Anna Quando o sol descia raso sobre as lajes, tudo ganhava a cor exata das memórias: metade nostalgia, metade aviso. Eu sentava na janela do meu quarto — a janela que dava para a Rua dos Ipês, para os vultos conhecidos e para as vozes que sussurravam histórias — e via, por entre o vai e vem do morro, a mulher que fui criada para temer e imitar: minha mãe. Recordava-a pequena nos cantos da cozinha, dobrando roupas com mãos calejadas, cabeça baixa como quem guarda um segredo pesado demais para dividir. Minha mãe era sombra e sustento. Ela sabia das razões do silêncio — das contas, do marido que julgava, das vizinhanças que olhavam — e fazia disso sua fortaleza. A submissão dela era um traje que a acomodava; a resignação, um gesto que protegia os filhos para que não tivessem que aprender ce

