dez

1824 Palavras
– Você me contou – Sua resposta foi simples, porém necessitava de um complemento, a falta de compreensão no olhar incrédulo de Brenda lhe mostrava isso. Afinal, para a mais velha, haviam acabado de se conhecer – Há dois dias quando te vi pela primeira vez, que nem de longe parecia realmente ser a primeira vez. E voltou a repetir ontem, se é que posso dizer assim. – Isso não faz sentido, é algo impossível. Apesar de parecer que te conheço, nunca estive com você antes, nunca te vi até às apresentações de minutos atrás – O desespero tomou conta de Brenda, suas falas não estavam mais sob seu controle, seu tom variava por indefinidos graves, sua respiração parecendo não encontrar um compasso correto para acompanhar. Aquilo precisava ser uma alucinação. Aquela garota havia perdido por completo o juízo e não sabia sobre o que estava falando, ou tudo poderia não passar de um plano muito bem elaborado por Gabriela – Foi ela quem te mandou atrás de mim, não é? – Eu já te falei antes, não sou uma espiã, e com certeza não aceitaria uma proposta desse tipo de ninguém. Possuo meus critérios – Tentando explicar o seu ponto, repetiu o que havia dito no laboratório. Não pensou que seria assim tão difícil, mas possuía certeza de que valia a pena – Foi você quem me contou cada ponto de seu trabalho, me mostrou os reais motivos por trás de todo esse projeto. Por isso o enorme número de falhas, as principais delas sendo causadas por você mesma. Não vou te prejudicar, estou tentando te ajudar, apenas confie em mim. Vem comigo? – Não posso, isso é loucura. Você pode estar aqui para me levar até uma armadilha, não dá – Deixou sua dúvida já dando as costas para voltar ao laboratório, porém Claire foi rápida ao puxá–la de encontro a si, buscando algo muito importante – O que pensa que está fazendo? Me solta agora – Reclamou mantendo um tom moderado ao empurrar a mais nova para longe de si. Poderia ter cedido ao seu reflexo e deixado o peso de sua mão cair sobre a face da jovem estagiária, porém não era exatamente o que queria. Mesmo estando com um pé atrás em relação a tudo, não pretendia lhe fazer m*l, se preocupava com ela, queria vê-la bem. – Essa é a minha terceira vez vivendo esse mesmo dia, ao menos é tudo o que me lembro. Mas estou começando a encontrar motivos para acreditar que não é só isso – Talvez não fosse o ideal, mas a jovem de olhos verdes ainda insistia em mostrar seu ponto para a mais velha, e não iria desistir tão facilmente quanto a isso – Posso estar nesse vai e vem há semanas e não saber. Mas o que importa, é que essa é a verdade, e devo tudo isso a você – Para, toda essa história parece ser um filme de terror, onde um triângulo nunca tem fim. Não faz sentido algum. – Somos cientistas, buscamos significado para tudo aquilo que não faz sentido, e você encontrou um para essa questão. Por favor, acredite em mim, sei de tudo isso apenas porque você me contou, e só estou aqui porque você me proporcionou isso – A essa altura, o desespero havia mudado de dona. Claire estava disposta a qualquer coisa para fazer Brenda aceitar o seu ponto, para fazê-la acreditar em sua versão, e talvez conseguisse – Viagem no tempo, essa é a resposta. Toda vez que estamos para concluir a parte final do seu plano, chegamos a um fim indesejado, o qual está sempre acabando comigo, e só agora estou conseguindo entender o porquê – Por motivos que Brenda desconhecia, lamentou imensamente por ter notado a umidade se apossar do olhar desesperado da jovem parada a sua frente. Mas como acreditar em algo que estava longe de obter uma explicação lógica? Viagem temporal? Tudo bem que a própria estava com esse projeto em andamento há algum tempo, mas ainda sim era difícil acreditar que alguém estava vivendo sua teoria na pele – Sempre que o fim parece iminente, você me pede para apertar o botão, e como num passe de mágica, eu sempre acordo na minha cama com o despertador estourando meus ouvidos. Toda vez no mesmo horário e no mesmo dia. Esse dia – Chegando a um ponto que não parecia mais ter volta, Claire mostrou o aparelho que havia pego do bolso da mais velha quando aproximou seus corpos minutos antes, e só então Brenda pareceu entender. – Está me dizendo que meu projeto pessoal funciona? – Nada mais parecia ser tão importante, apenas tomou o aparelho para si enquanto o analisava com cuidado. Havia perdido horas, dias, semanas de sono com aquele projeto. Ele era um sonho impossível, mas talvez não tão impossível assim. Havia o terminado a mais de três meses atrás, mas ainda não havia testado de forma alguma. No entanto, o carregava consigo até o Instituto a apenas dois meses exatos. Se lembrando desse fato, percebeu que as suspeitas de Claire poderiam estar mais do que certas, e entendeu também, o porquê de se sentir tão bem na presença da mais nova, entendeu o motivo para ela ser tão familiar. Mas dois meses era muita coisa, e seja qual for o fim que estão alcançando, possuía noção de que precisava encerrar o plano e mudar o final de tal história, já havia se passado muito tempo. – Acredita em mim agora? – Não se deu ao luxo de responder a questão da mais velha, pois tinha certeza de que a mesma já havia encontrado a resposta desejada, queria apenas poder prosseguir sem muitos problemas, com a confiança da jovem cientista depositada sobre si. – Me sinto na obrigação – Respondeu de forma simples devolvendo o pequeno controle para a posse da jovem aspirante. Sentia que deveria ficar com ela, e apenas com ela – Para onde devemos ir? – Diferente dos acontecimentos passados, estamos com um adiantamento consideravelmente longo, e sabendo de tudo o que precisa ser feito, o nosso único destino, é a ala 5 do setor 12, onde precisamos alcançar a origem da Inteligência Artificial Personalizada, e retirar a placa principal antes de causar os danos irreparáveis – O plano já estava detalhado, era uma ideia totalmente formada e transcrita por Brenda, Claire apenas repetiu aquilo que a mais velha havia lhe dito nas duas últimas oportunidades. Apesar de parecer ser impossível, Brenda estava disposta a se manter fiel a crença de que tudo o que Claire disse, se encaixava perfeitamente com a verdade, mais do que isso. Estava disposta a se lembrar caso fosse necessário retomar o início do dia mais uma vez. Não fazia a menor ideia de como iria fazer para conseguir tal feito, mas faria de tudo para isso. Havia projetado um aparelho que gerava a viagem no tempo, o que seria se lembrar de alguém comparado a esse feito? – Pelo pouco que entendi até agora, o único meio para acessar essa coisa atrás do vidro, é desativar aquele alarme, e qualquer erro irá nos deixar presas aqui dentro até os seguranças vierem descobrir o que aconteceu. É isso? – Sua frustração era enorme, queria poder ajudar, mas não fazia noção do que precisava ser feito. – De acordo com as nossas pesquisas no laboratório particular de Gabriela, é exatamente isso – A resposta de Claire saiu de forma tranquila e animada, tudo enquanto trabalhava no sensor responsável pela ativação do alarme em questão. A garota parecia uma criança no parque de diversões – Olha, não precisa ficar assim. O importante é conseguir finalizar com tudo isso aqui, não acha? – Você tem razão, mas estou me sentindo uma inútil, principalmente por ter sido eu a te explicar cada um dos passos – Seu lamento era sincero, e mesmo não sendo o certo a se fazer, a jovem aspirante acabou rindo para tal confissão, ato que serviu para arrancar um breve sorriso dos lábios de Brenda – Já que não posso te ajudar com isso, irei fazer algo que possui a mesma importância – Claire até perguntaria do que se tratava, porém sua atenção era solicitada, e perder o foco não era uma opção. Foram longos minutos de trabalho até finalmente conseguirem alcançar o primeiro objetivo. Uma hora estava quase completa, e o tempo disponível se tornando cada vez mais escasso. Claire havia conseguido desativar o alarme, o que facilitou em quase cem por cento a remoção da placa mãe, seguindo a implantação de um explosivo de pequeno porte, capaz de fazer tudo o que precisavam sem causar danos à instalação, mas surpresas ainda estavam por vir. Tendo a certeza de que estavam dentro do tempo estabelecido em seu cronômetro, Claire não pensou em nada, a não ser seguir caminho até o estacionamento do prédio. Precisava deixar aquele quarteirão o quanto antes, e teria o feito se não tivesse seu carro atingido em alta velocidade quando dobrava a esquina. O impacto foi absurdo e inesperado, fazendo ambas as mulheres perderem por completo a noção do que acontecia ao seu redor. E assim como a jovem aspirante, a única coisa que Brenda veio a sentir, foram mãos sobre seus braços a tirando de dentro do veículo. Consideráveis minutos se passaram até a noção voltar a fazer parte de seu raciocínio, e com isso, o seu primeiro feito foi procurar pela presença da jovem estagiária, que ainda se encontrava fora de si, uma vez que o ponto principal do impacto foi ao seu lado no automóvel. – Eu não me canso de perceber o quão certa sempre estou, Dra Ernandez – Ouvindo tal comentário, rapidamente sua visão foi obstruída pela presença de Gabriela – Como conseguiram fazer tudo isso sem alertar os meus seguranças mais eficientes? – O silêncio adotado, não foi de muito agrado para a mulher ali presente. Mas não se importava com isso, possuía outro foco – Se não quer falar, tudo bem, não terá chances para repetir o feito mesmo. Damon? – Como eu imaginava, não tem coragem para sujar as próprias mãos – A provocação não parecia ser uma jogada inteligente a essa altura, mas todos sabiam o que estava por vim, e não importava o fato do lugar ser público. Os Mendes eram uma das famílias mais poderosas do país, eram praticamente intocáveis. – É o que pensa? – Ficou óbvio que era uma questão retórica, principalmente quando a mesma tomou para si uma 9mm já engatilhada e disparou um único tiro sob seu coração. Foram questão de segundos para que Claire já estivesse ao seu lado, a puxando para seu colo. Não seria possível mais nenhuma ação, o disparo era mortal, e a vida se esvaiu de seu corpo milésimos de segundos depois de ser abrigada pelo abraço da mais nova, que uma vez mais tentaria obter um desfecho final diferente.
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