Capítulo 47 – O Julgamento do Rei

1689 Palavras

Kadu A manhã subiu o morro em silêncio de velório. Do alto da laje, a Rocinha me parecia um mapa de queimaduras que ainda fumegava. A reconstrução caminhava, mas o ar tinha outro cheiro — ferrugem, ressentimento, a suspeita de que alguém mexera no motor enquanto eu providenciava água. O rádio chiou duas vezes, seco, como quem pigarreia para dizer palavra r**m. — Chefe — a voz de Lipe veio baixa —, preciso que o senhor desça no Galpão 1. Teve… movimento. Desci com o peso do que eu não sabia. No corredor, cruzes de fuligem nas paredes ainda lembravam a madrugada de fogo. O pátio estava cheio. Meus homens alinharam o corpo, mas os olhos não. Havia algo quebrado no olhar — rachadura miúda, aquela que vira f***a no primeiro tremor. No centro, dois corpos cobertos por lonas. Levantei uma: os

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