Dragón também foi tocado pelas sensações de ter Solar em seus braços. Não foi planejado, foi impossível ignorar quando ela disse que ele jamais olharia para ela.
Se afastou da menina como se tentasse fugir de si mesmo, se ficasse acabaria em problemas, desejou possuí-la naquele chão, na mata, o calor tomou conta do seu corpo como se realmente tivesse beijado o Sol.
"Acorda, não pode se apaixonar como se fosse um moleque".
Pensava que ela não o queria por causa da sua origem, deveria ter resistido, se convenceu a se afastar ainda mais, no entanto naquela noite o sono ficou agitado, acordou várias vezes, o calor incomodava, os insetos, absolutamente tudo era desagradável. Subiu ainda mais pelas trilhas que conhecia tão bem, mesmo a escuridão da noite não era capaz de fazê-lo vacilar.
Quando chegou na parte mais alta da propriedade viu uma espécie de buraco com um cheiro horrível, pensou ser algum tipo de cemitério de animais ou local para destarte de restos.
Era na verdade um dos castigos aplicados aos traidores, chamavam o lugar de A câmara, aqueles que ousavam desobedecer ao código amargavam um castigo que testava as forças humanas ao limite, a maioria dos homens enviados para aquele lugar, morriam, os que sobreviveram não conseguiriam esquecer a sensação de ficar em pé por dias, em um buraco fundo cavado no solo, sem comida ou água, sem higiene, e sendo obrigados a conviver com os p´roprios dejetos.
Ivan Bianchi era o líder daquele grupo, um homem de aparência intimidadora pelo tamanho, mas conhecido pela justiça, apenas Tony, um aliado que colocou a vida de Mel filha primogênita do capô foi condenado aquela tortura, Dragón não sabia, mas vê-lo ali era um dos medos de Solar.
O mexicano continuou andando, ouviu o barulho da cachoeira e seguiu o ruído, pensou que seria bom tomar um banho, tentar esquecer aqueles lábios, a voz suave da irmã do subchefe.
Ethan, conhecido pelos soldados como Sombra era o irmão de criação da garota, melhor amigo de Ivan e um dos responsáveis pelos treinamentos dos soldados. O subchefe era superprotetor com os seus, principalmente as mulheres e Solar achava que jamais o irmão aprovaria um relacionamento dela com alguém que ele chamava muitas vezes de índio.
Drágon foi por muito tempo apenas um mαl necessário, lembrou de quando perguntou sobre o acampamento do cartel na propriedade.
Sombra e Dylan estavam treinando, tinham se tornado amigos, mas não foi sempre assim, haviam sido inimigos que aprenderam a se respeitar.
- Temos visitas? Por que não levamos algo para que eles possam comer? Estão assando carne de caça e comendo sem tempero, como animais.
- Solzinho, fica longe dessa gente, não arruaceiros, gente sem lei e que infelizmente, pela situação, precisamos aturar, irão embora assim que fantasma e eu pudermos resolver as coisas.
A organização estava passando por constantes ataques e Drágon se colocou como aliado, não por amizade, mas por saber que eram o melhor que podiam conseguir se comparados as demais organizações que dominavam o mercado de entorpecentes no mundo.
- E por isso vamos tratá-los como bichos?
Dylan respondeu à pergunta da garota.
- Princesinha, são índios, não vivem como gente, precisa parar, ou vou ter que te salvar de novo.
Solar acreditava estar apaixonada pelo soldado que era conhecido como fantasma, eram amigos e a garota se encantou com a forma como o homem encarava a vida, tentou de tudo para chamar a atenção de Dylan, mas a única mulher capaz de fazê-lo perder o controle era Zoey, uma carioca inculta e que não tinha concluído sequer o ensino médio e isso massacrava o coração da filha do conselheiro, Sol acreditava ser superior em absolutamente tudo se comparada a Zoey, ainda assim, nem um beijo conseguiu do soldado.
Gostou da ideia de ser salva por ele e passou a frequentar o acampamento dos mexicanos.
E foi assim que conheceu o líder do cartel de Sinaloa.
O homem conhecido como Dragon era calado, antissocial e se mantinha afastado de todos, inclusive dos seus, mas foi ele quem a salvou de si mesma. Ela ainda lembrava das conversas que tiveram quando ela se esqueceu do próprio valor por um amor impossível.
- Feche os olhos, pequeno Sol.
Ela continuou olhando para ele sem entender onde o mexicano queria chegar.
- Feche, estou aqui, não vou deixar ninguém te machucar.
A filha do conselheiro fechou os olhos, ainda desconfortável, mas Dragon segurou suas duas mãos com as palmas viradas para cima.
- Agora se imagine jogando terra naquele lugar, pegue a terra na margem e jogue na água. O que acontece, Sol?
Ela abriu os olhos para tentar responder.
- Não abra, continue imaginando, olhe para a água e me responda o que vê.
- Desaparece.
- Exatamente! Não importa quantas vezes você tente, a água ainda será água apesar de todas as tentativas de sujá-la. Agora feche novamente os olhos e imagine que você pega um copo dessa mesma água, limpa, cristalina, pura... Coloque terra nesse copo e me diga o que acontece.
- A sujeira fica no fundo do copo.
- Isso mesmo, Sol. Você pode escolher ser livre como um riacho, deixar as coisas ruins passarem por você e continuar sendo cristalina, ou se aprisionar e permitir que a sujeira fique aí dentro sujando aquilo que tem de melhor. Agora pode abrir os olhos.
Para Dragón, a garota era apenas alguém perdida nas próprias dores, viu naqueles olhos uma doçura maior do que em qualquer outra, mas não estava apaixonado, nem sequer havia desejo em seus gestos, quis ajudar, só isso, o tempo e suas artimanhas brincou com o coração do líder mexicano, as conversas e a companhia de Sol ficaram frequentes e quando o homem se deu conta, já era tarde para negar o que sentia.
Quando a garota desapareceu, o mexicano não pensou antes de agir, foi buscar pela mulher que tinha raptado o seu coração. No avião ainda pensou...
“Pelo amor de uma rosa o jardineiro se torna servo de mil espinhos”
Não estava errado, foi a pior viagem que fez, não pelo atentado que sofreu, nem por descobrir que seus homens o traíram, mas por ouvir da boca de Sol que ele era indigno de amor.
Decidiu que não se submeteria a humilhação que Alma, sua mãe, passou ao buscar abrigo em solo americano. Solar era de família estadunidense e isso o fazia lembrar todos os dias do quanto seu povo era visto como inferior pelo país vizinho.
Sentou-se em uma pedra na cachoeira, lembrou do beijo, da boca pequena e do sabor frutado, do som da respiração e do tremor no corpo da garota. Sabia que ela havia se entregado, pode sentir o desejo dela por ele, tão grande quanto o seu...
Mas lembrou da realidade em que vivia em Tijuana.
“Quantas mulheres não cruzam a fronteira só por uma aventura e depois voltam para os seus maridos?”
Acreditava que Solar seria exatamente assim, talvez gostasse de estar em sua cama, mas não seria ele a ser apresentado para a família, sempre preferiria um dos seus para andar de mãos dadas e acabaria morto por ceder aos próprios desejos. Aqueles homens não perdoavam certas coisas, e sempre seria a palavra da filha do conselheiro contra a de um latino.
Ficou olhando para a água, admirando o seu movimento e desejando que as coisas fossem mais simples.