6- DIGÃO

1152 Palavras
CAPÍTULO 6 DIGÃO NARRANDO Acordei antes do sol. Costume antigo. O corpo desperta antes da cabeça pedir mais cinco minutos. Fiquei alguns segundos olhando pro teto, sentindo o peso do dia cair em cima de mim antes mesmo de levantar. Levantei. Fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água fria cair dessa vez. Acorda melhor que café. A água batendo no peito, descendo pelas costas, limpando o resto da noite m*l dormida. Passei a mão no rosto, na barba rala, tentando organizar os pensamentos. Nada se organiza de verdade. Saí do banho, me sequei e me vesti com calma. Calça escura, camiseta simples, tênis. Peguei a pistola no criado-mudo, conferi o carregador por reflexo, coloquei na cintura. Depois o rádio. Tudo no lugar certo. Sempre. Desci as escadas já no modo trabalho. O cheiro de café veio antes da voz. Karina tava sentada à mesa, cabelo preso de qualquer jeito, caneca na mão, cara de quem já tava acordada fazia tempo demais pra idade que tem. Pirralha folgada, mas esperta. — E aí, pirralha, já tá de pé? — perguntei, pegando uma xícara. Ela levantou os olhos devagar. — Bom dia pra você também — respondeu, irônica. Dei um meio sorriso e me sentei. — Dormiu bem? — Dormi — ela falou. — Mas quero saber da menina, Rodrigo. Meu corpo travou por meio segundo. — Que menina? Ela revirou os olhos. — A menina do asfalto. — apoiou os cotovelos na mesa. — Ela deve tá com fome. Deve ter passado frio. Dei de ombros, soprando o café. — Fodä-se. Não tenho nada a ver com isso. Liz bateu a caneca na mesa. — Tem sim! — falou, irritada. — Solta a menina, coitada. Levantei o olhar devagar, sério agora. — Não se mete nisso. Não é da tua conta. Ela me encarou sem medo nenhum. Igualzinha minha mãe fazia. — Tudo é da minha conta quando tu vira as costas pra humanidade — respondeu. — Ela não é bandida, não é do morro, não escolheu isso. — Ninguém escolhe nada aqui em cima — cortei. — Aprende isso cedo que dói menos. — Você tá errado — ela insistiu. — E no fundo sabe disso. Terminei o café num gole só e levantei. — Já chega — falei. — Esse assunto morreu. Peguei a chave, ajeitei a arma na cintura e liguei o rádio. — Qualquer coisa, chama — avisei, já indo pra porta. — Um dia isso ainda vai te cobrar — ela disse atrás de mim. Parei por um segundo. Só um. — Tudo cobra — respondi. — Eu só pago do meu jeito. Saí do barraco com o sol começando a bater no morro. Movimento acordando, rádio chiando, vida seguindo como se nada tivesse fora do lugar. Peguei a moto e dei partida. O ronco cortou o silêncio da manhã ainda preguiçosa. Cumprimentei os vapores da segurança com um aceno de cabeça. Os caras já tavam ligados, arma no corpo, olho atento. Tudo no eixo. — Bom dia, chefe — um deles falou. — Fica esperto — respondi. — Hoje promete. Desci o morro devagar no começo, só sentindo o clima. O Santa Marta acordava daquele jeito de sempre: criança indo pra escola, barraca abrindo, som baixo em alguma casa, rádio chiando notícia que ninguém confia. E no meio disso… elas. As piranhas já tavam na pista cedo, roupa curta, olhar afiado, riso fácil. Algumas se jogavam na frente da moto de propósito, empinando o corpo, chamando pelo nome. — Ô Digãooo… — Bom dia, patrão… — Leva eu contigo hoje… Ignorei. Nem olhei. Já passei dessa fase faz tempo. Mulher assim nunca foi falta pra mim. E hoje, menos ainda. Desci mais rápido agora, acelerando. Cheguei na boca e estacionei do jeito de sempre. O movimento já tava rolando. Rádio não parava um segundo. Entrega, aviso, corre. — Chefe — Juninho se aproximou. — Tudo certo por enquanto. — E o barraco da sete? — perguntei, direto. — Tranquilo. A mina comeu. Tá quieta. Assenti, fingindo indiferença. — Qualquer coisa diferente, me chama — falei. — Ninguém chega perto sem minha ordem. — Já tá avisado — ele respondeu. Entrei na sala da boca, sentei na cadeira e comecei a resolver o que precisava. Mas, por mais que eu tentasse focar, alguma coisa tava fora do lugar. Não era medo. Não era pena. Era aquela sensação chata de quando o controle começa a escorregar devagar, sem fazer barulho. E eu odiava quando isso acontecia. Porque no meu mundo, tudo que foge do controle… cobra caro depois. Encostei na cadeira, puxei o baseado do bolso e acendi sem pressa. A primeira tragada desceu queimando, conhecida. A fumaça subiu lenta, espalhando pelo cômodo, ajudando a dar aquela desligada mínima no barulho da cabeça. Não resolvia nada, mas dava um intervalo. Soltei o ar devagar, olhando pro nada. A porta abriu. — Bom dia, chefe — Juninho falou, entrando e fechando atrás dele. — Dia — respondi curto, puxando outra vez. Ele parou na minha frente, mãos no bolso, postura relaxada demais pra quem carrega o peso que ele carrega comigo. Juninho nunca precisou provar nada. Já provou tudo. — Dormiu? — perguntou. — O suficiente. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me estudando. Conhecia meus tempos. Sabia quando era hora de falar… e quando não era. Mas aquela pergunta tava presa nele desde a noite anterior. — E a mina? — soltou enfim. — O que tu vai fazer com ela? Soltei a fumaça pelo nariz, encostando a cabeça no encosto da cadeira. — Ainda não sei. Juninho arqueou a sobrancelha, surpreso. — Tu nunca fica sem saber. — Sempre fico — respondi. — Só não costumo admitir. Ele deu um meio sorriso de canto e se apoiou na parede. — Ela tá quieta. Não deu trabalho. Assustada pra caralhø… mas quieta. — Melhor assim. — O pai dela tá sumido — Juninho continuou. — Sumiu depois que entregou a menina. Ninguém acha. Fechei a cara. — Covarde — murmurei. — E agora? — ele insistiu. — Vai segurar a mina quanto tempo? Dei outra tragada, pensando. — Até eu decidir. O silêncio voltou a se espalhar entre a gente. Juninho me encarou sério agora. — Só te falo uma coisa, Digão — disse. — Quanto mais tempo ela ficar aqui… mais complicado fica. Olhei pra ele. — Eu sei. E era isso que me incomodava. Dívida costuma ser número. Carga. Valor. Mas aquela tinha nome. Tinha rosto. Tinha medo estampado no olho. Apaguei o baseado no cinzeiro e levantei da cadeira. — Por enquanto, mantém do jeito que tá — falei. — Segurança dobrada. Comida. Água. E ninguém chega perto. — Beleza. Passei por ele e parei na porta. — Juninho… Ele me olhou. — Se alguém desobedecer essa ordem — completei — eu mesmo resolvo. Ele assentiu, sério. — Sempre. Continua .....
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