Lorenzo Salvatore
Assim que desci do quarto onde havia deixado minhas coisas, fui direto procurar Luis e Alice. Eles estavam no grande salão principal, cercados por familiares e amigos, todos oferecendo parabéns e felicitações pelo casamento. Esperei um momento apropriado antes de me aproximar.
— Lorenzo! — Luis me avistou primeiro, abrindo um sorriso largo enquanto se aproximava para me cumprimentar. — Que bom que veio, irmão.
— Obrigado pelo convite, Luis. — Apertei sua mão firmemente antes de dar um leve abraço. — Alice, meus parabéns. Você está radiante.
— Obrigada, Lorenzo. — Alice respondeu com um sorriso tímido, segurando a mão de Luis. — E obrigado por estar aqui.
Luis me olhou com curiosidade, inclinando levemente a cabeça.
— E sua mãe e sua irmã? Por que não as trouxe?
— A Anna foi para um acampamento com a escola — expliquei, lembrando do entusiasmo dela ao falar sobre a viagem. — E minha mãe está cheia de encomendas de costura. Ela disse que mandará presentes depois.
— Justo. — Luis assentiu. — Mas espero que elas possam vir em uma próxima ocasião. Sua família também é nossa família, Lorenzo.
Agradeci com um aceno e, quando os parentes começaram a se dispersar, Luis colocou uma mão no meu ombro e sugeriu:
— Vamos dar uma volta pelo jardim? Faz tempo que não temos uma conversa de verdade.
Saímos pela grande porta que dava para os jardins da fazenda. O lugar era tão impressionante quanto eu me lembrava, com cada detalhe perfeitamente cuidado. Caminhamos lado a lado, o som das folhas balançando ao vento preenchendo o silêncio confortável entre nós.
— Então, me conta — Luis começou, quebrando o silêncio. — Como você está de verdade? Tudo bem mesmo?
Olhei para ele por um momento antes de responder. Luis sempre teve essa habilidade de enxergar além da superfície.
— Estou bem, Luis. — Respondi com firmeza, ainda que uma pequena parte de mim se perguntasse se era completamente verdade. — As coisas estão indo como deveriam.
Ele parou de andar por um instante, cruzando os braços e me encarando com um olhar cético.
— Você sempre diz isso. Mas sabe que pode ser honesto comigo, certo?
— Sei disso. — Sorri de leve, tentando aliviar a preocupação em sua expressão. — É sério, as coisas estão sob controle.
Luis continuou andando, mas mudou o tom para algo mais descontraído.
— E a vida amorosa? Não está saindo com ninguém? Podia ter trazido uma companhia, sabia?
Ri da sugestão, balançando a cabeça.
— Não tenho tempo para isso, Luis. No máximo, algo casual e sem complicações. Não dá para adicionar sentimentos à equação quando minha prioridade é garantir o futuro da Anna.
Luis deu uma risada, colocando as mãos nos bolsos.
— Pelo jeito, sua irmã vai começar um relacionamento antes de você, hein?
Empurrei seu ombro levemente, rindo junto.
— Provavelmente.
Conversamos mais um pouco sobre nossas vidas, relembrando histórias da academia de artes marciais e outros momentos que compartilhamos no passado. Luis sempre teve essa habilidade de me fazer sentir mais leve, mesmo em meio às responsabilidades e preocupações que eu carregava.
Quando nos despedimos, ele foi ao encontro de Alice, e eu decidi dar uma última checada na segurança da fazenda. Andei por toda a propriedade, conversando com os homens da equipe e verificando cada ponto estratégico. Felizmente, tudo estava em ordem.
De volta à casa principal, Alice me entregou a chave do meu quarto.
— Está tudo bem? — perguntou, lançando-me um olhar curioso.
— Perfeito. Não há nada com que se preocupar.
Ela sorriu, aliviada, antes de me desejar boa noite.
No quarto, desfiz minha mala rapidamente, organizando minhas roupas no armário. Depois, tomei um banho quente para relaxar os músculos tensos. Quando saí do banheiro, vesti uma camisa preta e uma calça de linho leve, pronto para descer e pegar algo para comer.
Ao abrir a porta do quarto, me deparei com Giulia saindo do quarto à frente do meu. Por um instante, nossos olhares se cruzaram. Ela sorriu de leve, e eu retribuí o gesto, tentando manter a expressão neutra, mas o impacto da presença dela era algo que eu nunca conseguia ignorar.
— Lorenzo. — Ela disse em um tom casual, inclinando a cabeça.
— Giulia. — Respondi, com um breve aceno.
Começamos a descer as escadas juntos, mantendo uma distância respeitosa, mas havia algo no ar — uma tensão sutil, quase imperceptível. Deixei que ela fosse na frente, observando enquanto descia os degraus com uma graça natural.
Ela estava usando um vestido curto e solto, florido, que parecia perfeito para o ambiente campestre. Nos pés, uma sandália delicada. O cabelo, solto e levemente ondulado, balançava suavemente a cada passo. Era impossível não notar a beleza dela, a mais marcante entre os Ricciardi. Mas, claro, isso era algo que eu jamais admitiria, nem para mim mesmo.
Quando chegamos ao final da escada, ela virou-se para mim novamente.
— Boa noite, Lorenzo.
— Boa noite, Giulia.
Ela seguiu em direção à sala de estar, e eu me virei para o outro lado, decidido a manter o foco onde ele precisava estar. Mas, enquanto caminhava, a imagem dela permanecia na minha mente, como uma sombra que eu não conseguia afastar. Ao me aproximar da cozinha, percebi o som de risadas e vozes animadas.
Ao entrar, deparei-me com quase todos os homens da casa reunidos. Luis estava no centro, gesticulando animadamente enquanto falava, e Domenico estava sentado à mesa com um copo de vinho na mão. Antônio, irmão dele e pai de Alice, estava em pé rindo, Marco estava sentado no balcão, comendo e olhando atento para Luis. Filipe, filho mais velho de Antônio estava em pé bebendo uma cerveja e atento, ao lado dele estava seu primo Giovani, filho de Jorgina, irmã de Domenico, ao lado de Giovani estava seu pai George. Por fim, vi Matteo Moretti e seu pai, Stefan, que também estavam atentos as palavras de Luis.
Luis me avistou primeiro e abriu um sorriso.
— Lorenzo! Chegou na hora certa, irmão! — Ele exclamou, batendo com a mão no encosto de uma cadeira vazia. — Senta aqui, temos planos para amanhã.
Eu hesitei por um segundo, mas a atmosfera era tão leve e acolhedora que resolvi me juntar a eles. Sentei-me, apoiando os cotovelos na mesa, enquanto Luis continuava falando.
— Então, é o seguinte: amanhã, Alice e as mulheres vão fazer alguma coisa juntas. Ela não especificou muito, mas basicamente estão nos mandando ficar fora do caminho.
Domenico soltou uma risada curta, erguendo a taça.
— Como sempre.
— Exato. — Luis riu também, antes de continuar. — Então, pensei que poderíamos aproveitar e nos reunir na sala de jogos. Beber, jogar, relaxar. Afinal, estamos em uma fazenda; nada melhor do que um dia sem preocupações.
Os homens ao redor concordaram com entusiasmo, incluindo os seguranças.
— Que tipo de jogos? — Perguntou Geovani, curioso, enquanto Luis pegava um copo e servia um pouco de vinho para mim.
Ele deu de ombros, mas seu sorriso indicava que já tinha algo planejado.
— De tudo um pouco. Comprei alguns novos jogos antes de vir para cá. Inclusive, uma mesa de pôquer que nunca usamos.
— Agora estamos falando. — George comentou, rindo enquanto levantava sua própria taça.
Domenico aproveitou o momento para entrar na conversa, com sua presença sempre imponente, mas também amigável.
— Só estou avisando: se for sinuca, quem jogar contra mim vai perder. — Ele declarou com confiança, inclinando-se para trás na cadeira.
Antônio, que estava ao lado dele, soltou uma gargalhada.
— Pago pra ver, Domenico. Já chega de você se gabar dessas vitórias antigas.
— Antigo ou não, vitória é vitória. — Domenico respondeu, erguendo a taça em um brinde informal.
Enquanto todos riam e trocavam provocações amigáveis, percebi que o ambiente estava diferente do que eu estava acostumado. Não era o clima sério e focado do trabalho, nem o ambiente tenso das ruas de Milão. Era algo simples, leve, quase... familiar.
Luis continuou detalhando suas ideias para a reunião do dia seguinte, citando jogos e brincadeiras que poderiam fazer parte da noite. Sua energia parecia contagiar a todos.
— Também pensei em colocar algumas competições. Talvez jogos rápidos, tipo dardos, cartas... Quem sabe até boliche, já que temos a pista aqui.
Eu ergui uma sobrancelha, surpreso.
— Você trouxe uma mesa de pôquer e temos uma pista de boliche?
Luis riu.
— Lorenzo, isso aqui é a fazenda dos Ricciardi. Claro que temos.
Domenico olhou para mim, com um sorriso que misturava orgulho e humor.
— Achou que isso aqui era só vacas e grama, rapaz?
Balancei a cabeça, rindo com eles. Esse tipo de interação me fazia sentir algo raro. Por um momento, era como se eu fosse mais do que o comandante de segurança. Era como se eu fizesse parte da família — mesmo que, no fundo, eu soubesse que não era verdade.
O momento foi quebrado por Marco, que apontou para Domenico.
— Então, senhor Ricciardi, está preparado para perder amanhã?
— Perder? — Domenico respondeu, com um brilho desafiador nos olhos. — Meu querido filho, só vou perder se eu deixar.
— Isso vai ser divertido. — Luis interrompeu, esfregando as mãos em animação. — Amanhã, todos vocês vão ver quem é o verdadeiro rei da sala de jogos.
Todos riram, incluindo eu.
Depois de alguns minutos de conversa, me levantei para pegar um pouco de comida. Montei um prato simples e voltei à mesa, onde a conversa continuava animada. Enquanto comia, percebi que esses momentos eram raros para mim. Era um vislumbre de algo que eu nunca tive verdadeiramente: um círculo de pessoas onde eu podia ser mais do que apenas o segurança ou o soldado leal.
Quando finalmente me levantei para sair, Luis me chamou.
— Ei, Lorenzo. Amanhã, sem desculpas, você vai estar lá.
— Estarei lá. — Respondi, com um leve sorriso.
Deixei a cozinha com uma sensação estranha no peito. Parte de mim estava feliz por ter compartilhado aquele momento. Outra parte sabia que, no fundo, essa leveza nunca seria completamente minha. Afinal, meu papel era protegê-los, não pertencer a eles.
Mas, por enquanto, talvez eu pudesse aproveitar a ilusão. Mesmo que fosse só por uns dias.