Anna A madrugada começou como tantas outras: o morro respirando lento, as lajes frias de orvalho, um funk distante tentando convencer a noite de que a alegria não dorme. Eu embalava meu filho no peito, prometendo a ele um mundo menos barulhento do que o de fora. Foi quando o vento mudou de cheiro. Primeiro, um amargo de plástico; depois, o metálico do pânico entrando pela janela. Os sinos improvisados das portas chacoalharam todos de uma vez, como se a favela inteira tivesse acordado gritando. — Fumaça! — Rosa bateu no batente, o rosto cinza de susto. — Na descida da Escolinha! O chão perdeu nome. Vesti o menino num segundo, uma manta, a fralda, o gorro. Quando abri a janela, a noite já estava listrada de laranja — um fogo grosso, gordo, comendo madeira, telha, coragem. Uma sequência de

