Que boca é essa?

1021 Palavras
Dragon preferia escolher as suas batalhas, a opinião de Solar a respeito dele não era uma novidade, ao menos não se ele pensasse em seu país, todos os anos centenas de pessoas tentavam cruzar a fronteira em busca de trabalho, qualidade de vida, segurança, ou simplesmente para fugir do narcotráfico. Todos, sem exceção, inclusive aquele que tinham sucesso em sua empreitada acabavam voltando para casa. O preconceito que encontravam nos olhos dos americanos era mais afiado e doloroso do que a vida que tinham no México. E foi, exatamente por isso, que apesar do que sentia escolheu sua batalha com sabedoria. Não havia conhecido aquele lado de Solar, a achava diferente, doce, inteligente, mas percebeu que isso não a excluía da cultura imunda e preconceituosa na qual foi criada, talvez nenhuma daquelas pessoas. Seguiu a sua vida, não havia como voltar atrás, conhecia o código quando jurou a sua lealdade, além disso, refletiu sobre como foi atacado pelos seus, ao menos ali sabia o que esperar. O tempo passou sem que ele precisasse falar com Sol, agradecia por isso, cumpria suas ordens, participava dos treinamentos, mas o clima de festa no lugar o ajudou a ficar afastado. E foi apenas, quando já estava quase esquecendo o que tinha sentido por aquela menina, que a viu parada na margem do rio. O mesmo olhar brilhante, o rosto gentil, era quase difícil acreditar que as palavras que ouviu tivessem vindo realmente dela. Não soube o que a assustou, apenas a viu cair na água, quando ela não boiou, Dragón mergulhou, estava magoado, mas nunca a ponto de assistir alguém, qualquer que fosse, se afogar. A segurou apenas para ajudar, mas ela passou os braços em volta do seu pescoço. Dragón não a olhou, apenas tirou Solar da água. - Venha, vou te ajudar a descer, vai acabar gripada. Saiu andando na frente. - Dragon! Quero conversar, estou com saudade, precisa me dizer o que aconteceu, por favor! Por que está fugindo de mim? - Fugindo? Sou um índio, Solar! Só um latino sujo. Eu nunca vou nadar em um rio com redemoinho, mas não preciso fugir dele, só reconheço onde não entrar. Você é isso, pequeno sol, como um rio bonito e que vai arrastar e destruir qualquer pessoa que se deixar enganar. Pode me achar muito burro, mas sei onde me cabe. Solar não entendeu o que tinha feito para que o mexicano a tratasse daquela forma, mas sentiu o coração doer como se estivesse perdendo uma parte de si mesma. - Do que está falando? Por que está fazendo isso comigo? Você também? Começou a chorar e o mexicano teve vontade de abraçá-la, odiou ver a menina daquela forma, antes de puxá-la, lembrou de que era uma escolha, sempre era, podia se deixar enganar e afundar, ou apenas mergulhar em águas calmas, uma mulher que o quisesse como ele era. - Não estou fazendo nada, só dizendo que não quero mais ser o homem para quem você corre quando está triste. O que foi? O amigo do seu irmão te deu mais um fora? Talvez você seja branca demais para ele, talvez ele prefira a pele morena da mulher dele, eu prefiro. Quer saber como me machuquei? Eu também quis aquela garota e só me afastei porque o marido dela é bom de briga, mudei para cá por isso, pela morena. Estava muito longe de ser verdade, Dragón sequer sabia o nome de Zoey, a carioca era casada com Dylan uma paixão que quase levou Solar a loucura, mas que tinha dado lugar a um sentimento estranho e confuso que ela não reconhecia. - Dragón o que aconteceu? Você não é assim! Está sendo c***l e eu não me importo com o que Dylan prefere, só com .... Percebeu que quase falou que se importava com o que ele preferia, sentiu vergonha. - Esquece! Estou fazendo de novo, né? Aceitando ficar presa, com a terra no fundo, correndo atrás de quem nunca vai olhar para mim. O mexicano a puxou para si e a beijou, não lembrou da mágoa, só a queria com ele, saber o gosto daquela boca. E Sol se entregou ao que sentiu, o corpo quente do homem no seu, a língua em uma exploração que a levou para um mundo que nunca tinha estado. Sentiu o corpo todo reagir a boca do mexicano, foi como se ele apenas com um beijo controlasse cada parte do corpo da garota e pela primeira vez ela quis se entregar a alguém. Quando a soltou, Sol se agarrou a ele e tentou retomar o beijo, foi como se sentisse uma sede incontrolável e precisasse daquele contato, mas Dragon a segurou pelos braços e afastou a menina. - Isso não vai acontecer, Sol. Estava com a respiração curta, excitαto, o coração em saltos e a mente uma bagunça, conseguiu reunir toda a determinação que tinha para afastá-la. - O que? O que não vai acontecer? Os olhos fixos no rosto moreno do homem a sua frente, a claridade que machucava e a impedia de olhar para cima a fizeram desejar o abrigo daquele corpo, se imaginou com ele, como seria ser tocada, amada... - Posso ser só um mexicano burro, mas não vai me humilhar menina, volta para o seu mundo e me deixa em paz. Não vou ser seu cachorrinho vira-latas, vai procurar o loirinho lá ou o cara casado, quem você quiser, mas isso aqui, eu e você, sem chance. Sol foi deixada sozinha tão rápido que não foi capaz de processar o que tinha acontecido e aquelas palavras. No mesmo dia tinha provado o melhor beijo da sua vida e sido abandonada por alguém que antes sempre esteve ali para ela. Se perguntou o que tinha acontecido, tentou lembrar se fez algo de errado, em que momento ele passou a acreditar que ela o humilharia... Não encontrou a resposta, voltou para a área de treinamento, mas sempre se pegava com o coração reclamando em seu peito, lembrou do beijo e tocou a própria boca com a ponta dos dedos. “Que beijo foi esse? Que boca é essa?”
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