabriela a intrigou, afinal, o que ela poderia estar querendo insinuar com isso? – Talvez não estivesse explícito no meu perfil, tão pouco no meu currículo srta Mendes, mas a mentira não é algo que venha a cair bem sobre mim. E se não for incômodo,gostaria de saber o motivo para me mudar de área – Buscando imediatamente mudar de assunto, jogou a questão para qual já havia uma resposta. Porém, precisava de algo para deixar aquela sala o quanto antes, e nada melhor lhe veio à mente, se sentiu sem saída em meio a aquele assunto. E Gabriela parecer muito interessada em seu primeiro atraso em meses, não estava servindo de grande ajuda. Na verdade, tudo estava parecendo muito estranho, como se a mulher à sua frente esperasse por uma resposta em particular, mas não poderia lhe dar nada parecido. – Claro, você foi selecionada para compor a nova equipe de cientistas encaminhados para a ala 3 do setor 17, onde receberá um novo tutor devido ao seu estágio – De forma instantânea, jogou sua resposta juntamente a um breve sorriso antes de se pôr de pé para ir abrir passagem para a saída de Claire – Espero que se enquadre aos seus novos afazeres, srta Novak. – Fico agradecida pela confiança, Srta Mendes – Tendo agradecido de forma complacente, Claire deixou sua sala seguindo diretamente para a ala indicada. Pôde perceber o modo como toda a conversa se seguiu de forma diferente a que tiveram anteriormente, e devido a isso, sentiu que precisava se certificar de algo a mais, que precisava ver a pessoa responsável por ela ainda estar ali, revivendo aquele dia, tentando uma vez mais, mudar o seu final.
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