Kadu O morro dormia com um olho aberto. Sempre dorme assim. Gente como eu não tem o luxo da paz — só o intervalo entre uma guerra e outra. Mas naquela noite, o silêncio não vinha das vielas… vinha de dentro de mim. Anna mudara. Eu sentia no ar, no jeito como ela caminhava pela casa sem pedir licença, no olhar que não baixava mais. O tom dela agora carregava convicção, não medo. E embora eu devesse me orgulhar disso, o que me corroía era a ameaça que nascia junto com a coragem dela. Um Don não perde o controle do próprio território — nem da mulher que carrega o seu filho. Eu observava do corredor enquanto ela conversava com Rosa, rindo, a mão sobre a barriga. Havia luz nela. E eu, cercado de ouro e sangue, percebi o quanto aquela luz me irritava. Porque ela não era mais só minha. Aquele

