7- GABI

1188 Palavras
CAPÍTULO 7 GABRIELA NARRANDO A noite foi longa. Eu não sei que horas eram quando apagaram a luz lá fora, mas aqui dentro o escuro parecia não ter fim. O barraco era pequeno, parede gelada, chão duro. Só tinha um colchão fino, desses que mais parecem um pano grosso, jogado num canto. Deitei ali mesmo, abraçando o próprio corpo, tentando ocupar menos espaço no mundo. O frio vinha do chão. Subia devagar, teimoso, passando pelas costas, pelos braços, pelo peito. Tremi mais do que queria admitir. Puxei o casaco até onde deu, enrolei as pernas, mas não adiantava muito. Cada barulho lá fora fazia meu corpo travar. Passos. Vozes distantes. Um rádio chiando em algum lugar do morro. Fechei os olhos e tentei dormir. Não consegui. A cabeça não parava. Pensava no meu pai, na cara dele quando me deixou ser levada, quando ele me ofereceu em troca da dívida. Pensava se ele tinha dormido tranquilo. Pensava em como tudo tinha mudado em poucas horas. Minha vida inteira cabia agora naquele barraco frio, naquele colchãozinho fino, naquela espera sem resposta. Em algum momento, chorei em silêncio. Chorar alto parecia perigoso. Mordi a manga do casaco pra abafar o som. O peito doía. Não era só o frio. Era o medo. Era a sensação de não pertencer a lugar nenhum. O tempo passou arrastado. Quando o cansaço venceu, dormi aos pedaços. Acordava assustada, achando que alguém ia entrar. O coração disparava à toa. Depois caía de novo num sono raso, pesado, sem sonho bom. De madrugada, senti cheiro de comida. Alguém deixou mais um lanche perto da porta. Esperei o silêncio voltar pra pegar. Comi devagar, quase sem sentir gosto. A fome era menor que o nó na garganta. Voltei pro colchão e fiquei olhando pro teto invisível no escuro. Eu não sabia quanto tempo ia ficar ali. Não sabia o que ia acontecer comigo quando o dia amanhecesse. Só sabia que aquela noite tinha me ensinado uma coisa: o frio não vinha só de fora. Quando a primeira luz da manhã começou a entrar pelas frestas, eu já tava acordada fazia tempo. Abraçada aos joelhos. Esperando. Com medo. Mas viva. E isso, por enquanto, era tudo que eu tinha. A porta fez um barulho seco quando abriu. Meu corpo inteiro travou na hora. Levantei o rosto devagar e vi ele entrando, ocupando espaço demais naquele barraco pequeno. Digão. Alto, postura de quem manda em tudo sem precisar levantar a voz. O tipo de homem que não pede — toma. Ele me olhou de cima a baixo, rápido, avaliando. Como se eu fosse coisa. — E aí, dormiu bem? — perguntou, num tom quase debochado. Soltei um riso sem humor. — Eu deveria ter dormido? — respondi, a voz rouca de frio e de noite m*l dormida. Ele puxou um sorriso de canto, daqueles que dão mais medo do que raiva. — Até que eu fui bonzinho com você, princesa — disse, dando dois passos na minha direção. Meu estômago revirou. Segurei firme o cobertor fino, mais por instinto do que por proteção. Levantei o queixo e encarei ele, mesmo com tudo tremendo por dentro. — Se vai me matar, me mata logo — falei, sentindo o coração bater na garganta. — Pra que esse tormento? Ele parou. Me olhou com mais atenção agora, como se estivesse realmente ouvindo. — E tu acha que eu vou te matar e sair no prejuízo? — respondeu, seco. Engoli em seco. — Prejuízo de quê? — perguntei, já sabendo a resposta, mas precisando ouvir. Ele deu uma risada baixa. — Teu pai me deve. Muito. E você… — os olhos dele desceram e subiram de novo — …é a garantia. O nojo subiu quente, diferente do frio da noite. — Eu não sou uma coisa — falei, a voz falhando, mas firme. Ele se aproximou mais um pouco, ficando a poucos passos de mim. — Aqui em cima, Gabriela, tudo vira moeda — disse, sem gritar. — Uns valem mais, outros menos. A vida ensinou isso cedo pra mim. — Eu não escolhi estar aqui — rebati. — Eu sei — ele respondeu. — Quem escolheu foi teu pai. Aquela frase doeu mais que qualquer ameaça. O silêncio pesou entre a gente. Ele parecia me estudar, como se estivesse decidindo algo importante. Eu só respirava, tentando não desmoronar ali na frente dele. — Relaxa — Digão disse por fim, se afastando um pouco. — Ninguém vai encostar em você sem eu mandar. Isso não me tranquilizou. Só deixou claro quem mandava. — Levanta. Vou te levar pra outro lugar. Tu vai tomar um banho e comer alguma coisa. — Ele apontou pra porta. — Depois a gente conversa direito. — Conversa sobre o quê? — perguntei. Ele parou na porta e olhou por cima do ombro. — Sobre o que você vai ser aqui dentro. Saí do barraco atrás dele com as pernas meio bambas. O ar da manhã bateu no meu rosto, gelado, mas diferente do frio lá de dentro. Aqui fora o morro já tava acordando. Gente passando, moto subindo e descendo, criança correndo descalça, som de rádio misturado com conversa alta. Vida normal. Como se a minha não tivesse sido virada do avesso. Digão parou em frente a uma moto enorme, preta, brilhando mesmo suja de poeira. Parecia extensão dele. Poder em duas rodas. — Sobe — falou, simples. Hesitei por um segundo. Ele percebeu. — Não vou te jogar no chão, Gabriela — disse, já colocando o capacete na minha mão. Subi com cuidado. Ele segurou meu braço firme, sem brutalidade, mas sem delicadeza também. Quando sentei na garupa, fiquei dura, sem saber onde colocar as mãos. — Segura em mim — ordenou. Segurei. A moto arrancou forte, me fazendo colar nele na hora. O meu coração quase saiu pela boca. Subimos o morro acelerando, cortando as curvas estreitas como se ele conhecesse cada pedra daquele chão — e conhecia. Enquanto subíamos, eu observava tudo. As casas apertadas, empilhadas umas nas outras. Varal de roupa balançando. Gente olhando a moto passar e desviando rápido. Algumas cabeças abaixavam. Outras só observavam, curiosas. Ali, Digão não era só um homem. Era um nome. Uma presença. O vento batia forte no meu rosto, bagunçando meu cabelo, trazendo cheiro de comida, de fumaça, de terra molhada. O morro era vivo. Barulhento. c***l e bonito ao mesmo tempo. A moto foi diminuindo a velocidade conforme a gente chegava mais alto. Então ele parou. Levantei o olhar devagar. Na minha frente, uma mansão. Não era exagero. Era grande, murada, portão alto de ferro, câmera em tudo quanto é canto. Um contraste absurdo com o resto do morro. Parecia outro mundo enfiado ali em cima. — Aqui é onde eu moro — Digão falou, descendo da moto. Desci logo depois, meio tonta ainda. Olhei praquele lugar tentando entender como eu tinha ido parar ali. Barraco frio de um lado. Mansão do outro. E eu… no meio disso tudo, sem escolha nenhuma. Ele abriu o portão e fez sinal pra eu entrar. — Bem-vinda ao Santa Marta de verdade, Gabriela. Meu estômago revirou de novo. Continua.....
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