Maggie
Acompanhei a enfermeira até a saída. Ela, aparentemente, está chateada com algo. Sempre é comum ver as mulheres ficaram com essa cara de "Aí, que ódio. Ele nem sequer me deu bola.", quando Nathan despensa elas. E o rosto da enfermeira Beatriz se enquadra perfeitamente nessa categoria.
— Obrigada pelo serviço, e pelas dicas. — Digo a ela, no tom amigável que uso para todos.
— Por nada, mas...posso perguntar uma coisa? Algo que não tem nada haver com trabalho?
Estranho a princípio. O que ela teria para me perguntar se m*l me conhece? Mas ainda sim, minha educação diz para balançar a cabeça e dizer sim.
— Claro, pode perguntar.
— Você e o Sr.Louive são...namorados? Eu sei que isso é muito indelicado mas...ah, desculpe,estou sendo muito indelicada.
E ela está, mas não vejo problema nenhum em responder. Se fosse Nathan aqui, ele teria mandado ela cuidar da própria vida,nas eu sou bem diferente dele.
— Não, não somos. Mas devido aos anos de trabalho nossa amizade ficou muito forte. E eu meio que aprendi, sabe? A lidar com a hipoglicemia dele.
— Ah! Então não são ainda. Pelo jeito que ele olha para você da pra perceber o quanto ele te considera. — Ela sorri gentilmente. Nathan nem sempre me olhara assim, esse sentimento cresceu ao longo dos anos, mas em meus primeiros meses como sua secretária não havia um dia em que eu não conhecesse uma mulher nova ou simplesmente ter que agir naturalmente, como se ele não tivesse transando com uma comissária de bordo no banheiro do avião em uma viagem até a Philadelphia. São longos anos dessa amizade, e mesmo que ele tenha se declarado, sei que ele nunca fica mais de dois dias sem ter suas necessidades aliviadas. Mas, ele ter rejeitado a enfermeira, que é muito bonita, é algo novo. Será que é por quê eu estou aqui? Prefiro acreditar que sim .— Bem, eu vou indo. — Diz ela antes de seguir para fora.
— Tenha uma boa noite.
Esperei que ela entrasse no táxi para poder fechar a porta e retornar ao interior da casa. Sem me surpreender porque ele não segue instrução alguma além da própria vontade, encontrei Nathan na cozinha. Seus olhos estão crescidos em direção ao forno, onde a lasanha a bolonhesa está sendo preparada. É a receita favorita de Nathan, Germina e eu a preparamos para tentar alcançar Nathan.
Fora uma surpresa para todos que o associado da Gucci tenha cancelado, embora essa atitude do pai de Nathan já seja esperada.
— Você é a melhor, Maggie Rose. — Ele elogia, sem olhar em minha direção.
— Você deveria estar na cama. — Não é como se ele fosse me ouvir, mas tento convencê-lo mesmo assim. — Vamos, quando estiver pronto eu levo pra você.
— Estou bem, Maggie. Ficar deitado só vai me deixar mais ansioso. — Ele suspira. Suas mãos vão aos cabelos castanhos lisos e perfeitos. Às vezes ele usa gel demais para manter cada fio no lugar, mas gosto de como está agora, despenteado e selvagem.
Não deveria estar pensando nisso agora. Há um problema enorme pela frente. Não sei como Nathan vai resolve-lo, mas sei que tenho que estar pronta para ajudá-lo no que precisar.
— Seria mais fácil se você traçar um plano?
— Hum plano? — Ele olha para mim e estreita as sobrancelhas suavemente. — Para traçar um plano precisa de uma linha de chegada, e eu não sei como vou superar isso.
Me sinto péssima por ele. Poderia abraça-lo agora, poderia acolher todos os seus medos mas a muito tempo aprendi que chorar sobre o leite derramado não adianta nada.
— E se... — As palavras ficam presas em minha garganta. Não sou a melhor pessoa para dar esse tipo de opinião e eu só me atrevo porque é com Nathan com quem estou falando, mas ainda assim, fico nervosa só de tentar. — E se você mudar as coisas?
— Mudar as coisas? — A cabeça dele se levanta, olhando para o teto. — Prossiga.
— Estamos a quase quatro anos no mercado, oferecendo os mesmos serviços. A comparação com a empresa de seu pai é esperada por vocês oferecerem serviços parecidos. Mas, isso não aconteceria se você tivesse uma carta na manga, algo que seu pai nunca pensaria em fazer.
Ele desliza a atenção para mim. Há curiosidade em seus olhos e uma linha fina em seus lábios. Quando se trata do novo, é normal sentir medo do desconhecido, então, entendo se ele não aceitar de primeira.
— Um projeto que nos diferencia. Hum. Não sei, Maggie. Meu pai está a anos no mercado...
—...por isso mesmo. — O interrompo. Eu não costumo fazer isso, não costumo sequer levantar a minha voz, mas por algum motivo, talvez pela raiva em direção ao pai de Nathan, me sinto energética. Os olhos de Nathan, o meu chefe, o homem que nunca me ouviu interrompe-lo, ou levantar minha voz sobre a dele, se surpreendem. — Ele está a mais de trinta anos no mercado oferecendo o mesmo produto, se você mudar, se quebrar o círculo, tenho certeza que será benéfico.
Nathan se vira para mim, deixando de lado a lasanha do forno — que até dois segundos atrás era o onde seu foco estava — e cruza os braços sobre o próprio peito. Sua postura diz "desde quando você age assim, Maggie Rose?".
— Quebrar o círculo, hein? — Ele estreita os olhos. — Deveria agir assim mais vezes. Foi extremamente sexy.
Minhas bochechas esquentam, mais e mais e mais, sei que fiquei vermelha e sinceramente? Me odeio um pouco por ser tão tímida. Eu tenho minhas razões, mas se eu continuar assim, nunca vou conseguir seguir em frente. Pensando nisso e sendo levada pelo calor do momento, eu digo, sem pensar nas consequências:
— Não parece que foi, você parece tão são.
Ele da um passo em minha direção e meu coração palpita. Fique onde está. Não se atreva a recuar. Mais um passo vagaroso, me testando. Mas não vou correr, não dessa vez. No terceiro passo, ele está diante de mim, tão perto que tenho que esticar o pescoço para olhar para seus olhos.
— Quer que eu perca o controle por um segundo? Não vai sair correndo? Porque quando eu começar...
Quanto mais adiarmos mais eu vou ter tempo para desisti, não quero viver presa no passado novamente, nem que tenha que fazer isso de uma vez. Me ponho nas pontas dos pés, minhas mãos contra seu peito e não penso duas vezes antes de beija-lo. Seus lábios são gentis sobre os meus, calmos.
Está tudo bem, Maggie. É o Nathan, ele não vai te machucar.
Abro espaço para que sua língua possa passar e dançar sobre a minha. O beijo é calmo, mas se aprofunda conforme nossas línguas se provam. Sinto o ar faltar em meus pulmões, mesmo que eu respire pelo nariz, não consigo processar suas mãos apertando a minha cintura, puxando a minha blusa, expondo a minha barriga. Sua palma queima a minha pele, a sensação persiste mesmo quando ele deixa o local, como se minha pele quisesse se lembra que ele esteve ali. Sua língua na minha é tão bom quanto estranho, nunca me senti assim, esse sentimento diferente, efervescente em minha barriga, como se eu fosse explodir, mas não é r**m, é bom, é muito bom.
Ele avança um pouco, de forma que minhas costas encontram o armário da cozinha. Seu corpo pressiona o meu e eu posso sentir cada centímetro dele. Mas o que é isso duro? Será...
Mais, é impossível, certo? Deve ser o celular, ou uma lanterna, ou uma garrafa d'água. Não pode ser tão grande assim. O nervosismo revira meu estômago e eu tenho que me separar. Só de imaginar que ele está assim... céus, meu coração parece que vai explodir.
— Espera, espera um pouco.
— Desculpe, eu me excedi. Achei que você estivesse gostando. — Suas palavras são urgentes, preocupadas e ressentidas. Ele nunca passaria do limite e achar que passou o deixa nervoso.
— E estava, eu só, isso ali é um probleminha, não é? — Aponto para baixo. — Me diz que tem uma garrafa d'água no seu bolso.
Ele abre um sorriso de lado tão cafajeste que sinto o sangue voltar as minhas bochechas. Céus, deve está escarlate.
— Esse short não tem bolso.
Então é mesmo aquilo.
Balanço a cabeça suavemente para os lados e fecho os olhos. Isso não é humano.
— Não precisa se assustar, não vai te morder. — Ele se inclina para deixar um beijo em minha testa.
— Mas é enorme.
Uma risada curta e grutal escapa por entre seus lábios. Ele se afasta brevemente, seus olhos azuis encontram os meus, e há luz neles.
— Não deveria falar assim.
— Mas é verdade. Você já foi a um médico? Tem certeza que isso é natural?
— Quer que eu te mostre o quão é natural? — Um segundo depois ele se arrepende do que disse. — Desculpe, não deveria ter dito isso.
— Não precisa se desculpar, eu...eu confio em você, sei que nunca me machucaria.
Os olhos dele se estreitam brevemente e sua cabeça vai um pouco para trás. Suas próprias palavras saem serias, difíceis.
— Alguém... alguém machucou você?
— Eu já ia chamar vocês! A lasanha já deve estar pronta! — Avisa Germina, colocando a luva para poder tirar a travessa do forno.
Ela surgiu no "time" perfeito, e sei que embora eu tenha que contar a ele a minha história um dia, não acho que esse seja o momento certo. Não tô pronta, embora queira superar o passado, para reviver tudo de novo.