Vazio e suposições do medo

818 Palavras
Voltaram para o Brasil e Sol se encontrou com um tipo de solidão que desconhecia, uma tristeza que a deixava sem vontade de nada, não havia o desespero, nem a angústia ansiosa de quando procurava por Dylan, só um vazio que a deixava assustada. - O que foi filha? Por que não come? Seu pai está preocupado, preferia ver você lutando, mesmo que de um jeito atrapalhado do que assim. - Eu não sei, mãe. Acho que quando me livrei do que sentia fiquei vazia, eu tento pensar nele e não vejo sentido nenhum, quase com vergonha, como se eu estivesse bêbada e tivesse feito uma bagunça. Laury entendia o que a filha estava dizendo, foi o mesmo que sentiu quando traiu o marido com um soldado. Quando a paixão acabou sentiu vergonha por ter ido tão baixo, colocado tantas pessoas em risco, apenas para viver algo passageiro. A mãe de Solar era casada com Apollo, ex-subchefe da máfia americana, quando se casaram ela não o amava, foi forçada a aceitar um casamento arranjado, levada para um lugar desconhecido. Teve sorte, o marido era bom, respeitoso, mas ela ficava sozinha por meses e foi assim que conheceu Andrey e se apaixonou. O caso teve suas consequências, Laury engravidou, foi obrigada a confessar para Apollo o que tinha feito, foi desprezada pelo amante e acolhida pelo amor do homem que traiu. Não esqueceria o dia que o viu chorar como criança lhe perguntando o porquê. Apollo nunca a forçou a nada, a tratava como uma deusa, foi amigo muito antes de ser marido e esperou até que ela quisesse ser sua, mesmo assim, foi traído. Criou a filha ilegítima com amor, mas a esposa ele demorou mais de um ano até tocá-la novamente. O homem conhecido por ser implacável aprendeu a perdoar e Laury a amar quem lhe fazia bem. - Por que não faz algo de que goste? As vezes tudo o que precisamos é de movimento, filha. Não sei, fazer exercício, lembro que estava gostando de correr de manhã. - Correr... Solar olhou para o braço, antes de tudo aquilo costumava sair para correr com Dragón todas as manhãs. Saiu sem falar nada com a mãe, não era de exercício que ela sentia falta, era dele. Descobrir isso a fez sorrir de novo, havia meses que tinham voltado para o condomínio e não o encontrou, procurou, mas não de verdade. Pelo horário sabia onde ele estaria, sempre soube, o buscou pelo condomínio outras vezes porque o orgulho a impedia de admitir a saudade. Lembrou do que o mexicano lhe disse no primeiro dia. “Preciso começar o dia no escuro, para não esquecer de valorizar a luz”. Olhou o celular, pelo horário estava no rio, correu... conhecia o caminho, havia pisado aqueles passos na companhia do mexicano tantas vezes que perdeu as contas. Lembrou de Apollo, teve medo do que estava sentindo. Nasceu em uma país onde os nеgros só tiveram direito ao voto em 1965, estudou na Rússia, achava que o pai tinha a enviado para lá por causa da sua amizade com Erick, um colega venezuelano. Eram inseparáveis, mas Apollo detestava o menino. As primeiras lições foram sobre como os países de terceiro mundo eram inferiores pela miscigenação. “Quando você mistura um bom vinho a cachaça, não terá nem vinho, nem cachaça”. A professora era dura, as lições de etiqueta a faziam pensar que preferia ser livre, mas o tempo deixou as coisas mais fáceis. Nunca perguntou ao pai o que ele tinha contra Erick, tomou como verdade o que os professores diziam. Ninguém nasce com preconceitos, eles são ensinados por almas apodrecidas e apesar de nunca ouvir em casa nada sobre isso, olhar para a sua família deixava claro que as professoras do internato russo não estavam mentindo. Laury era loira, Júlia era loira, Linda era loira, até a namorada de Grayce era loira. A exceção era Ethan, mas ainda que os cabelos fossem pretοs, a pele era branca como a neve. Tinha medo de que o pai pudesse fazer com Dragón o mesmo que fez com Erick. Lembrou da manhã em que foi arrastada para o carro. - Ele não serve, Sol! Não pode falar com ele, não é uma boa companhia. O garoto foi executado pelos homens do capô, diziam que ele traiu o código, mas Solar se culpava. Chegou ao rio ainda com a cabeça cheia de incertezas, mas sem nenhuma dúvida de que precisava pelo menos vê-lo. Não o encontrou, ficou parada olhando para a água quando se assustou com um lagarto, o animal era enorme, a garota deu alguns passos e tropeçou, escorregou e caiu no rio. Sentiu os braços em torno do seu corpo, antes que tivesse pensado em qualquer reação. Como se ele tivesse simplesmente aparecido só percebeu que estavam muito a frente de onde caiu quando Dragon a tirou da água.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR