Anna O morro amanheceu como quem acorda depois de um sonho barulhento: os telhados ainda ecoavam os fogos da madrugada, as lajes úmidas refletiam um céu indeciso, e os becos carregavam um murmúrio novo — meu filho tinha nascido. A notícia corria como água por entre as casas, multiplicada por vozes que eu não reconhecia, por risos e silêncios que me pesavam nos ombros. Eu passei a mão no berço improvisado ao lado da cama e senti a respiração miúda, firme, do herdeiro de Kadu. Do meu filho. As mulheres da comunidade chegaram cedo, como se a manhã as tivesse empurrado até mim. Rosa abriu caminho com um pano de prato no ombro e Laísa, a parteira, veio logo atrás, trazendo chá de folha santa e recomendações que misturavam ciência e reza. — Dormiu um pouco? — Laísa perguntou, tocando meu puls

